Stefano Mancuso, um dos maiores especialistas em neurobiologia vegetal, considera, em entrevista à Lusa, que os humanos deveriam aprender com as plantas a resolver problemas, em vez de fugir deles, e em comunidade.
O botânico italiano e cientista foi um dos oradores da conferência de sustentabilidade do grupo Jerónimo Martins, que decorre esta quarta-feira em Monsanto.
No seu livro, A Revolução das Plantas, o autor escreve que o que é mais importante para uma planta é encontrar uma solução efetiva para o problema, algo que lhe permita sobreviver. Questionado sobre o que é que a Humanidade deve aprender a partir disso, o cientista aponta duas coisas. “Primeiro, a resolver os problemas porque nós, humanos, normalmente dizemos que resolvemos os problemas quando, na verdade, estamos a afastar-nos deles”. Neste sentido, “os problemas permanecem”, adverte.
E dá o exemplo: “se estiver muito quente num lugar, nós mudamos para um lugar um pouco melhor. Se estiver muito frio, a mesma coisa”. Em resumo, “afastamo-nos sempre dos problemas”, diz.
No caso das plantas, isso não é possível porque a planta não se consegue mover, por isso tem “mesmo de resolver o problema”. “Diria que o que seria importante aprender com as plantas é a necessidade de agir” e “de mudar o nosso comportamento para resolver os problemas”, elenca.
A segunda coisa “que devemos aprender com as plantas é a capacidade de resolver problemas juntos”, e isso “é incrivelmente importante para as plantas”, defende. As plantas “agem como uma comunidade o tempo todo, mudam completamente o seu comportamento. Imagine uma floresta, um bosque, todas juntas resolvem o problema”, exemplifica. Agora isso “é algo que estamos muito longe de conseguir imitar”, remata Stefano Mancuso.
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Stefano Mancuso afirma ainda que os grandes problemas só podem ser resolvidos em acordo com a natureza e que a ideia de tecnologia resolve tudo não é verdadeira. “Temos a ideia de que todos os problemas da humanidade podem ser resolvidos pela tecnologia, o que é completamente falso”, considera o especialista. A tecnologia “pode resolver pequenos problemas, mas os problemas maiores precisam ser resolvidos de outra forma” e uma das maneiras “é observar a natureza”, salienta.
Na sua opinião, “a tecnologia é capaz de resolver problemas que se estendem por um período muito curto de tempo, alguns anos”. Mas “imagine a vida de uma espécie, a nossa espécie, a humana, chegamos a este planeta, surgimos há 300.000 anos e isso não é nada em termos de espécie”, prossegue o cientista. “Se quisermos viver como as outras espécies, por mais um milhão ou dois ou três ou quatro milhões de anos, então precisamos resolver problemas enormes”, explica.
Neste contexto, “todos esses problemas enormes podem ser resolvidos apenas de acordo com a natureza, não com a tecnologia”. Até porque “nunca haverá uma tecnologia que resolva por nós os problemas, por exemplo, o nosso impacto no meio ambiente”, conclui Stefano Mancuso.
Questionado sobre se as plantas são mais adaptáveis que os humanos, diz que não há dúvida sobre isso. “Vou dar apenas um número: a vida média de uma espécie vegetal, uma espécie de planta no planeta, é de 20 milhões de anos”, enquanto os humanos surgiram há 300.000 anos. “Imagine se conseguíssemos sobreviver como uma planta”, desafia.
Reduzir em 25% consumo de alimentos de origem animal salvaria florestas, diz o cientista Stefano Mancuso
Stefano Mancuso defende que se todos reduzissem o consumo de alimentos de origem animal em 25%, poderiam ser salvas um incrível número de florestas.
Questionado sobre a razão por que o número de florestas está a diminuir, Stefano Mancuso aponta: “Primeiro, porque não temos ideia do que estamos a fazer”. Ou seja, “estamos a desmatar florestas sem ter a noção das consequências disso”, lamenta, sublinhando que “tudo depende da floresta, do clima, do aquecimento global, da alimentação, de tudo”, a água, os remédios. “É difícil listar todos os benefícios que vêm de uma floresta” e o facto é que “estamos a desmatar principalmente para dar espaço aos animais, para a produção de alimentos para os animais”.
De acordo com o especialista, entre 95% a 96% das florestas são desmatadas para dar espaço ao cultivo de plantas necessárias para alimentar os animais. Para reduzir este impacto, primeiro é preciso “educar, dizer às pessoas o que está a acontecer”, prossegue Stefano Mancuso, que na sua intervenção abordou a ideia de que as plantas também brincam.
De acordo com o botânico, que publicou livros onde fala sobre a inteligência das plantas, há pequenas mudanças que, se forem feitas por todos, poderão mudar a situação.
Por exemplo, “se todos — e não estou a dizer que precisamos todos de ser vegetarianos — reduzirmos o consumo de alimentos de origem animal em 25%, o que é insignificante, salvaríamos um incrível número de florestas”, sugeriu, quando questionado sobre uma solução. Até porque se alguém ao preparar uma refeição reduzir em 25% os alimentos de origem animal sem dizer nada, “nunca perceberá isso”, diz.
Quanto aos movimentos que negam a existência de aquecimento global, Stefano Mancuso salienta que “há unanimidade na ciência”. Ou seja, que o aquecimento global está relacionado com as atividades humanas, produção de gases de efeito estufa pelos humanos. “Portanto, não há dúvida disso”, salienta, recordando que se os seres humanos estão a viver o dobro do que viviam há apenas um século, tudo se deve à ciência.
Na sua intervenção, o cientista apontou que não há planeta sem plantas, contudo, os seres humanos estão a destruir o meio ambiente. Por isso, classifica esse comportamento como “insano”, até porque “não há outro ser vivo, nenhuma outra espécie no planeta que esteja a destruir o meio ambiente do qual dependa a sua sobrevivência”. “Somos os únicos, é por isso que é insano”, reforça o especialista italiano.
Questionado sobre se vê alguma luz que leve a uma mudança, Mancuso refere que comparando com há 20 anos, “a situação está muito melhor”. “Quero dizer, há mais educação e as pessoas sabem o que está a acontecer e o que é preciso ser feito”, acrescenta. E mesmo os países “estão a começar a fazer algo”, aponta.
Atualmente “estamos numa situação em que os EUA estão a ser liderados por alguém” que não acredita nas mudanças climáticas. Mas a China, por exemplo, “que foi por muitas décadas a maior produtora de CO2, está a mudar”. O país está a fazer “muitas mudanças para reduzir o CO2 nos próximos anos”, diz, por isso Mancuso tem “quase a certeza” de que algo está a mudar para melhor.