Um leilão de centenas de cartas de vítimas do Holocausto e de documentos dos nazis nos campos de concentração previsto para esta segunda-feira foi suspenso após fortes críticas de grupos de sobreviventes do campo de Auschwitz e pressão diplomática da Polónia, que se opôs à venda do conjunto pertencente a um colecionador privado alemão.

A venda ia ser feita pela casa Felzmann em Neuss, perto da cidade de Düsseldorf, e era constituída por parte de um espólio de um colecionador privado. O leilão, chamado de “Sistema de Terror Volume II”, incluía documentos e bens ligados ao Holocausto entre 1933 e 1945 — a totalidade do período do regime nazi na Alemanha.

Entre os bens da coleção que estavam na posse de membros do regime, estão documentos dos nazis sobre esterilização forçada no campo de concentração de Dachau, passaportes de judeus que fugiram para a América do Sul e registos de um prisioneiro que teve permissão para sair do campo de concentração de Mathausen.

Já nos itens ligados às vítimas, estavam à venda cartas escritas por prisioneiros para as suas famílias, três cadernos de um diário de um judeu polaco anónimo e estrelas de David usadas por judeus no campo de Buchenwald.

O cancelamento foi anunciado na rede social X pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia, Radoslaw Sikorski, celebrando também a decisão. “A memória das vítimas do Holocausto não é uma mercadoria e não pode ser objeto de comércio“, escreveu, apelando a entrega dos itens ao museu de Auschwitz.

Christoph Heubner, vice-presidente do Comité Internacional de Auschwitz, fundado por sobreviventes do campo, tinha dito que, “para as vítimas da perseguição nazi e os sobreviventes do Holocausto”, a venda da coleção era “uma ação de marketing cínica e vergonhosa“.

“A história e o sofrimento de todos aqueles que foram perseguidos e assassinados pelos nazis estão a ser abusados e explorados para fins comerciais”, continuou, defendendo que os itens “devem ser exibidos em museus ou em exposições em locais memoriais e não ser reduzidos a artigos lucrativos num contexto comercial”.

No mesmo sentido, o Instituto Fritz Bauer, dedicado ao estudo do Holocausto, opôs-se “categoricamente ao comércio de documentos relacionados com a perseguição nazi e o Holocausto”.

“A carta de um prisioneiro polaco de Auschwitz, datada de 1940, por 180 euros? O cartão da Gestapo com informações sobre a execução de um morador judeu do gueto de Mackheim, na Prússia Oriental, em julho de 1942, por 350 euros? Ou talvez a notificação sobre a morte de uma paciente do hospital psiquiátrico de Hadamar, assassinada em 1944 no âmbito da chamada eutanásia, também por 350 euros?”, questionou o instituto, sublinhando que “a transmissão escrita e audiovisual dos crimes nazis e da sua história posterior deve ser urgentemente confiada aos arquivos públicos e memoriais”.

Segundo Sikorski, o assunto foi discutido com o seu homólogo alemão Johannes Wadephul, tendo ambos concordado que “o escândalo devia ser evitado“.

“Obrigado, ministro Johannes Wadephul, pela informação de que o leilão ofensivo de artefactos do Holocausto foi cancelado. O respeito pelas vítimas exige a dignidade do silêncio, não o barulho do comércio“, acrescentou.