Recrutada por Ghislaine Maxwell no resort de luxo de Donald Trump na Florida e oferecida a homens poderosos por Jeffrey Epstein, entre os quais o filho “playboy” da rainha Isabel II. No livro de memórias que será lançado na próxima semana, Virginia Giuffre descreve em detalhe os encontros com o príncipe André entre 2000 e 2001, quando terá sido vítima de uma rede de tráfico sexual comandada por Epstein e Maxwell. “Acreditava que fazer sexo comigo era um direito de nascença”, descreve, sobre a atitude do duque de Iorque na primeira vez que estiveram juntos. A mulher suicidou-se em abril de 2025, mas quatro anos antes terminou de escrever as suas memórias que, com a ajuda da jornalista Amy Wallace, resultaram no livro Nobody’s Girl: A Memoir of Surviving Abuse and Fighting for Justice, que será lançado a 21 de outubro.
Num trecho divulgado pelo The Guardian, Giuffre pormenoriza o momento em que conheceu Ghislaine Maxwell no resort Mar-a-Lago, em Palm Beach, na Florida. A mulher começou a trabalhar no empreendimento de Donald Trump graças ao pai, que era funcionário de manutenção e responsável pelos aparelhos de ar condicionado e pelos campos de ténis. “Depois de alguns dias o meu pai disse-me que queria apresentar-me ao próprio senhor Trump. Os dois não eram exatamente amigos. Mas o papá trabalhava muito e Trump gostava disso — vi fotografias dos dois a posarem juntos, a cumprimentarem-se. Um dia o meu pai levou-me ao escritório de Trump“, relata Giuffre, dizendo que o atual Presidente dos EUA foi “amigável” e ofereceu-lhe um emprego de babysitter, a cuidar dos filhos dos amigos que frequentavam o resort.
Com a oferta, Giuffre passou a trabalhar durante o dia nas instalações de Mar-a-Lago e à noite em diferentes casas, a cuidar das crianças enquanto os pais saíam. Entretanto, a mulher relata que se encantou com o trabalho no spa do resort e começou a interessar-se pelos tratamentos de relaxamento. Foi neste contexto que terá conhecido Ghislaine Maxwell. Em julho, Trump confirmou em conversa com jornalistas a bordo do Air Force One que chamou a atenção de Epstein por estar a recrutar trabalhadores do resort. “Tirou-me pessoas que trabalhavam para mim, e eu disse, não o faça mais. E ele continuou a fazer. Disse-lhe: fique longe daqui”, descreveu Trump, que foi questionado especificamente sobre o caso de Giuffre. “Não sei. Acho que ela trabalhava no spa. Acho que era uma destas pessoas. Sim, ele roubou-a“, afirmou o Presidente.
▲ Virginia Giuffre escreveu o livro há mais de quatro anos. Suicidou-se em abril, mas deixou por escrito um pedido para que a obra fosse publicada
TNS
Recrutada por Maxwell e a primeira massagem a Epstein
De acordo com Giuffre, a primeira vez que Maxwell a viu foi ainda antes do seu aniversário de 17 anos. “Estava a caminhar em direção ao spa de Mar-a-Lago, para trabalhar, quando um carro começou a andar mais devagar atrás de mim. Lá dentro estava uma socialite britânica chamada Ghislaine Maxwell e o seu motorista, Juan Alessi, que ela insistia em chamar John. Alessi mais tarde daria um depoimento em tribunal sobre este dia, alegando que quando Maxwell me viu — o meu cabelo loiro longo, o meu corpo magro e a minha aparência notoriamente ‘jovem’ — ela pediu, do banco de trás: ‘Pare, John, pare!’”.
Neste dia Giuffre conta que o spa estava vazio e que ficou sentada na receção a ler um livro sobre anatomia que tinha requisitado da biblioteca. Foi quando Maxwell terá chegado e a cumprimentado. “Está interessada em massagem? Que maravilhoso”, terá dito Maxwell, que depois terá afirmado conhecer um homem rico, membro de Mar-a-Lago, que procurava uma massagista que pudesse viajar com ele. “Venha conhecê-lo hoje à noite depois do trabalho”, terá sugerido.
