Era um daqueles jogos que facilmente poderia ser recordado no final da temporada como “o jogo do título” ou “o jogo em que se perdeu um título” — e nem sequer era por ser um dérbi. Este domingo, numa nova edição do mítico North London Derby, o Arsenal recebia o Tottenham no Emirates e sabia que uma eventual vitória oferecia um fôlego crucial rumo à conquista da Premier League.

Porquê? Pelo contexto. O Arsenal entrava em campo depois de o Liverpool ter perdido com o Nottingham Forest e de o Manchester City ter perdido com o Newcastle, ou seja, com a possibilidade de ficar com mais seis pontos do que o Chelsea na liderança da Premier League, mais sete do que os citizens e uns inesperados mais 11 do que os reds, que já vivem afundados no 11.º lugar. Para isso, lá está, era preciso ganhar um dérbi histórico.

“É um jogo diferente, apenas. É uma grande cidade, uma grande rivalidade. É uma parte de Londres que queremos sempre conquistar e eles querem fazer o mesmo. Têm existido muitas mudanças ao longo dos anos, nos últimos temos sido mais dominantes e é bonito, especialmente quando jogamos o dérbi em casa e em frente aos nossos adeptos. Sabemos o que este jogo significa para eles e a energia que vão trazer, a energia que a equipa vai colocar em cada ação. É um privilégio jogar este tipo de jogos e mal podemos esperar”, disse Mikel Arteta na antevisão da partida.

Assim e sem Gabriel Magalhães, que se lesionou ao serviço do Brasil e deve estar de fora durante várias semanas, o treinador espanhol apostava em Piero Hincapié ao lado de Saliba no eixo defensivo, com Bukayo Saka e Leandro Trossard a surgirem no apoio a Mikel Merino, sendo que Noni Madueke e Gabriel Martinelli começavam no banco. Do outro lado, num Tottenham que vinha de apenas uma vitória nos últimos quatro jogos, Thomas Frank tinha João Palhinha no meio-campo, enquanto que Wilson Odobert e Kudus apareciam nas costas de Richarlison.

A primeira parte teve um único sentido, ainda que não tenha tido muitas oportunidades de golo. Só o Arsenal quis jogar, com o Tottenham a limitar-se a defender as investidas do adversário — às vezes com o bloco mais baixo, outras vezes com o bloco mais elevado, mas nunca com capacidade para chegar sequer à grande área de David Raya. Os gunners poderiam ter marcado logo nos instantes iniciais, com Declan Rice a rematar para defesa de Guglielmo Vicario depois de um grande passe de Eze (3′), e os spurs não fizeram qualquer remate, enquadrado ou não enquadrado, até ao intervalo.

Ainda assim, e mesmo com uma superioridade clara, a verdade é que o Arsenal não criou muitas ocasiões à exceção de dois livres diretos de Saka (18′ e 33′). Depois da meia-hora, porém, a equipa de Mikel Arteta desbloqueou mesmo o nulo. Trossard abriu o marcador com um remate à meia-volta após uma grande assistência de Declan Rice (36′) e Eze aumentou a vantagem com um pontapé já na área e com dois adversários em cima (41′). Ao intervalo, com toda a justiça, o Arsenal estava a vencer o Tottenham no Emirates. 

Thomas Frank mexeu logo ao intervalo e abdicou de Kevin Danso para lançar Xavi Simons, mas a verdade é que tudo ficou ainda pior para o Tottenham logo nos instantes iniciais da segunda parte. Com pouco mais de 30 segundos disputados após o intervalo, Eze voltou a receber à entrada da grande área, segurou e atirou de pé esquerdo para bisar e voltar a bater Vicario, aumentando a vantagem do Arsenal (46′).

Dez minutos depois, no primeiro remate que fez em todo o jogo, o Tottenham conseguiu reduzir — e de que maneira. João Palhinha recuperou a bola perto da linha do meio-campo e Richarlison, ciente de que David Raya estava adiantado, atirou a muitos metros de distância para marcar (55′). O jogo abriu depois do momento do avançado brasileiro, com os gunners a sentirem o golo sofrido e a permitirem mais aventuras aos spurs, e Thomas Frank decidiu correr atrás do resultado com as entradas de Kolo Muani e Pape Matar Sarr.

Já no último quarto de hora, porém, apareceu o xeque-mate. Numa transição rápida, Trossard recebeu na esquerda e deixou em Eze à entrada da grande área, com o inglês a deixar um adversário para trás com uma simulação antes de rematar para carimbar o hat-trick (76′). Mikel Arteta trocou Trossard por Madueke logo a seguir antes de colocar Mosquera, Ethan Nwaneri e Myles Lewis-Skelly, assim como Thomas Frank ainda lançou Pedro Porro e Brennan Johnson, mas já nada mudou.

Eze, que foi dispensado da formação dos gunners enquanto ainda era adolescente e que cumpriu um sonho no verão ao assinar pelo clube que sempre apoiou, tornou-se o herói da vitória do Arsenal frente ao Tottenham no North London Derby — uma vitória que deixa a equipa de Mikel Arteta com mais seis pontos do que o Chelsea e mais sete do que o Manchester City, consolidando cada vez mais a liderança da Premier League.