O sistema solar foi montado no Grand Palais, com um sol gigante ao fundo e os planetas suspensos, com saturno a girar com os seus anéis. Matthieu Blazy fechou a temporada de estreias na Paris Fashion Week (que teve Jonathan Anderson pela Dior, Pierpaolo Piccioli pela Balenciaga e Miguel Castro Freitas na Mugler) com um desfile performático ao estilo Karl Lagerfeld, mas com o twist que a Chanel precisava, sem abandonar os códigos da maison centenária. E arrancou com a essência do estilo pessoal da fundadora, numa parceria improvável com a clássica Charvet, a camisaria parisiense que nasceu em 1838 e era frequentada por Boy Capel.
Foi logo nos primeiros looks que o espírito masculino e feminino ficou evidente, com as calças com corte largo, camisas grandes e blazers cortados. “Descobri que Gabrielle Chanel era cliente da Charvet, assim como o seu namorado. Então pensei como era interessante o facto dela pedir emprestado constantemente as roupas dele, tornando-se assim igual, mas ao mesmo tempo — e aqui está o paradoxo Chanel — extremamente sedutora”, disse Blazy aos jornalistas, depois do desfile.
Os looks pretos e brancos estão lá, mas há também muita cor em saias com plumas e padrões em sedas esvoaçantes. Os clássicos tweeds ganham versões experimentais, com o padrão impresso ou tecidos mais leves e fluidos do que a tradicional lã estruturada. As saias abaixo do joelho trazem aberturas que ao primeiro passo deixam uma perna à mostra. Os coordenados ficam menos justos e com formas mais soltas. As carteiras surgem em releituras unissexo, as joias ficam ainda mais destacadas e as camélias icónicas vêm em acessórios e detalhes de todas as cores. Novidades que foram recebidas por um conjunto de antigas embaixadoras Chanel, entre nomes como Penélope Cruz, Charlotte Casiraghi, Margot Robbie e as atuais representantes, Ayo Edebiri e Nicole Kidman, que regressa à maison depois de em 2004 ser a estrela da campanha para a Chanel No. 5.
Na fila da frente também estava Pedro Pascal, que levou uma carteira Chanel a tiracolo para ver a irmã, Lux Pascal, na passarelle. Lux é uma mulher trans, e uma voz ativa pela comunidade desde 2021 — mas não é a primeira modelo transgénero a trabalhar para a Chanel. Em 2019 a maison escalou Teddy Quinlivan para uma campanha de produtos de beleza — a modelo havia tornado pública a sua transição de género dois anos antes.
Matthieu Blazy parece assim apresentar uma nova visão para a marca, que até hoje só foi comandada por outros três diretores artísticos: a própria Gabrielle Chanel, Karl Lagerfeld e Virginie Viard, que dirigiu a casa por cinco anos depois da morte de Lagerfeld e que manteve a narrativa estética do seu antecessor. Bruno Pavlovsky, o presidente da secção de moda da Chanel, disse antes do desfile, citado pelo The Guardian, que a marca precisava “de uma nova faísca” e que alertou Blazy que “se a Chanel parecer igual depois do desfile, ficarei muito desapontado”. Entretanto, também disse ao designer que este só tinha “uma responsabilidade, a de não haver uma redução“, no negócio de quase 20 mil milhões de euros — que em 2024 viu a sua receita cair em 4,3% em relação ao ano anterior.
▲ Matthieu Blazy escolheu o tema de universo para o seu primeiro desfile à frente da Chanel
Gamma-Rapho via Getty Images
Com 41 anos e um currículo que inclui Raf Simons, Maison Margiela, Céline e Calvin Klein e Bottega Veneta, Matthieu Blazy foi o escolhido para a recuperação. O New York Times diz que esta “não é a Chanel das nossas avós”, o The Guardian afirma que o designer “trouxe a maison para o século XXI” e Chloe Malle, a nova diretora da Vogue norte-americana, considera que o capítulo Lagerfeld está encerrado e a marca entra agora “numa nova galáxia”. As críticas são positivas para a modernização, que destacam como o novo diretor criativo trouxe frescura para os já estabelecidos códigos da casa. Matthieu Blazy pode ser de outro planeta, mas permanece dentro do universo Chanel.
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