Índice
Índice
Estávamos em 1992 quando Elena Tejada se mudou para San Sebastián, no País Basco. Elena tinha apenas 22 anos e acabara de sair da academia da Polícia, mas já tinha em mãos uma missão que nunca tinha sido bem sucedida, nem realizada por uma mulher: infiltrar-se no grupo terrorista separatista basco: a ETA. Foi a primeira a fazê-lo, numa operação que durou oito anos e terminou com a detenção de dois dos líderes do Comando Donosti, um dos mais mortíferos do grupo.
A missão obrigou não só Elena a mudar-se, mas também a cortar os laços com a família. Com os amigos. E a criar uma nova identidade para os proteger a eles e a si mesma. Durante aqueles oito anos, foi Aranzazu Berradre Marín. Depois das detenções, a Polícia Nacional espanhola declarou que “Aranzazu Berradre não existe”. O executivo de Madrid ainda procurou recompensá-la pelo seu serviço, mas ela recusou as honras. Insistiram várias vezes. Percebeu que podia pedir o que quisesse. Não quis. Até que se lembrou de uma necessidade básica e arriscou: pediu apenas um carro para se deslocar até ao trabalho. Um Ford Fiesta branco.
Pouco depois, a ETA descobriu a sua verdadeira identidade, identificou a família e declarou-a “traidora”. Isso obrigou-a a sair do país, onde permanece até hoje. Durante mais de duas décadas, a história caiu no desconhecimento quase total. Até a realizadora Arantxa Echevarría ter decidido transformar a sua vida num filme. “La infiltrada” estreou nos cinemas espanhóis em outubro de 2024 e, este sábado, foi premiado com o Goya ex-aequo de Melhor Filme. E Elena Tejada volta a ser reconhecida em toda a Espanha. E talvez mais além.
▲ À ETA fora atribuídos mais de 850 mortos e 2.600 feridos
AFP via Getty Images
A jovem polícia que ganhou “currículo” nos círculos separatistas bascos
Elena Tejada nasceu em Logroño, uma localidade da comunidade de La Rioja, mas foi em Ávila, no centro de Espanha, que frequentou a academia da Polícia. A Polícia Nacional selecionou-a diretamente na academia, juntamente com outros quatro agentes, três mulheres e um homem. Deveriam infiltrar-se em cinco bairros diferentes, conhecidos por serem pontos de atividade da ETA, relatou Julio (nome fictício), o responsável pela missão, ao jornal basco El Correo em julho do ano passado.
Agora, o El Mundo identifica o responsável pela missão como o comissário Fernando Sainz Merino, conhecido como “o inumano”. Agentes que trabalharam sob a sua alçada contam que escolhia preferencialmente mulheres por serem “psicologicamente mais resistentes”. As histórias de “Julio” e Sainz Merino coincidem em todos os detalhes.
Elena foi enviada para Logroño, onde adotou o novo nome — Aranzazu ou Arantxa, um diminutivo comum deste nome basco —, cortou então todas as ligações com a família e juntou-se ao Movimento de Objeção de Consciência. O objetivo era movimentar-se nos mesmos círculos da ETA, ainda antes de procurar infiltrar-se no grupo, para que uma eventual investigação ao seu passado pelos terroristas não fizesse soar nenhum alarme.
A ideia de começar a missão na sua terra natal também não foi ingénua. A história de Arantxa tinha várias verdades, retiradas da vida de Elena, para a tornar mais credível. “A ETA era um grupo muito fechado, quase familiar. Os novos chegavam com muito apoio. A única possibilidade era que fossem eles a recrutá-la diretamente. Graças a isso, nunca duvidaram dela”, explicou “Julio” ao El Correo.
[Terapia de Casal é o podcast que pode acabar com o casamento do Guilherme Fonseca e da Rita da Nova. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível nas plataformas de podcast.]
Dados os primeiros passos em Logroño, Elena mudou-se para San Sebastián, onde começou a trabalhar num talho e como babysitter de famílias abertzales — simpatizantes do movimento independentista basco. Sempre com o mesmo objetivo, juntou-se a uma trupe de teatro local e a uma escola de euscara (a língua falada no País Basco), ia a eventos organizados pelo Herri Batasuna, o braço político da ETA e frequentava herrikos — as tabernas bascas onde se propagavam as mesmas ideias.
