Alcides nunca foi dado como desaparecido. A família e aqueles que o conheciam estranharam deixar de receber notícias do português que vivia no Canadá, mas só ao fim de 17 anos é que tiveram uma resposta definitiva e o mistério foi finalmente desvendado. Fruto de uma nova aposta tecnológica da polícia de Toronto, as autoridades utilizaram técnicas inovadoras de genealogia genética para confirmar a identidade do homem cuja morte foi registada há quase duas décadas, noticia a CBC, descobrindo, finalmente, o que teria acontecido ao português.
A iniciativa chama-se Project 31 e foi desenhada com o objetivo de identificar os corpos de 31 pessoas que foram encontradas mortas. Com o material genético ainda disponível em laboratório, é com recurso a técnicas que têm por base a análise do ADN de cada que conseguem alcançar este objetivo. Alcides foi o nono a ser identificado.
Há 17 anos, um homem em condição de sem-abrigo encontrou outro, morto, debaixo de uma ponte na baixa da cidade de Toronto, no Canadá. De acordo com o comunicado citado pela emissora pública canadiana, a morte deste homem não levantou quaisquer suspeitas de homicídio, mas ainda assim não conseguiram arranjar forma de saber quem era através de “técnicas de investigação convencionais”. Assim, armazenaram o material genético deste homem misterioso, na esperança de no futuro conseguir encontrar alguma pista que permitisse descobrir a sua identidade.
O corpo foi encontrado em 2008, mas foi só em 2023 que as autoridades decidiram voltar a pegar neste ADN que havia sido conservado durante todos estes anos. Com o material recolhido no local onde o óbito foi declarado e recorrendo a bases de dados de ADN, a polícia voltou a abrir o caso. Através de uma sequenciação do material genético, foi possível introduzir a sua informação em plataformas públicas como a Family Tree DNA e GEDmatch.
Foi esta técnica que permitiu confirmar que o homem que foi encontrado morto debaixo de uma ponte em 2008 tinha origens portuguesas. A partir daqui, começaram à procura de familiares e amigos em Portugal, que pudessem desvendar este mistério. Para além da investigação em território continental português, a polícia fez circular uma fotografia com informação deste homem em vários grupos de portugueses residentes no Canadá, bem como de imigrantes canadianos, sempre na esperança de vir a encontrar alguém que o conseguisse identificar.
O esforço deu frutos. “Tínhamos dois indivíduos, uma pessoa no estrangeiro e outra aqui no Ontário, que diziam que o homem nas fotografias se parecia com o Alcides, ou revelavam acreditar que poderia ser o Alcides, de quem já não tinham notícias há muito tempo”, descreve a polícia no comunicado enviado à imprensa canadiana. Assim, com um nome associado à cara, conseguiram chegar a um irmão de Alcides, que vivia fora do Canadá, e com recurso a uma amostra de ADN recolhida, compararam o material genético do potencial familiar do homem.
“Acabou por ser uma combinação perfeita”, revelam as autoridades. Apesar de já não manter contacto com a família há mais de 17 anos, nunca foi dado como desaparecido, “mas aqueles que o amavam sempre questionaram o que lhe poderia teria acontecido”.
Para a polícia, “não interessam as condições de vida da pessoa”, escreve em comunicado, esclarecendo que o principal objetivo desta iniciativa é dar algum tipo de “encerramento” aos familiares. “É algo que todos nós desejamos para nós mesmos e para as pessoas que amamos — que o que aconteceu seja conhecido por aqueles que as amavam e, além disso, que recuperem a dignidade do seu nome. E acho que isso é a coisa mais duradoura que podemos oferecer a estas pessoas”, concluem.
Ainda com vários casos em aberto, as autoridades vão continuar a usar estas técnicas de genealogia genética em cerca de 15 dos mortos que continuam por identificar no âmbito do Project 31.