O neozelandês Billy Halloran estava a fazer a habitual corrida pela região montanhosa de Myoko, no norte do Japão, quando avistou ao longe dois ursos pretos asiáticos. Um dos animais, que pode chegar a pesar 130kg, lançou-se ao ataque. “Atirou-me no chão e mordeu-me o braço, com uma só dentada partiu-o”, relatou o sobrevivente à imprensa internacional em outubro. Este é apenas um de dezenas de ataques de ursos registados este ano que estão a preocupar as autoridades japonesas. A situação levou o Governo a anunciar na quinta-feira o envio de tropas para o norte do país para ajudar a conter a onda de ataques.
A operação militar começou em Kazuno, na província de Akita, onde os cerca de 30.000 moradores têm sido aconselhados a evitar zonas florestais densas e a permanecerem em casa depois do anoitecer. Espera-se que os soldados sigam depois para Odate e Kitaakita, ao abrigo de um acordo que deverá prolongar-se até ao final do mês de novembro. Os militares vão ajudar a montar armadilhas e apoiar no transporte de caçadores licenciados — estes últimos são os únicos autorizados a abater os animais.
Desde abril deste ano, pelo menos 13 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridas em ataques de ursos no Japão, segundo dados das autoridades japonesas, noticiou a imprensa. Este é um dos valores mais significativos desde que, em 2006, o país começou a contabilizar os ataques. A maior parte dos ataques mortais aconteceram precisamente em Akita e na província vizinha de Iwate.
As autoridades locais tinham vindo a alertar para o agravamento da situação. “A situação já ultrapassou a capacidade que a câmara e os municípios têm por si só”, afirmou o governador de Akita, Kenta Suzuki, numa publicação no Instagram no mês passado. Na região o número de avistamentos de ursos aumentou seis vezes, ultrapassando os oito mil, levando o governador a pedir a ação do exército. “Os governos locais e as associações de caça, que trabalham em conjunto com equipas de controlo da vida selvagem, estão agora severamente exaustas”, já dizia o ministro da Defesa japonês, Shinjiro Koizumi, numa conferência de imprensa em novembro. Acrescentou que as populações vivem em constante “ansiedade” devido aos ataques.
Os habitantes pedem uma resposta implacável para lidar com o problema. É o caso do japonês Keiji Minatoya, morador em Akita que foi atacado por um urso que encontrou na garagem da sua casa. “Os ursos que atacam aprenderam que os humanos são fracos”, disse em entrevista à Reuters.
“Mesmo que seja temporária, a ajuda das Forças de Defesa é um grande alívio”, disse Yasuhiro Kitakata, que supervisiona o departamento de ursos da cidade, citado pela agência norte-americana. “Eu costumava pensar que os ursos fugiam sempre que ouviam barulho, mas agora eles vão na direção do barulho. São animais verdadeiramente assustadores”, reconheceu.
O aumento da população de ursos, a falta de alimentos impulsionadas pelas alterações climáticas e o despovoamento das áreas rurais no Japão são apontados pelos especialistas como as principais causas dos avistamentos mais frequentes de ursos.
Os animais têm sido detetados junto a casas e até escolas. Algumas instituições de ensino foram mesmo fechadas temporariamente depois de ursos terem sido avistados nos seus terrenos. Só nas últimas semanas foi registado um ataque a clientes dentro de um supermercado e a um turista numa paragem de autocarro perto de um local nomeado património mundial pela UNESCO.