A nova série Des Vivants surgiu para retratar a superação de sete sobreviventes à tragédia de 13 de novembro de 2015 no Bataclan, em Paris, “sem inventar nem sintetizar nada” do que aconteceu. No entanto, os oito minutos gravados dentro do local do ataque estão a gerar críticas entre o “desnecessário” e o “chocante”.
Jean Xavier de Lestrade é o diretor da nova série lançada no dia 27 de outubro na plataforma de streaming France.tv. Em entrevista ao jornal francês Le Monde, o cineasta conta que o objetivo da série nunca foi “contar um evento nacional”. “Foi, em última análise, o grupo de sobreviventes que me permitiu assumir o controlo da narrativa, pois eles contaram-na de forma muito simples e direta, sem emoção ou sentimentalismo e com uma liberdade surpreendente”, explica.
A série conta a história de superação de sete sobreviventes que foram feitos reféns dos terroristas há dez anos no Bataclan e que são agora um grupo de amigos. “Les Potages” , como se autonomeiam, (uma mistura entre a palavra francesa potes, que significa “amigos” e “otages” em referência a hostages, ou seja, reféns), reúnem-se pelo menos uma vez por mês nos últimos dez anos.
“Há outras maneiras de filmar noutras salas que têm os mesmos assentos vermelhos” — a controvérsia dos oito minutos de filmagem no Bataclan
Apesar de o cineasta francês saber que o tema é extremamente delicado, as críticas superaram o que Lestrade esperava.
Arthur Dénouveaux, o presidente da associação “Life for Paris” que representa alguns sobreviventes, sendo ele próprio um deles, já se manifestou contra a gravação dentro do Bataclan, elencando três motivos pelos quais não deveria ter sido feita.
“A primeira é que não é necessário, há outras maneiras de filmar noutras salas em Paris que têm os mesmos assentos vermelhos”, começa por explicar em entrevista à rádio francesa ICI. Dénouveaux defende ainda que a linha entre ficção e realidade “nunca deve ser ultrapassada”. “A fronteira deve permanecer estanque sob o risco de provocar reações muito complicadas, tanto nas vítimas como também potencialmente no espectador”, continua.
Dénouveaux faz ainda uma comparação com o caso de Gisèle Pelicot, a mulher que sobreviveu a quase dez anos de violações organizadas pelo marido, dizendo que “ninguém iria filmar onde aconteceram os atos horríveis cometidos contra Gisèle”.
Arthur Dénouveaux estava no Bataclan naquele 13 de novembro, mas conseguiu escapar pela saída de emergência onde ajudou também membros da banda que lá atuava a fugir.
O presidente da associação “Life for Paris” acrescenta ainda que não irá ver a série, mas que outros membros viram e relataram uma reação positiva. “Eu não quero contaminar as minhas memórias com ficção”, conclui.
Também Philippe Duperron, presidente de outra associação de sobreviventes designada “13onze15”, se manifestou sobre a nova série, dando um outro olhar sobre as gravações. “Se me perguntarem, os membros da associação não estão nem escandalizados nem revoltados. Alguns estão chateados por ter sido gravado no Bataclan, mas se tivesse sido gravado noutro sítio, outros ficariam chateados”, confessa.
O filho de Philippe morreu naquela noite com 30 anos. “Filmar lá não me dá particular dor ou prazer. Eu perdi o meu filho no Bataclan. Nada vai mudar isso. É difícil, mas a vida continua”, diz.
Para Jean Xavier de Lestrade, estas críticas deixaram-no “surpreendido”, segundo o The Guardian. “Esta polémica é surpreendente e estúpida. Eu consigo entender que alguns estejam chocados, mas nós não fizemos esta série para algumas vítimas, mas para toda a gente. Estamos a falar de oito minutos numa série de oito horas. Naqueles minutos, os espectadores podem estar dentro do Bataclan, dentro deste lugar de horror e tragédia”, explica, garantindo que a escolha de gravar no cenário do ataque não foi fácil, mas que os sobreviventes retratados acharam necessário.
Lestrade refere que os reféns do grupo que dá vida à série foram dos poucos sobreviventes que estiveram “cara a cara” com os terroristas, “que tiveram contacto direto, visual, físico e até verbal”. “Nós estamos a fazer ficção tão perto da realidade que gravar noutro sítio teria sido enganoso. Não fazia sentido”, concluiu o diretor da nova série.
Faz este ano uma década desde o dia 13 de novembro em que morreram cerca de 130 pessoas em três ataques terroristas em Paris. No Bataclan, quatro terroristas fizeram explodir a sala e dispararam tiros contra quem se encontrava a assistir a um concerto da banda norte-americana Eagles of Death Metal. Morreram mais de 80 pessoas naquela sala de espetáculos.