Uma sondagem atrás da outra, todas dão a primazia a Zohran Mamdani na eleição desta terça-feira para ‘mayor’ de Nova Iorque. O candidato de 34 anos, socialista democrata da ala mais à esquerda do Partido Democrata, é o principal favorito na corrida contra Andrew Cuomo — antigo governador do estado de Nova Iorque e que agora tenta um regresso como independente — e o republicano Curtis Sliwa.
Pela influência de Nova Iorque no panorama nacional, a eleição para o cargo de ‘mayor’ está a ser encarada com muita expectativa entre os democratas, que ainda procuram um rumo depois da pesada derrota nas presidenciais de 2024. Daqui a cerca de um ano há já ‘midterm elections’, em que estarão em jogo os 435 assentos na Câmara dos Representantes e 35 lugares dos 100 existentes no Senado, e que são consideradas fundamentais para o Partido Democrata mostrar alguma força perante o poder republicano nas mãos de Donald Trump.
Segundo a evolução das sondagens compiladas pelo New York Times, a margem de Zohran Mamdani oscila entre os sete pontos percentuais de vantagem sobre Andrew Cuomo (41% contra 34% pela AtlasIntel) e os 26 pontos percentuais (51% contra 25% pelo estudo do Emerson College).
https://t.co/8XfvUNxik4 pic.twitter.com/FJultc6fah
— Zohran Kwame Mamdani (@ZohranKMamdani) November 3, 2025
O embate desta terça-feira nas urnas já não é o primeiro entre Mamdani e Andrew Cuomo. Os dois candidatos enfrentaram-se nas primárias democratas de 24 de junho, com o jovem candidato a superar de forma surpreendente o antigo governador. Mamdani conseguiu uma enorme mobilização entre o eleitorado mais jovem e progressista e tem apostado num discurso que vai ao encontro do custo de vida das pessoas.
Muçulmano, crítico do apoio americano a Israel e defensor de impostos sobre os mais ricos, Mamdani representa também uma oportunidade para o Partido Democrata ‘tomar o pulso’ aos eleitores e a algumas das preocupações que mais colidem com as posições da administração Trump. Por outro lado, demonstra desde já um sucesso na aposta comunicacional, com uma forte tração nas redes sociais e sem enjeitar a presença em plataformas mais próximas dos republicanos, como a Fox News.
Liderança democrata hesitante no apoio a Mamdani
Apesar do aparente vazio de liderança nacional entre os democratas — que vai sendo já aproveitado por alguns rostos que se tentam posicionar para as presidenciais de 2028, como o governador da California, Gavin Newsom —, a hierarquia do partido demonstrou-se até ao momento algo relutante em apoiar Mamdani na corrida eleitoral para a sucessão ao atual ‘mayor’ Eric Adams (que apoia Cuomo, depois de se retirar precocemente da corrida).
Hakeem Jeffries, líder da minoria democrata no Congresso, só veio a público apoiar o jovem candidato socialista democrático no mês passado, enquanto Chuck Schumer, líder da minoria democrata no Senado, ainda não declarou publicamente quem vai apoiar nas eleições desta terça-feira. E estas são atualmente as principais figuras a nível institucional entre os Democratas, sem que o candidato de 34 anos tenha alguma vez criticado a ausência de apoio do ‘establishment’ do partido.
Contudo, de acordo com a CNN, o ex-presidente dos EUA Barack Obama já terá falado com Zohran Mamdani e, embora não tenha manifestado publicamente o seu apoio — devido a uma política pessoal de não envolvimento nas questões internas do partido —, terá feito saber através de fontes próximas que a campanha do jovem candidato é “impressionante” e que estará disponível para ajudar com conselhos.
Por outro lado, como relatou o Politico num artigo publicado esta segunda-feira, Zohran Mamdani tem feito um caminho de moderação de algumas das suas ideias e propostas. Nessa evolução está, por exemplo, a intenção de financiar as suas políticas sem recorrer a um aumento de impostos sobre os mais ricos, uma das propostas que tinha criado mais agitação entre a elite nova-iorquina e que agora, devido ao recuo, pode fragilizar a adesão entre os aliados mais à esquerda.
O confronto no horizonte com Donald Trump
Já em julho, Donald Trump demonstrava claramente na sua rede Truth Social a forma como olhava para Zohran Mamdani. “Como presidente dos Estados Unidos, não vou deixar esse lunático comunista destruir Nova Iorque. Fiquem tranquilos, eu controlo todas as alavancas e tenho todas as cartas na mão. Vou salvar Nova Iorque e torná-la ‘quente’ e ‘ótima’ novamente, assim como fiz com os bons e velhos EUA”, escreveu o Presidente dos EUA.
Trump chegou inclusivamente a colocar já em causa o financiamento do Governo central para a cidade de Nova Iorque e a admitir a possibilidade de enviar a Guarda Nacional para a cidade, tal como já efetuou anteriormente em Washington.
Efetivamente, Zohran Mamdani está nos antípodas políticos de Donald Trump e já se mostrou vocal sobre a intenção de fazer frente ao Presidente norte-americano em relação à política na imigração ou na perseguição a inimigos políticos, sem, todavia, expressar abertura para discutir formas de baixar o custo de vida para os nova-iorquinos.
As profundas divergências com Trump também podem jogar a favor de Mamdani num momento em que as sondagens apontam o descontentamento da maioria dos norte-americanos com a administração republicana. Segundo uma sondagem da ABC News/Washington Post/Ipsos, mais de seis em cada 10 americanos desaprovam a gestão de Trump na economia (face aos valores da inflação), no governo federal e nas tarifas, com 64% a considerarem também que o Presidente está a ir “longe demais” no exercício dos poderes presidenciais. A decisão está agora nas mãos dos eleitores nova-iorquinos.