A mulher descreve o seu sentimento de “entusiasmo” pelo convite. Algumas horas depois, terá sido o próprio pai a levá-la à casa, na El Brillo Way. “Ninguém precisava explicar ao meu pai a importância de ganhar dinheiro”, justifica. Giuffre descreve a mansão cor-de-rosa e as paredes cobertas de fotografias e pinturas de mulheres nuas. A jovem terá sido levada então ao famoso “quarto de massagens” de Epstein, onde o milionário esperava, nu. “Olhei para Maxwell à procura de orientações. Nunca tinha recebido uma massagem, quanto mais feito uma. Mesmo assim, pensei: ‘Não era suposto estar tapada com um lençol?’ A expressão indiferente de Maxwell indicava que a nudez era algo normal. ‘Acalma-te’, disse para comigo. ‘Não estragues esta oportunidade.’”
Giuffre continua a contar que Epstein terá feito perguntas sobre se a jovem tomava contracetivos e como fora a sua primeira relação sexual. Foi quando revelou ao milionário sobre o seu passado de abuso — Virginia Giuffre já disse anteriormente à BBC que foi violada quando era criança, o que a levou a fugir de casa e viver nas ruas durante parte da sua infância. “Epstein não recuou. Em vez disso, fez pouco caso, provocando-me por ser ‘uma rapariga marota’”.
Dentro da rede de tráfico de Epstein
Giuffre diz que naquela noite foi abusada sexualmente por Epstein e Maxwell, e, a partir daquele dia, passou a “trabalhar” para os dois, com visitas frequentes. “Como podes reclamar de teres sido abusada, alguns questionam, quando podias simplesmente manter-te afastada? Mas este ponto de vista ignora o que muitas de nós passámos antes de encontrar Epstein, assim como o quão bom era em encontrar raparigas que tinham traumas e eram vulneráveis. Muitas de nós tinham sido abusadas e violadas em criança, muitas eram pobres ou até sem abrigo. Éramos raparigas com as quais ninguém se importava, e Epstein fingia importar-se“. A mulher diz que Epstein dava-lhe dinheiro para pagar a renda de um apartamento onde podia viver longe dos pais e também terá ameaçado membros da sua família, como quando exibiu uma fotografia do irmão mais novo. “Nunca deves dizer nada a ninguém do que se passa nesta casa”, terá dito o milionário. “Sou o dono do departamento de polícia de Palm Beach, não farão nada sobre isto”.
No trecho divulgado, Giuffre volta a mencionar Trump e também cita Bill Clinton, já num momento em que a jovem fazia parte da rede de tráfico sexual gerida por Epstein e Maxwell. A mulher fala sobre a festa de Halloween de Heidi Kum em Nova Iorque, em outubro de 2000, o dia em que terá conhecido o príncipe André, na qual também estavam o atual Presidente e a mulher, Melania. “Maxwell estava orgulhosa das suas amizades com pessoas famosas, especialmente homens. Adorava falar sobre como poderia telefonar tão facilmente ao Presidente Bill Clinton; ela e Epstein visitaram a Casa Branca juntos quando Clinton estava no cargo“, escreve Giuffre. A presença de Trump e Melania na festa de Heidi Klum foi descrita em alguns jornais da época — e em fevereiro de 2000 o casal já havia sido fotografado ao lado de Maxwell e Epstein.
▲ Trump, Melania, Epstein e Maxwell numa festa no resort Mar-a-Lago em fevereiro de 2000
Getty Images
De acordo com Giuffre, Maxwell e Epstein solicitavam as “massagens” em diferente horas do dia, e às vezes com a presença de outras jovens raparigas. Em determinado momento, terão começado a “emprestar” a jovem a outros amigos poderosos. Giuffre descreve um encontro com um “novo cliente” de Epstein e a sua mulher grávida, assim como com um professor. “Os cientistas não eram as únicas pessoas a quem Epstein recorria, usando os seus vastos recursos para ganhar acesso — foi assim que acabei traficada para um grande número de homens poderosos. Entre eles estava um candidato a governador que, pouco depois, venceria as eleições num estado do oeste, e um antigo senador. Como Epstein não me apresentava esses homens pelo nome, só viria a saber quem eram anos mais tarde, ao analisar fotografias das pessoas associadas a Epstein e reconhecer-lhes os rostos.”. Virginia Giuffre escreve ainda: “Não se enganem pelos que faziam parte do círculo de Epstein e dizem não saber o que ele estava a fazer. Epstein não só não escondia o que se passava como tinha uma certa alegria em fazer as pessoas assistirem. E as pessoas assistiam — cientistas, investidores da Ivy League e outras instituições, titãs da indústria. Assistiam e não se importavam.”
