Tomar banho sem roupa em chuveiros mistos, monitores nus no recinto, jovens incontactáveis e proibidos de se verem ao espelho e chantagem para poderem comer. Esta foi a realidade de vários jovens durante 15 dias num acampamento no País Basco, em Espanha. O caso está agora nas mãos da Ertzaintza, a polícia autónoma do País Basco, segundo a imprensa espanhola.
O acampamento Sarrea Euskal Udaleku Elkartea seria a colónia de férias destes jovens, com idades entre os 13 e os 15 anos, durante 15 dias — mas foram tudo menos umas férias para diversão.
Durante a estadia, duas meninas do acampamento enviaram cartas aos pais onde relatavam tudo o que se estava a passar. Numa delas, a menina pede aos pais que lhe respondam também por carta, já que não tinha acesso ao telemóvel. No entanto, a carta apenas chegou após o dia 23 de agosto, data em que os jovens voltaram para casa.
Mas foi a partir destas cartas, agora divulgadas pelo jornal espanhol El Correo, que os pais denunciaram o caso.
“O nosso grupo concordou que os meninos tomam banho primeiro, depois as meninas. Eles não me vão forçar (a tomar banho em chuveiros mistos)”, contou uma das jovens, revoltada com a situação. Acrescentou ainda que não podiam tomar banho quando queriam — apenas quando os monitores deixavam.
“Ninguém nos avisou sobre chuveiros mistos. E algumas das meninas saíram traumatizadas. Algumas tiveram que receber apoio psicológico e outras nunca mais querem saber de nenhum acampamento de verão”, revelou uma das mães ao mesmo jornal espanhol.
Da mesma forma que os jovens eram obrigados a tirar a roupa para tomar banho, os próprios monitores andavam nus pelo recinto. “As monitoras fazem topless ou como se diz na piscina e pela cozinha andam assim”, contou a mesma jovem, segundo a ABC País Basco.
Na denúncia, os pais das jovens relatam ainda um caso de assédio sexual contra uma menina por outro jovem do acampamento, em que “ninguém fez nada”.
Mas os problemas não ficam por aqui. “O que é muito estranho é que não nos podemos olhar ao espelho porque eles são pintados para que não nos possamos ver porque, lê-se, “não importa se pareces mal” (“gaizki ikusten ba zara berdin du”) e outra frase escrita num espelho onde está uma mulher desenhada de pernas abertas referia “on egin” — ou seja, “que aproveite” — denuncia a mesma jovem.
A segunda menina a escrever uma carta não revela pormenores, dizendo apenas não se estar a divertir e que, se quisesse que os pais a fossem buscar, iria “encontrar um telemóvel”: “Porque dentro das regras do acampamento não podemos falar com os pais”.
Após a publicação das primeiras denúncias, surgiram novos relatos, inclusive de um educador de menores que já tinha alertado os superiores (e as autoridades) do que se passava naquele acampamento há um ano — não há registo de investigações ou de sanções aplicadas, adianta o El Correo.
O mesmo educador explica que alguns jovens já tinham comunicado comportamentos que, para ele, eram “inaceitáveis”. Entre os relatos, está a chantagem praticada pelos monitores que obrigavam as crianças a “chupar o dedo do pé para comer o lanche”, contou.
Uma das famílias veio também contar que “atiraram uma panela inteira de ervilhas” ao seu filho.
“Estão a usar as atividades do acampamento para espalhar mensagens transfóbicas”, justifica a associação
Após a divulgação das cartas que levaram à denúncia, a associação emitiu um comunicado nas redes sociais, onde os educadores desmentem as acusações.
“Tudo isso parte de uma narrativa muito distante da realidade, usando as atividades do acampamento para espalhar mensagens transfóbicas”, acusam os monitores. “Chamamos a isso transfobia porque foram espalhadas mensagens de ódio em relação aos chuveiros mistos, tanto nas redes sociais quanto nos média.”
No que toca aos chuveiros mistos, a colónia mantém uma posição firme, adiantando que é uma decisão que faz parte da “educação feminista e igualitária” que segue, “que não deixa de fora vários corpos e identidades”.
“Na nossa sociedade, casas de banho e chuveiros são uma ferramenta para dividir as pessoas de acordo com um género. Essa divisão, além de excluir diferentes corpos e identidades, provoca situações de desconforto e discriminação. A nossa missão é criar lugares seguros para todas as crianças e jovens com espaços mistos, sem a necessidade de identificação prévia de género”, escrevem. No entanto, garantem não obrigar ninguém a despir-se e oferecem um “acompanhamento e alternativas personalizadas em cada caso”.
A associação garante ainda que os pais são previamente avisados de que não há acesso a telemóveis dentro do acampamento e que, “quando necessário”, os responsáveis é que entram “em contacto imediatamente com as famílias”.
“Recebemos mais mensagens positivas e gestos de apoio, e queremos agradecer às crianças, aos jovens e àqueles ao nosso redor pelo seu apoio”, concluíram no comunicado.
O Departamento de Cultura do Governo Basco e o Conselho Provincial de Álava indicaram que a associação não pediu autorização para realizar atividades com menores e que, por ser privada, garantem não lhe conceder quaisquer subsídios, descartando quaisquer responsabilidades.
Texto editado por Carlos Diogo Santos