Entre tantos pontos maus, entre tantos registos que o colocam entre os piores (ou mesmo como o pior) desde o final da era Alex Ferguson, a vitória do Manchester United frente ao Sunderland também conseguiu colocar Ruben Amorim como o primeiro… numa vertente positiva: tornou-se o primeiro a ganhar o jogo 50 pelos red devils desde a saída do mítico treinador escocês, algo que David Moyes, Louis van Gaal, José Mourinho, Ole Gunnar Solskjaer e Erik ten Hag não conseguiram. Mais: pela primeira vez na presente temporada a equipa ganhou sem sofrer golos, curiosamente na estreia de Senne Lammens na baliza em vez de Altay Bayindir. Paragem sossegada durante as seleções? Não, longe disso. E as nuvens mantêm-se em Old Trafford.

Mount comandou a maluquice de uma equipa cada vez mais bipolar: Amorim manteve o sistema, dominou e regressou às vitórias ante o Sunderland

Antes, Amorim desdobrou-se em elogios aos jogadores. “Pareceu confiante no primeiro jogo mas o mais importante foram os companheiros terem ajudado a ter um bom encontro porque estava toda a gente focada. Foi um bom dia para nós. Porquê agora? Era o Altay que estava a jogar, depois sentia-se que precisava de se adaptar. Novo país, novos treinos, a pressão que vocês [jornalistas] colocam é gigante… Precisa de estar preparado porque as coisas no nosso clube são muito difíceis mas esteve bem. Esteve confortável, mais uma vez, e isso é um bom sinal”, referiu sobre Lammens. “Sabemos que ele é muito bom. Sempre que ele tem a bola no 1×1, dá-nos muitas oportunidades de marcar. Ele pode ajudar o Bryan [Mbeumo] a jogar mais por dentro e a preocupar-se com as corridas por trás dos defesas”, explicou sobre Amad Diallo.

“Não há seguimento na nossa equipa. Com pausa ou sem pausa, sabemos o que acontece quando ganhamos um jogo. A minha frustração é não ver a mesma equipa quando jogamos casa e quando jogamos fora. Vocês viram hoje [sábado]. Não jogámos bem na segunda parte mas estávamos focados, lutámos pelas segundas bolas, o Ben [Sesko] estava sempre lá para tocar na bola. Estas pequenas coisas ajudam a vencer jogo. Às vezes tens os teus momentos, e na primeira parte tivemos muitos, mas na segunda parte se nós não somos capazes de jogar bem, eles também não podem jogar bem. Esta é a forma como uma grande equipa joga durante a época. É essa a minha frustração”, acrescentou depois do triunfo com o Sunderland por 2-0.

Eles querem fazer o melhor. Sei que não querem mudar de treinador constantemente. Mas estar com o treinador é ‘vou dar o meu melhor em cada transição’. Precisamos de mostrar com ações. Tenho a certeza de que, quando vemos os jogos, sabem que, por vezes, podemos fazer melhor.”

Com o terceiro triunfo na Premier League em sete jornadas, neste caso o terceiro consecutivo em casa como ainda não tinha acontecido desde que Ruben Amorim chegou ao clube, o Manchester United subiu à décima posição da Premier League com dez pontos, a quatro dos lugares de Liga dos Campeões que continuam a ser uma mera utopia apesar de, esta temporada, até pela eliminação precoce na Taça da Liga frente ao modesto Grimsby Town, tudo estar concentrado no Campeonato e, mais tarde, na Taça de Inglaterra. E é exatamente por isso que, entre os antigos internacionais que são hoje comentadores, o destino parece estar traçado.