[Apesar da euforia em torno de Freitas, Soares recupera. O debate com Zenha será decisivo. Quando acabar, nunca mais serão amigos. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui e o segundo aqui]
Os três encontros com André
O primeiro encontro oficial com André, de acordo com Giuffre, foi a 10 de março de 2011, na casa de Maxwell em Londres. “Como Cinderella, ia conhecer um lindo príncipe! O seu velho amigo, o príncipe André, jantaria connosco naquela noite”, escreve. Virginia Giuffre relata então que Maxwell levou-a para um dia de compras: regressaram com três visuais diferentes e uma carteira Burberry. À noite, quando André chegou à casa, Maxwell terá logo pedido ao convidado para “adivinhar a idade” da jovem. “O duque de Iorque tinha 41 anos, e acertou no número: 17. ‘As minhas filhas são só um pouco mais jovens do que tu’, disse-me, explicando como tinha sido tão certeiro. Como sempre, Maxwell foi rápida com uma piada: ‘Acho que teremos de trocá-la em breve’”.
Giuffre relata que passou a chamar o príncipe Andy, assim como os amigos Maxwell e Epstein. Diante da presença do filho da Rainha Isabel II, lembrou-se também que a mãe nunca a perdoaria se não tirasse uma fotografia com alguém tão famoso. “Corri para pegar a minha Kodak FunSaver no meu quarto, regressei e entreguei-a a Epstein. Lembro-me do príncipe a colocar o seu braço em redor da minha anca enquanto Maxwell sorria atrás de mim. Epstein tirou a foto”, conta Giuffre, sobre a imagem que circulou na imprensa internacional em fevereiro de 2011, gerou uma grande crise dentro da realeza e serviu de prova para contradizer as alegações de André de que nunca esteve com a mulher.
Depois da fotografia, os quatro saíram para jantar num restaurante e depois foram à discoteca Tramp, onde Giuffre dançou com o príncipe. “Era um dançarino algo desajeitado e lembro-me de que suava abundantemente”, escreve. As alegações foram refutadas pelo príncipe numa entrevista à BBC em 2019, na qual afirmou ter uma doença que faz com que não sue, que não estava com Virginia na data que ela aponta porque tinha ido a uma pizzaria e sugeriu que a foto dos dois podia ser uma manipulação.
Virginia Giuffre descreve pormenores do primeiro encontro sexual com André, incluindo a sua “atenção especial aos pés” e a forma como parecia “apressado” para terminar, num ato que não terá durado mais do que meia hora. “Era amigável o suficiente, mas ainda assim achava que tinha o direito — como se acreditasse que fazer sexo comigo era um direito de nascença.” Na manhã seguinte Giuffre diz ter recebido 15 mil dólares das mãos de Epstein pelo “serviço”. Um valor que já tinha sido apontado em tribunal em 2016, num caso paralelo, e revelado no começo deste ano pela revista People.
A mulher descreve ainda outros dois encontros com André — um deles cerca de um mês depois, na casa de Epstein em Nova Iorque, com a presença de outra vítima, Johanna Sjoberg. O dia também terá sido fotografado, apesar da imagem não se ter tornado pública. Quanto ao terceiro encontro, Giuffre confessa não saber “exatamente” quando terá ocorrido, mas destaca ter sido na ilha privada de Epstein. Num depoimento apresentado em tribunal em 2015, a mulher já havia falado sobre este encontro, que classifica como uma “orgia”. “Epstein, Andy, aproximadamente oito outras jovens raparigas e eu tivemos sexo. As outras pareciam ser menores de 18 anos e não falavam inglês. Epstein ria sobre como elas não conseguiam comunicar, dizendo que estas eram as raparigas mais fáceis de conviver”.
O registo de voo do jato privado de Epstein de 4 de julho de 2001 diz que voaram de Little Saint James até Palm Beach Epstein, uma mulher, a própria Virginia e um homem descrito como AP, o qual o piloto afirmou em tribunal ser um código para o príncipe. Outras provas recentes divulgadas nos ficheiros revelados no final de setembro pelos congressistas democratas do Comité de Supervisão da Câmara dos Representantes norte-americana mostram que André voou no jato de Epstein em dezembro de 2000 e o milionário anotou na própria agenda um pagamento de uma “massagem a André”.
De recordar que Virginia Giuffre processou o príncipe André em 2021 por abuso sexual. O processo decorreu na justiça norte-americana e em fevereiro de 2022 ambos chegaram a acordo. Giuffre recebeu 14,3 milhões de euros, em que parte do valor foi doado à instituição que criou para apoiar vítimas de abuso e tráfico sexual. Entretanto, o duque de Iorque nunca assumiu qualquer culpa no caso e continua a negar que sequer a conheceu nos anos 2000.