O seu responsável renovava os apelos a que não procurasse o grupo cedo demais: “Deixa-te ser capturada, não esperes ser capturada”, dizia-lhe. Ao fim de cinco anos a viver como Arantxa, a espera compensou e Elena recebeu um bilhete para uma reunião com a ETA.
Motorista, colega de casa e informadora em salas de espera de hospitais
A ETA — acrónimo para Euskadi Ta Askatasuna, que significa País Basco e Liberdade em euscara — foi um grupo armado separatista e terrorista, fundado em 1958, durante o franquismo, com o objetivo de alcançar a independência para o País Basco. Até ao fim da sua atividade armada, em 2011, foram-lhe atribuídos dezenas de atentados bombistas, ataques e raptos que fizeram mais de 850 mortos e 2.600 feridos.
Uma das células mais ativas do grupo era o Comando Donosti que, entre 1982 e 2001, matou mais de 60 pessoas. Foi ainda responsável por alguns dos crimes mais mediáticos da década de 90, como o rapto e assassinato de Miguel Ángel Blanco, político do PP e autarca de uma localidade basca, em 1997. Foi neste grupo que Elena Tejada se infiltrou.
▲ A praia de La Concha era o ponto de encontro habitual para os novos recrutas da ETA
AFP/Getty Images
A carta que a agente Elena recebeu em dezembro de 1997 estaria assinada por José Javier Arizcuren Ruiz, conhecido como ‘Kantauri’, líder militar da ETA, escreve a Esquire. “Arantza, ouvimos coisas boas sobre ti. Queremos colaborar contigo. Se estiveres disposta, aparece no sábado, em La Concha”, podia ler-se na carta, relata por sua vez, o chefe de missão.
No dia e hora combinados, Elena foi recebida Kepa Etxebarria, um dos líderes do Comando Donosti, que precisava de alguém com carro e carta de condução para ser seu motorista. Ela foi e ficou com a função. Pouco tempo depois, Etxebarria pediu novamente ajuda a Elena. Desta vez, precisava de uma casa onde o comando se pudesse reunir e a agente disponibilizou o seu apartamento.
Durante quase dois anos, partilhou casa com Etxebarria e, mais tarde, com Sergio Polo Escobés, o outro comandante do Donosti. O apartamento em que se reuniam estava repleto de microfones e era vigiado a tempo inteiro por uma equipa de doze pessoas selecionadas pelo comissário Sainz Merino —ficaram conhecidos como “Os 12 Apóstolos”. Estas eram as únicas pessoas que conheciam a verdadeira identidade de “Arantxa”, mas a agente não sabia que tinham sido destacados para esta missão.
“Vimo-la na rua três ou quatro vezes e nem sequer conhecíamos a cara dela porque não queríamos prestar atenção. Algumas vezes, estava acompanhada pelos membros da ETA e preferíamos evitar que um olhar a denunciasse. Teríamos dado a vida por ela ali mesmo, mas não queríamos olhar para ela, caso detetasse que éramos um dos seus, apesar de termos vigiado toda a sua vida durante meses”, relatou um dos “apóstolos” ao El Mundo.
Tudo o que não era intercetado por esta equipa era comunicado diretamente por Elena ao seu chefe de missão, quando se reuniam em salas de espera de hospitais. Foi assim que transmitiu informações que permitiram salvar a vida de um juiz, outro político do PP e alguns soldados, alvos identificados pela ETA.
A “trégua armadilhada” e o desmantelamento do Comando Donosti
A primeira grande vitória desta missão deu-se a 16 de setembro de 1998, quando a ETA anunciou uma trégua unilateral, para travar a violência, mas mantendo o objetivo da independência do País Basco. Elena informou o seu chefe de missão que a o grupo terrorista não tencionava cumprir o acordo e que era uma desculpa para o governo espanhol abrandar a pressão sobre o grupo, para que este se pudesse reconstruir, fortalecer e rearmar.
O comissário relatou esta informação ao então ministro da Administração Interna, Jaime Mayor Oreja, também ele natural do País Basco. Oreja classificou a trégua como “uma trégua armadilhada” e o executivo espanhol recusou-a e insistiu na dissolução da ETA.
