Depois de anos a ser adiado, o julgamento do ex-líder da ETA, José Antonio Urruticoechea, mais conhecido como Josu Ternera, deverá começar esta quinta-feira, dia 9 de outubro, em Paris. Ternera faltou à primeira sessão, marcada para esta quarta-feira, por motivos de saúde, avançou o La Vanguardia. Atualmente com 74 anos, e com um cancro não identificado, deve agora submeter-se a um exame médico realizado por um profissional nomeado pelo Tribunal de Recurso de Paris para determinar se pode viajar para Paris, se pode participar no julgamento a partir desta quinta-feira e, se for caso disso, em que condições.
Josu Ternera é acusado de ter pertencido à organização terrorista basca — que ao longo de 60 anos de atividade fez 850 mortos e 6500 feridos — entre 2002 e 2005, período em que foram encontradas vestígios da sua presença clandestina em França, depois de ter fugido de Espanha em 2001. I
nicialmente condenado à revelia a sete anos de prisão em 2010, quando foi capturado em 2019, depois de 17 anos em fuga, reivindicou o direito à repetição do julgamento na sua presença. Isso deveria ter acontecido logo em 2021, mas a defesa conseguiu que o caso voltasse à fase de instrução, tendo sido repetidamente adiado desde então.
Este processo vai ainda revelar se Ternera tem finalmente de responder aos dois pedidos de extradição para Espanha relacionados com o atentado de 1987 contra o quartel da Guarda Civil em Saragoça, no qual foram assassinadas onze pessoas, e com o financiamento da ETA através das herriko tabernas. Justiça francesa já os aceitou.
O ataque em Saragoça foi o mais violento no qual esteve envolvido: na manhã de 11 de novembro de 1987 uma bomba explodiu numa residência onde viviam guardas e as suas famílias, em Saragoça. Ao todo morreram onze pessoas, entre as quais cinco menores, com idades entre três e os 16 anos. Na época, Josu Ternera já fazia parte da direção da ETA, à qual ascendeu depois da morte de Domingo Iturbe Abasolo.
No entanto, Josu Ternera estreou-se como membro da ETA muito antes. Foi aos 18 anos que cumpriu uma prova de iniciação que consistiu na vandalização de campas nas vésperas do Dia de Todos os Santos. Passada a prova, avançou depois para ações cada vez mais violentas, justificando a sua especialização em explosivos, utilizados tanto em atentados como em assaltos a bancos e empresas.
O primeiro crime da ETA viria a ocorrer no seu primeiro ano enquanto membro, em 1968: o assassinato do guarda civil José Antonio Pardines. Três anos depois, Josu Ternera fugia para França, onde se dedicou ao roubo de explosivos para utilizar em ações da ETA. Só voltaria a regressar a Espanha já na década de 1980, para ser depois um dos membros da ETA responsáveis pelo assalto à empresa da família Orbegozo, que terá rendido cerca de 4 milhões de pesetas ao grupo terrorista. Saturnino Orbegozo, o patriarca da família, esteve sequestrado entre novembro de 1982 e janeiro de 1983.
A 11 de janeiro de 1989, Josu Ternera foidetido em Bayonne, localidade francesa próxima dos Pirinéu, e condenado depois em 1990 a 10 anos de prisão. Cumpriu metade e foi depois extraditado para Espanha em 1996. A libertação chegava em 2000, seguida das eleições para o parlamento basco, nas quais concorreu nas listas do Euskal Herritarrok (partido abertzale entretanto ilegalizado) e foi eleito. Como deputado, chegou a ser membro da Comissão de Direitos Humanos daquele parlamento, por designação dos partidos independentistas.
A carreira política de Josu Ternera foi abruptamente interrompida quando, em 2002, foi constituído arguido pelo atentado de 1987 em Saragoça. O ex-líder da ETA regressava assim à clandestinidade. O Tribunal Supremo emitiu uma mandado de captura internacional, que foi aceite pela Interpol. O último ato de Josu Ternera em nome da ETA foi o anúncio da sua dissolução e desmantelamento, em maio de 2018.
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