O altar na pequena cidade italiana de Trevignano Romano tinha uma Virgem Maria. Naquilo que era vendido como um milagre, a estátua da santa chorava alegadamente lágrimas de sangue. Quem geria o negócio era a vidente Giselle Cardia, que também dizia receber mensagens da Virgem Maria e fazer milagres. Esta quarta-feira, a empresária foi indiciada pelo Ministério Público de Itália por fraude fiscal qualificada e vai a julgamento, sobs suspeitas de ter lucrado 365 mil euros durante cinco anos.

Citado pelo jornal Corriere dela Sera, o procurador responsável pelo caso, Alberto Liguori, fala mesmo num “plano criminoso” colocado em prática por Giselle Cardia e também pelo seu marido, Gianni Cardia. Os dois obtiveram, diz a acusação, “lucros indevidos tanto com a arrecadação de dinheiro dos fiéis, como pela visibilidade que obtiveram nos meios de comunicação social”.

“O plano criminoso” da vidente tinha várias componentes: “Encenava aparições, recebia comunicações da Virgem Maria durante essas aparições que eram transmitidas online, transformou a sua casa num local de culto e dizia previa futuros cataclismos e desastres que poderiam ser evitados se se abraçasse o culto à Virgem Maria de Trevignano”.

Outra parte importante eram as lágrimas de sangue da Virgem Maria de Trevignano Romano, que tornavam o plano credível. A vidente fazia acreditar que eram mesmo da estátua, mas testes de ADN vieram a revelar que o sangue usado era da própria Giselle Cardia.

Para além do dinheiro que recolhiam diretamente pelos fiéis, Giselle Cardia e o marido criaram uma organização de arrecadação de fundos para financiar a associação “Madonna di Trevignano” que fazia, segundo o procurador, um “trabalho pseudorreliogoso”. A vidente “enganou as pessoas” que confiavam na “autenticidade das aparições” — e doaram “quantias de dinheiro para a associação” ou então diretamente para ela. A mulher chegou mesmo a “gerar o medo de um perigo imaginário” em certos fiéis para “os induzir a fazer donativos”.

E onde foi o dinheiro gasto? O procurador assegura que parte foi destinada a “embelezar e ampliar o local de culto” em Trevignano Romano. Mas não só: a vidente gastou as quantias recebidas em terrenos agrícolas (um chegou mesmo aos 50 mil euros), num carro da marca Mercedes (que custou 38 mil euros) e ainda uma garagem (de 11 mil euros).

As doações individuais chegavam aos milhares de euros. No total, entre 2018 e 2023, Giselle Cardia e o marido amealharam mais de 365 mil euros, uma quantia que o procurador concluiu que “não parece ter sido destinado às obras de caridade previstas pela associação”.

Em reação às acusações do procurador, a advogada da vidente, Solange Marchignoli, disse ter acolhido a “decisão” e sublinhou que é um “passo importante e necessário para esclarecer, nos fóruns apropriados, todos os aspetos do caso” que envolve a sua cliente.

“Embora se trate um momento delicado”, Giselle Cardia “expressa até um certo alívio”, de acordo com a advogada. A vidente acredita que um julgamento “permitirá que a verdade dos factos seja conhecida de forma clara e definitiva, colocando um ponto final às interpretações distorcidas, insinuações e controvérsias que a afetaram injustamente nos últimos meses”.

A estátua da santa foi comprada em Međugorje, um lugar de peregrinação na Bósnia-Herzegovina. Giselle Cardia começou a alegar a existência de milagre com as lágrimas de sangue. Em pouco tempo, o suposto milagre tornou-se conhecido nos arredores da cidade de Trevignano Romano, a cerca de 50 quilómetros de Roma, começando a receber centenas de peregrinos.

Contudo, em 2023, perante várias queixas de fiéis, a diocese de Civita Castellana abriu um inquérito para investigar o choro da estátua. Um ano depois, o Vaticano rejeitou qualquer componente sobrenatural na Virgem Maria de Trevignano Romano. Depois desta decisão, a câmara da pequena cidade chegou mesmo a proibir as peregrinações.

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Depois de algum tempo na ribalta, Giselle Cardia, desde quando viu o seu negócio a colapsar, mantém-se resguardada e não aparece publicamente. A advogada é quem a representa agora, respondendo sempre pela cliente. Em fevereiro de 2025, Solange Marchignoli assinalou que a vidente estava “bem”: “Tenho a certeza de que é movida por uma fé muito grande”.