“Quando as coisas não estão bem, queremos que funcionem. Espero que Amorim consiga dar a volta, é um jovem treinador fantástico, mas quando não consegues vencer a pressão vai perseguir-te. Mas espero realmente que dê a volta à situação. Foi importante mas é preciso ver consistência. Sistema? Mudou ligeiramente, com um futebol um pouco mais direto, com Sesko. Temos de dar-lhe crédito, disse que não ia mudar mas mudou ligeiramente. Jogaram muito bem, foram eficientes, jogaram de forma simples, e foi uma vitória muito importante. Falta de líderes? O futebol mudou muito desde a minha época. Não há muitos líderes no futebol mundial. A sociedade também mudou. Esperemos que ele consiga recompor-se e supere este momento difícil, que não há como negar, e que chegue a bom porto”, referiu o antigo avançado e capitão Wayne Rooney, na Sky Sports, depois de algumas semanas em que foi colocando em xeque o português.

“Quando ganhamos não é o sistema, quando perdemos a culpa é do sistema.” Rooney perdeu a fé, mas Amorim mantém a ideia

“Não gosto de dizer que um treinador tem de ser despedido, é uma falta de respeito para com o trabalho do homem. Mas cheguei a um ponto em que considero que a situação é insustentável. É inevitável que aconteça antes do Natal. As suas estatísticas como treinador do Manchester United são inacreditáveis”, referiu o ex-defesa internacional do Liverpool, Jamie Carragher, neste caso a uma casa de apostas. “Sinto que com o Ruben chegámos a um ponto em que já não queremos falar em despedir treinadores a toda a hora, mostrando que o Manchester United lhes dá tempo suficiente. Ele nunca será vaiado pelos adeptos e no jogo com o Brentford pensei ‘Está a ter tempo a mais’. Parece que é só uma questão de tempo para as coisas acabarem”, admitiu também Paul Scholes, antigo médio da seleção inglesa e capitão do Manchester United.

“Se os comentadores mexem com a tua cabeça, não deves jogar pelo clube, é simples. As pessoas não se lembram quando Alan Hansen nos criticou quando éramos jovens e dizia que não se podia ganhar nada com crianças? Aquele era o melhor central daquele momento, um dos mais bem sucedidos, a falar de nós como se fôssemos inferiores e longe de sermos bons o suficiente. Acham que não fomos criticados durante as nossas carreiras? Isto faz parte se jogas no United, têm de dar um passo à frente. Nunca culpei ninguém quando perdia. Havia responsabilidade. Porquê culpar outras pessoas quando se perde? Esse é, por si só, um grande problema. Arranjar desculpas, atalhos e culpar os outros é a pior coisa que se pode fazer na vida”, referiu o ex-defesa e capitão do United, Gary Neville. “Seria terrível ter de admitir mais um erro e despedir Amorim. Os donos do clube parecem paralisados pelo conjunto de erros que cometeram nos últimos 18 meses. Amorim está sob uma pressão tremenda e tem muita sorte de ainda estar no banco do Manchester United”, disse ainda Alan Shearer, antigo avançado dos Três Leões, neste caso a podcast The Rest is Football.

Ainda antes do triunfo na receção ao Sunderland, Ruben Amorim tinha saído em defesa do seu sistema de jogo, passando ao lado de tudo aquilo que os comentadores iam dizendo sobre o seu trajeto desde que foi para Old Trafford: “É normal. Não se pode fugir dos resultados. E depois há a bagagem da época passada, mas a época passada para mim já não interessa. Em relação a esta temporada, já falámos sobre isso. Tivemos seis jogos e perdemos três, depois temos de olhar para os jogos que perdemos. Perdemos com o Arsenal por causa do sistema? É o seu trabalho formar opinião. Quando se olha para o jogo com o Manchester City, a primeira coisa pensa quando o jogo começa é o sistema? Acho que não. E o Brentford? Não olho para a forma como sofremos golos mas sim para a forma como criámos as oportunidades. Não tem nada a ver com o sistema. E não estou a dizer que esta equipa poderia, ou não, jogar melhor com outro sistema. O que estou a dizer é que quando olho para os jogos que perdemos, não considero que tenha sido por culpa do sistema”.