A escritora irlandesa Sally Rooney, autora de livros como Normal People ou Intermezzo, disse que era “quase certo” que não iria conseguir publicar as suas obras futuras no Reino Unido devido à proibição da Palestine Action, considerada uma organização terrorista. A autora não retirou o apoio à associação, mesmo depois da decisão, e chegou mesmo a admitir doar-lhe os lucros dos direitos de autor , o que pode significar a sua prisão caso regresse a território britânico.

Numa declaração enviada ao tribunal no âmbito da contestação judicial da proibição da Palestine Action, Rooney admitiu que é “quase certo” que não poderá “publicar ou produzir obras novas dentro do Reino Unido enquanto a proibição continuar em efeito”.

“Se a Palestine Action ainda estiver proibida quando o meu próximo livro for publicado, ele estará disponível para leitores em todo o mundo e em dezenas de idiomas, mas não estará disponível para leitores no Reino Unido simplesmente porque ninguém terá permissão para publicá-lo (a menos que eu me contente em distribuí-lo gratuitamente)”, lê-se no documento, citado pelo jornal britânico The Guardian.

A escritora indicou ainda que os efeitos da proibição podem até afetar a disponibilidade dos livros já publicados, já que não é claro se a sua editora no Reino Unido, a Faber & Faber, poder-lhe-á pagar os direitos de autor. Se não for possível cumprir com esse dever, explicou que as “suas obras poderão ter de ser retiradas” das prateleiras.

“Os meus romances têm sido influentes e populares na Grã-Bretanha, onde estou entre os autores literários mais vendidos da última década. O desaparecimento do meu trabalho das livrarias marcaria uma incursão verdadeiramente extrema do Estado no domínio da expressão artística”, acrescentou.

O parlamento britânico aprovou uma ordem de proibição da Palestine Action por terrorismo em julho, depois de o grupo ter entrado na base aérea de Brize Norton e pintado um avião da Força Aérea. Vários elementos ligados ao grupo, assim como organizações de direitos humanos, iniciaram uma batalha na justiça contra a decisão, que culminou no processo apresentado pela co-fundadora do grupo ativista pró-Palestina, Huda Ammori.

Na quarta-feira, dia em que se iniciaram as audiências, Raza Husain, advogado de Ammori, disse que o grupo foi a “primeira organização de ação direta e desobediência civil que não defende a violência a ser proibida por ser terrorista”.

“Esta proibição é repugnante à tradição do direito comum e contrária à Convenção Europeia dos Direitos Humanos”, acrescentou na declaração citada pelo The Guardian.

Já esta quinta, o repórter das Nações Unidas para a proteção dos Direitos Humanos na luta contra o terrorismo, Ben Saul, indicou também, através do seu advogado, que há um “consenso a emergir” que “a proibição foi uma interferência ilícita no direito internacional” e que a “definição de terrorismo não se estende aos danos graves à propriedade”.

James Eadie, representante da ministra da Administração Interna, Shabaana Mahmood, afirmou que o parlamento britânico tinha o direito de criar a sua definição de terrorismo, algo que “inclui danos graves à propriedade, quer seja ou não acompanhada de violência contra pessoas”.