Mais de cinco toneladas de haxixe e 580 mil euros em numerário. São estes os números mais surpreendentes da maior operação de combate ao tráfico de estupefacientes de sempre da PSP, que se desenrolou ao longo de quatro dias e só terminou esta segunda-feira à noite. PSP afasta-se de polémica com PJ e garante que “foram cumpridos os protocolos previstos”.
A operação, dirigida pela 1.ª Secção do Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa e conduzida pela Divisão de Investigação Criminal (DIC) da PSP, levou à detenção de sete pessoas, entre elas uma de nacionalidade estrangeira. Estão indiciados dos crimes de tráfico de estupefacientes agravado, associação criminosa e detenção, uso e porte de arma proibida.
Foram levadas a cabo cinco buscas domiciliárias, quatro buscas a armazéns e três buscas a garagens, nas zonas de Alcácer do Sal, Almada e Charneca da Caparica (Almada), Belas (Sintra), Corroios, Fernão Ferro e Foros de Amora (Seixal), e Montijo e Sarilhos Grandes (Montjo). Ao todo, foram encontrados 146 fardos de droga, cujos pacotes tinham denominações como “Lemousse”, “Gelato”, “Tuti fruti” ou a bandeira de Marrocos, códigos usados pelos traficantes.
Entre as dez viaturas que também foram apreendidas, figuram carros de luxo mas também de transporte de mercadorias. Afinal, esta rede recorria a locais junto a rios, aonde acedia através de duas lanchas rápidas e outras embarcações mais ligeiras, para guardar a droga vinda do Norte de África que era distribuída na Grande Lisboa, acredita a PSP.
“A abordagem, exigiu que estivéssemos fortemente armados, reforçados, quer na intervenção quer na realização das diligências desde sexta-feira”, frisou aos jornalistas o subintendente Rui Costa, comandante da Divisão de Investigação Criminal. “Não houve resistência dos suspeitos, mas a abordagem foi planeada, enquadrada com Equipas de Intervenção Rápida e EPRI. No local, havia muitas medidas de autoproteção, como sistemas de videovigilância, cães de raça perigosa e armas”: foram apreendidas duas metralhadoras, cinco pistolas, uma caçadeira, um revólver, três armas elétricas e cerca de 500 munições de diversos calibres.
A PSP encontrou ainda drones com câmaras que complementavam a videovigilância feita pelos suspeitos, e inibidores de sinal de telemóvel.
As investigações ainda estão em curso e, tendo em conta que a rede criminosa possa ter ramificações transfronteiriças, foi pedida a colaboração de organizações internacionais.
Quanto à polémica criada por a Polícia Judiciária não ter sido avisada acerca desta investigação da PSP, o comandante da Divisão de Investigação Criminal frisa que todas as diligências “foram devidamente articuladas com a 1.ª Secção do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa, que dirige a investigação”. O comandante do COMETLIS, subintendente-chefe Luís Elias, reforça essa ideia.
“O inquérito é dirigido pelo Ministério Público e a PSP efetuou as investigações sob direção do Ministério Público. Foram cumpridos os protocolos previstos, o protocolo UCIC [Unidades de Coordenação e Intervenção Conjunta] e foram comunicadas as identidades dos suspeitos à Polícia Judiciária em momento oportuno”, afirmou aos jornalistas, descartando mais comentários a informações vindas de “fontes anónimas”. “O que há que relevar é o grande trabalho feito pela PSP.”
“Não existe hierarquia entre órgãos de polícia criminal”, remata.
O comandante da Divisão de Investigação Criminal salienta que a PSP “reestruturou a sua estratégia de investigação ao tráfico de droga”, que se baseia nos três eixos da venda direta, dos abastecedores, e o terceiro nível: “alvos de importante interesse e valor”. Além desta, há mais investigações focadas neste terceiro ponto, ou seja, a grandes redes de tráfico conduzidas pela PJ. “Esta investigação exigiu muita entrega e resiliência”, reforça o subintendente Rui Costa.
A investigação decorre desde abril, e surgiu de uma informação sobre um possível abastecedor de haxixe na zona da Grande Lisboa. Alguns suspeitos têm antecedentes criminais: “Há uma relação hierárquica entre eles, teriam a sua função, mas não está ainda completamente clarificada a relação hierárquica e quem fazia o quê”, explica o responsável.
Uma coisa é certa: “O coração da organização foi atacado”, acredita. “As apreensões indicam isso mesmo.”
A quantidade de armas apreendidas mostra que, “para imporem domínio nas zonas de tráfico, os traficantes usam métodos violentos e não hesitam na violência”, ilustra por sua vez o comandante do COMETLIS, que deixa um aviso: “O tráfico de estupefacientes é prioridade da PSP. Todos os órgãos de polícia criminal são poucos para combater este fenómeno que é endémico, que tem influências noutras tipologias criminais. O que é importante é que todos os órgãos de polícia combatam este fenómeno.”