A associação alemã dos construtores de automóveis VDA surpreendeu o mercado ao recomendar publicamente aos seus membros que desenvolvessem soluções técnicas para impedir uma má utilização dos veículos equipados com mecânicas híbridas plug-in (PHEV). Referimo-nos à sua utilização sem recarregar regularmente a bateria — nunca usufruindo, pois, de uma utilização em modo exclusivamente eléctrico —, obrigando-os a funcionar exclusivamente como híbridos e, por isso mesmo, consumindo e poluindo muito mais do que anunciam, como ficou provado no mais recente estudo da ONG Transporte & Environment (T&E). Estes falsos argumentos “verdes” em prol do ambiente e da carteira dos condutores acabam, assim, por não justificar os incentivos à compra de que beneficiam.
Os PHEV aliam um motor de combustão a outro eléctrico, o qual é alimentado por uma bateria recarregável, visando aumentar a potência total, permitir percorrer no mínimo 50 km em modo EV e reduzir o consumo de combustível e as emissões quando o acumulador esgota a energia. Esta tecnologia, bastante sofisticada, foi uma excelente opção quando a oferta de veículos 100% eléctricos era diminuta e a rede de postos de carregamento era menos densa do que actualmente. Ainda assim, os PHEV continuam a ser uma solução que pode ser interessante para quem habite numa zona mal servida pela rede de postos de carga ou que tenha de realizar regularmente viagens mais longas. Mas o estudo da T&E demonstrou que passam a gastar e a poluir mais do um modelo equivalente apenas híbrido se não recarregarem o acumulador, por serem mais pesados devido à presença de uma bateria generosa, com uma capacidade entre 12 e 30 kWh, esta última superior a vários eléctricos do mercado.
Estudo acusa PHEV de emitir CO2 e poluir até sete vezes mais
Há anos que todos os veículos novos são obrigados a enviar para o construtor os dados recolhidos em condições reais, relativos à forma como são utilizados e qual é o consumo, sendo fácil extrapolar a partir daí quanto poluem. Estes elementos são depois, e mais uma vez de forma obrigatória, enviados para a União Europeia, que fica a saber, entre outros pormenores, qual é na realidade o verdadeiro consumo de um PHEV, quantos quilómetros percorreu em modo EV e quantas vezes recarregou a bateria. Estas informações serviram de base para o trabalho da T&E, que demonstrou sem margem para dúvidas que os PHEV — em que mesmo os mais potentes, anunciam consumos de 2 a 3 l/100 km e emissões de CO2 entre 10 e 30 g/km —, em condições reais de utilização acabam por gastar até oito vezes mais.
Bruxelas decidiu colocar um ponto final a esta discrepância e começou por anunciar novas regras de medição do consumo para os PHEV — integradas no novo método Euro 6e-bis, a adoptar a partir de 1 de Janeiro de 2026 —, elevando consideravelmente a distância a percorrer durante os testes de homologação, para reduzir o peso da distância percorrida em modo eléctrico na equação. Isto levará diversos veículos PHEV a perder os incentivos em muitos dos mercados da União, prejudicando os construtores que mais dependem desta tecnologia, com destaque para as marcas dos grupos germânicos BMW, Mercedes e Volkswagen.
Consciente do problema que se aproxima, a VDA resolveu ser proactiva e tentar minimizar os danos, aconselhando os construtores a fazer o que sempre evitaram, ou seja, impedir que os PHEV circulem sem nunca (ou quase nunca) recarregar as baterias. E potencialmente nem sequer será complicado encontrar uma solução que funcione, uma vez que a indústria desenvolveu uma solução eficiente para outro problema similar, quando teve de impedir os veículos a gasóleo com injecção de AdBlue de usufruírem da mesma potência quando tentavam deslocar-se sem recarregar o depósito deste aditivo destinado a reduzir as emissões poluentes.
Será curioso ver qual será a reacção dos construtores a esta “sugestão” da VDA, que é também o representante do lobby dos construtores alemães e, se decidirem emendar o erro, qual será a solução que vão apresentar para evitar que os PHEV não sejam vítimas da má fama de que paira sobre eles.