É mais um caso de conversão rápida de muçulmanos ao cristianismo a levantar suspeitas no Reino Unido. Uma investigação do jornal britânico The Telegraph revelou recentemente que a Carelinks Ministries, uma instituição de solidariedade social associada à igreja minoritária Cristadelfiana, viaja por toda a Grã-Bretanha para batizar requerentes de asilo em hotéis para imigrantes. Submersos em água nas banheiras, quando se levantam, são considerados cristãos.
A Carelinks Ministries, que anuncia os seus batismos online, alega que, em 2024, converteu “mais de 260 indivíduos em cerca de 30 países”, que incluíam “refugiados e requerentes de asilo”. E é aqui que está o problema.
Há várias suspeitas de que estas conversões não são genuínas mas apenas uma forma de os imigrantes conseguirem asilo na Grã-Bretanha e escaparem assim à deportação. O Telegraph lembra que vários recém cristadelfianos obtiveram, nos últimos anos, asilo no país sob a Convenção Europeia dos Direitos do Homem (CEDH). O argumento é claro: se voltarem para os seus países muçulmanos como cristãos correm sérios riscos de serem perseguidos.
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A atenção sobre estes casos aumentou quando, há mais de um ano, Abdul Ezedi, um muçulmano que recebeu asilo após ser batizado, atacou uma mulher e duas crianças com uma substância química. Ezedi era descrito pelos amigos como “um bom mulçumano”, que ainda seguia práticas como comer apenas carne halal (palavra que significa permitido ou lícito, isto é, que o abate do animal tenha seguido as regras do Islão).
Na altura, Lord Carey, ex-arcebispo de Canterbury, alertou para o facto de a Igreja do Reino Unido estar a falhar em fornecer orientação suficiente aos sacerdotes sobre “como discernir se essas conversões são autênticas, duradouras e transformadoras”.
No entanto, a Igreja de Inglaterra negou as alegações de estar a operar uma “linha de produção” de batismos, apesar de reconhecer que “existe uma perceção entre alguns requerentes de asilo de que converter-se ao cristianismo ajudará ao seu pedido de asilo”.
A Carelinks não se quer envolver nesta polémica. Um dos voluntários da instituição, Duncan Heaster, admitiu ao The Telegraph que batizou pessoas em banheiras (outras no mar) mas frisou que não está interessado no debate sobre “se são sinceras ou se estão apenas a fazer isto para obter permissão para permanecer”no país.
“Nem eu nem a Carelinks representamos requerentes de asilo em tribunais, nem nunca participei em nenhum tribunal desse tipo”, disse. “Simplesmente batizo qualquer pessoa que deseje ser batizada” acrescentou. “Nem eu nem a Carelinks estamos envolvidos nos pedidos de asilo. Consideramos que é uma questão para os indivíduos e que é necessário que eles convençam o tribunal de que a sua conversão ao cristianismo é válida”.
A oposição conservadora não tem menosprezado o assunto. Chris Philp, “ministro sombra” da Administração Interna do Reino Unido, disse ao The Telegraph que estes batismos são uma “loucura” e provam que o sistema de asilo precisa de ser “completamente desmantelado”. Aliás, o ex-ministro do Partido Conservador, defende mesmo que o Reino Unido abandone a CEDH e que a lei seja alterada para que os migrantes não possam pedir asilo por motivos religiosos se apenas se converterem depois de chegarem ao Reino Unido.
Desde 2019, houve seis casos destes nos Tribunais de Imigração. Quatro pedidos foram indeferidos, mas um foi aprovado em janeiro de 2019, quando um juiz reconheceu, no processo de um iraniano convertido, “um receio fundado de perseguição ao retornar ao Irão por motivos religiosos”.
O outro deferimento foi também o de um iraniano convertido que conseguiu reverter uma recusa inicial. Em recurso, o juiz concluiu que ele corria o risco de “maus-tratos graves” se fosse deportado para o Irão.
Mas não são só os cristadelfianos — fiéis desta igreja minoritária fundada no século XIX que recusa algumas das doutrinas fundamentais do cristianismo como a Trindade (a divindade triúna de Pai, Filho e Espírito Santo) — que estão em causa. Há outras igrejas, mais tradicionais, que estão a batizar migrantes muçulmanos muito depressa e a apoiar as suas candidaturas de asilo. E isto, sublinha o trabalho do Telegraph, mesmo quando ficou provado em tribunal que os recém-convertidos não sabiam o que era a Páscoa, celebração crucial para um cristão: assinala a ressurreição de Jesus Cristo.
Foi o que se passou com um migrante iraniano batizado na igreja baptista dois dias depois de lá bater à porta. O pastor conversou com o homem com a ajuda do Google Tradutor antes de decidir que “não havia razão para não o baptizar”, cita-o o The Telegraph.
Ao mesmo jornal, um porta-voz da igreja admitiu que a rapidez do baptismo foi “invulgar”, mas ressalvou que o imigrante tinha revelado “sinceridade” e “compromisso” com o cristianismo. Do resto, lavou as mãos: “As decisões sobre pedidos de asilo cabem inteiramente ao Ministério do Interior [correspondente ao Ministério da Administração Interna em Portugal] e ao sistema de imigração”. É a eles que “compete investigar cuidadosamente todas as declarações de fé”, acrescentou, em declarações ao The Telegraph.
Texto editado por Dulce Neto