Em 2030, a Estação Espacial Internacional (ISS) deverá ser desativada. Enquanto a data não chega, já há empresas a trabalhar para soluções comerciais que possam substituir o trabalho feito na ISS ao longo dos últimos 25 anos.
A Vast é uma das empresas que está a desenvolver esforços para ter uma estação espacial privada e comercial. O plano é ambicioso: conseguir ser a primeira a lançar uma estrutura deste género, já em 2026, chamada Haven-1. Andrew Feustel, que foi astronauta da NASA durante mais de duas décadas e passou mais de 200 dias no Espaço, na ISS, foi à Web Summit esta quarta-feira falar sobre o trabalho da empresa.
Criada apenas em 2021, a Vast trabalha a partir da Califórnia, com uma equipa composta por engenheiros experientes — alguns vindos da SpaceX. Há uma colaboração entre empresas para que uma cápsula da SpaceX possa assegurar o transporte de humanos, mas o restante trabalho, incluindo todos os componentes necessários para ter uma estação espacial em órbita, estão a ser criados pela Vast. A empresa também tem contado com o apoio da NASA para este projeto.
Vestindo um casaco com o logótipo da Vast, o astronauta principal da empresa fez questão de explicar que o objetivo desta estação não passa apenas pela ideia de fazer turismo fora da Terra. “A nossa empresa está sediada nos EUA, mas pretendemos trabalhar com todas as nações [que queiram desenvolver um programa no Espaço]. É essa a nossa clientela, não são indivíduos ricos. Isto não tem nada a ver com turismo, mas sim com a disponibilização de uma plataforma para que os humanos possam viver e trabalhar no Espaço.”
Quando a ISS for desativada, teme que seja o fim “do modelo de cooperação” internacional que pautou a existência destas instalações ao longo das últimas duas décadas, independentemente de conflitos na Terra. “É o parâmetro que muita gente usa como um ponto em que podemos todos conviver e trabalhar para um bem maior, um trabalho que é importante para os humanos.” A ISS tem espaço para astronautas de várias nacionalidades, como os EUA, Japão ou Rússia. Mas os lugares são limitados, deixando de fora vários países.
“É muito importante mantermos uma presença humana contínua em baixa órbita. Em particular os EUA e outras nações estão interessados em ter uma plataforma de baixa órbita em operação e a nossa empresa e outras estão a ter de fornecer esse serviço.” Com uma estação espacial comercial, a Vast espera que seja possível receber mais nações no Espaço, além das que já passaram pelo programa espacial da ISS.
Veustel frisou que ser uma “espécie multiplanetária” significa “não termos de ficar apenas na Terra e podermos expandir-nos para outras partes do Sistema Solar”. Mas reconheceu as dificuldades desse projeto. “Qualquer pessoa que perceba alguma coisa sobre o Espaço sabe que não é uma questão trivial. Isto não acontece num estalar de dedos.”
O astronauta rejeitou a ideia de que o entusiasmo à volta do Espaço seja um sinal de eventual “desinteresse” com a Terra. E lembrou a importância “dos ativos espaciais”, que têm reflexo na vivência diária. “Todos queremos usar os nossos telefones, voar em aviões, queremos viver num mundo com computação cloud, uma era digital. E tudo isso precisa de ativos espaciais. Em algum ponto temos de operar no Espaço e todas as nações querem fazer parte disso.”
Em vários pontos da intervenção sublinhou que a exploração espacial está também ligada a “investigação para tornar a vida na Terra melhor”. “Há muitos avanços que foram usados para melhorar a vida na Terra”, dando como exemplo “áreas como a investigação de células, ciências críticas, farmacêutica”.
Mesmo nos voos curtos de cinco minutos, que permitem ver a Terra de outra perspetiva, como aqueles que são feitos por empresas comerciais como a Blue Origin, Veustel reconheceu alguma “componente de investigação”. “Voltam com uma nova perspetiva e uma ideia sobre a vulnerabilidade do planeta.”
No palco da Web Summit, deixou uma mensagem final sobre as viagens ao Espaço. “Não estamos a ir lá para olhar pela janela, vamos para trabalhar”, sublinhou. “Será trabalho fora da Terra e para a Terra.”