“Temos de criar uma situação instável”; “tem de haver uma situação de guerra… Criar as condições para o inimigo”. Estas são algumas das notas recolhidas e reveladas por procuradores sul-coreanos, citadas pela CNN Internacional. Foram encontradas no telemóvel de um funcionário do Ministério da Defesa da Coreia do Sul e revelam os planos do antigo presidente sul-coreano, Yoon Suk Yeol, e de dois outros responsáveis. O objetivo era provocar o líder da Coreia do Norte para depois justificar a decisão de decretar a Lei Marcial na Coreia do Sul.

Em outubro e novembro de 2024, drones terão sido enviados da Coreia do Sul para o país vizinho, no Norte, lançando panfletos contra o regime ditatorial. Kim Byung Joo, deputado da oposição de Yoon Suk Yeol, chegou a afirmar que tinham sido lançados drones quatro vezes (a 3 de outubro, 8 e 9 de outubro e 13 de novembro), com o objetivo de “provocar uma resposta militar do Norte”, afirmou em declarações à CNN Internacional.

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Confrontados com esta ação “provocatória” — como se lia na investigação levada a cabo pelo Ministério da Defesa da Coreia do Norte — a Coreia do Sul desmentiu o seu envolvimento. Mas isto não convenceu a Coreia do Norte, sendo que os acontecimentos levaram até a irmã do ditador norte-coreano a emitir uma declaração em que alertava para “graves consequências”.

Poucos dias depois, o país anunciava que ia cortar as ligações rodoviárias e ferroviárias que ainda existissem com o Sul, pelo que explodiu duas estradas dentro do seu território. E no início do mês seguinte, a 3 de dezembro, o Presidente da Coreia do Sul declarou Lei Marcial, com o objetivo de “proteger o país das forças comunistas da Coreia do Norte”. O líder do Sul, Yoon Suk Yeol acusou ainda a oposição de controlar o Parlamento e de simpatizar com os vizinhos inimigos de Pyongyang.

“No mínimo — crise de segurança nacional”

Agora, as notas divulgadas pelos procuradores da Coreia do Sul parecem confirmar as suspeitas de que este foi um plano da Coreia do Sul desde o início. Segundo o porta-voz e assistente do procurador especial, Park Ji Young, os procuradores estão “chocados” com a descoberta que fizeram.

Nas notas encontradas no telemóvel de um antigo Comandante dos Serviços de Informações do Exército da Coreia do Sul, Yeo In Hyung, havia referências à criação de uma “situação instável”. “É preciso encontrar e explorar uma oportunidade única na vida que possa produzir efeitos a curto prazo. Para o fazer, temos de criar uma situação instável ou aproveitar uma oportunidade que foi criada”, lia-se na nota de 18 de outubro de 2024.

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Numa outra nota divulgada pelos procuradores, lê-se: “Visar locais onde [a Coreia do Norte] fique tão mal vista que sinta que não tem outra opção se não responder”.

A 23 de outubro, uma nota aludia a um “Objetivo e estado final”. E depois lia-se: “No mínimo — crise de segurança nacional (…) No máximo — dilúvio de Noé”, que, segundo a CNN Internacional, poderá ser uma referência ao facto de os únicos sobreviventes do dilúvio estarem a bordo de um navio com poder e exclusividade.

Poucos dias depois, a 5 de novembro, foi escrita a nota: “A ação do inimigo deve vir em primeiro lugar. Tem de haver uma situação de guerra ou uma situação que não possa ser controlada pelas forças policiais. Criar as condições para o inimigo… temos de esperar pela oportunidade decisiva.”

O Ministério Público da Coreia do Norte analisou ainda as notas de um outro responsável sul-coreano, neste caso Noh Sang Won, antigo comandante dos Serviços de Informações da Defesa do país. As anotações no seu bloco de notas mostram que os preparativos para a elaboração deste plano remontam pelo menos a outubro de 2023 (um ano antes de serem enviados os primeiros drones). “O [alegado] ato do presidente (…) é absolutamente inaceitável”, disse o porta-voz Park Ji Young à CNN Internacional.

Notas surgem após abertura de inquérito pelo Ministério Público

Apesar de o então Presidente sul-coreano ter um alegado plano para instaurar a Lei Marcial, o seu objetivo não foi atingido. Isto porque, para que a lei entrasse em vigor, tinha de ser aprovada no Parlamento — e isto não aconteceu.

A oposição convocou imediatamente uma manifestação de deputados à porta da Assembleia Nacional, que foi entretanto fechada à força pelas forças de segurança. À porta, em apoio, estavam vários cidadãos que também se manifestavam e tentavam garantir que a realização da votação da Lei Marcial acontecia. As portas acabaram por ser reabertas e a votação realizou-se. Foi votada uma resolução que obrigava o Presidente a levantar esta lei — e o “sim” ganhou.

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Cerca de quinze dias depois a destituição do Presidente Yoon Suk Yeol foi aprovada no Parlamento, uma votação que teve apoio de membros do próprio partido do Chefe de Estado. Ainda assim, o governante disse que ia continuar a lutar para se manter no cargo. O que não conseguiu.

Face à tentativa de Yoon Suk Yeol de impor a Lei Marcial, o Partido Democrático — atualmente no poder exigiu a abertura de um inquérito às alegações de que o antigo líder sul-coreano teria conspirado para dar origem a uma crise de segurança nacional, detalha a CNN Internacional. Foi no âmbito da abertura deste inquérito que foram agora divulgadas estas notas.

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