▲ A ETA foi o grupo armado que queria a independência do País Basco
Gamma-Rapho via Getty Images
Sem espaço para se reorganizar, os líderes da ETA começaram a fugir para França, para escapar ao cerco que parecia apertar sobre os líderes do grupo armado. No ano seguinte, Kantauri foi preso em França, o que motivou a fuga dos dois líderes do Comando Donosti que vivam com Elena: Kepa Etxebarria e Sergio Polo Escobés.
A agente fez a denúncia e, no dia 10 de março de 1999, ambos foram detidos a caminho da fronteira. O Comando Donosti nunca se reconstruiu depois destas detenções. Contudo, passados 25 anos, ambos os homens estão em liberdade, depois de terem sido condenados e cumprido as respetivas penas de prisão. Kepa Etxebarria saiu em liberdade em 2019, após 20 anos de uma pena de 36 — isto porque em 2012 o Supremo Tribunal espanhol definiu os 30 anos como pena máxima para os seus crimes.
Já Sergio Polo Escobés foi condenado por quatro crimes, num total acumulado de 287 anos de prisão. Apesar de ainda faltarem quatro anos para completar os 30 anos de pena máxima, Escobés saiu da prisão em fevereiro de 2024, depois de um juiz lhe ter concedido liberdade condicional.
Uma posição na administração da Repsol ou um Ford Fiesta branco?
Depois do papel que desempenhou nos desmantelamento do Comando Donosti, a missão de infiltrada de Elena Tejada terminou. Como agradecimento, foi-lhe concedida a cruz de Mérito Militar branca. O executivo procurou atribuir-lhe mais honras, mas a agente recusou sempre. Logo após o fim da missão, Elena foi recebida pelo ministro Mayor Oreja, o secretário de Estado, Ricardo Martí Fluixá, e o seu chefe de gabinete, Pedro Gómez de la Serna. Este último relatou ao El Mundo o encontro entre os quatro.
“Espanha está em dívida. O mínimo que podemos fazer é oferecer uma compensação. Talvez queira um trabalho específico, um futuro noutro país…”, disseram os representantes do governo. “Fiz apenas o meu trabalho”, respondeu Elena. “Ainda assim, o Estado quer reconhecer o que fez. Na verdade, por decência, temos de reconhecer o seu trabalho“, insistiram.
“Se tivesse pedido uma posição na administração da Repsol, garantias financeiras para a vida, o que quer que fosse, ter-lhe-ia sido dado”, refletiu posteriormente o chefe de gabinete. Confrontada com a insistência, Elena finalmente cedeu. “Não sei, gostaria de ter um Ford Fiesta branco“, pediu. Nem este pedido era um capricho. A esquadra onde agora trabalhava era bastante longe de sua casa e queria facilitar as deslocações até ao emprego, relata o jornal.
Apesar da nova posição, Elena continuou a deslocar-se aos herrikos de San Sebastián, onde outrora estabelecera contacto com membros da ETA e agora dizia lamentar a detenção dos seus colegas. Estes contactos tiveram um fim abrupto, quando a revista Ardi Beltza, ligada à ETA, desmascarou a sua identidade.
Para além do verdadeiro nome de Elena Tejada, a revista publicou a sua morada e identidade e a morada dos seus pais. A cara de Elena passou a estar em cartazes nos herrikos, marcados com as palavras “Traidora Procurada”. O Comando Donosti podia ter acabado, mas a ETA ainda estava viva e Elena foi obrigada a sair do país.
“Ela nunca falará. Eu sempre lhe disse: vão continuar a procurar-te, mas nunca fales”, recorda o seu chefe na missão infiltrada. O seu vatícinio não se revelou totalmente verdade. No ano passado, Arantxa Echevarría, a realizadora de “La Infiltrada”, teve oportunidade de falar pessoalmente com Elena. Acabou por recusar, pois a produção do filme já estava num estado muito avançado. “Eu já tinha imaginado a nossa Arantxa”, declarou a realizadora ao Diário Público.
Sem aquilo que poderiam ter sido novas informações, tudo o que se sabe hoje sobre Elena Tejada é que continua a trabalhar para a Polícia Nacional, numa embaixada espanhola no estrangeiro, onde responde por outro nome e criou a sua própria família, que desconhece o seu passado como infiltrada do grupo terrorista.