Christian Nègre, antigo diretor dos recursos humanos do Ministério da Cultura francês, está a ser investigado por alegadamente ter drogado mais de 200 mulheres durante os processos de recrutamento. De acordo com o Guardian, o esquema é descrito pela justiça como um padrão de agressões cometidas ao longo de quase uma década, em que o responsável lhes ofereceria bebidas adulteradas para as forçar a urinar durante as entrevistas.

Ao longo de quase dez anos, Nègre oferecia, durante as entrevistas, cafés ou chás misturados com um diurético forte e ilegal, provocando nas candidatas uma necessidade urgente e incontrolável de urinar. As entrevistas, segundo várias vítimas, eram prolongadas em longos passeios ao ar livre, longe de casas de banho, num cenário que, como revela, segundo a advogada das vítimas, Louise Beriot, “poder e dominação sobre o corpo das mulheres sob o pretexto de uma fantasia sexual“.

Entre as primeiras mulheres a denunciar o caso está a especialista em marketing Sylvie Delezenne, de 45 anos, que recorda ter sido contactada em 2015 através do LinkedIn por Nègre — na altura responsável pelo recrutamento no ministério. “Era o meu sonho trabalhar no Ministério da Cultura“, disse, acrescentando que, por cortesia, nunca recusaria um café oferecido num processo de seleção. Explicou que ela própria carregou no botão da máquina, mas que Nègre pegou no copo, afastou-se para cumprimentar um colega e só depois lho devolveu antes de sugerir que continuassem a entrevista ao ar livre.

O encontro prolongou-se durante horas pelos jardins das Tulherias, em Paris, enquanto Delezenne lutava contra o que descreve como “uma necessidade crescente de urinar“, acompanhada de palpitações e suor. Quando pediu uma pausa, afirmou que Nègre “continuou a andar, como se não tivesse ouvido”. Acabou por se agachar junto a um túnel, momento em que, segundo relata, ele se aproximou e disse: “Eu tapo-a“, retirando o casaco. “Achei tudo estranho, senti vergonha e pensei que tinha arruinado a entrevista”, contou, lembrando que, no regresso a casa, bebeu litros de água e tinha os pés tão inchados que os sapatos acabaram por a ferir.

Em 2019, foi contactada pela polícia e descobriu que o seu nome constava numa folha de cálculo intitulada “Experiências”, onde estariam registados os nomes das alegadas vítimas, acompanhados de notas e fotografias das pernas das mulheres. O documento foi encontrado depois de um colega ter denunciado que Nègre tentara fotografar as pernas de uma superior, o que desencadeou a investigação. Desde então, Delezenne foi diagnosticada com perturbação pós-traumática. “O tempo que isto está a demorar pesa muito. A raiva não desaparece”, afirmou.

Atualmente a trabalhar num salão de cabeleireiro em Lille, Sylvie diz que o essencial, para si, é que casos como este nunca mais se repitam: “A minha prioridade é que isto não aconteça a mais ninguém”.

Outro testemunho é o de Anaïs de Vos, que em 2011, aos 28 anos, se candidatou a um lugar de assistente de direção. Disse que raramente bebe café, mas que, numa entrevista, “quando o responsável oferece, diz-se que sim”. Segundo o que contou, Nègre preparou a bebida num canto da sala e depois sugeriu um passeio. Quando Anaïs mostrou desconforto e pediu para regressar, Christian terá seguido na direção oposta, até à margem do rio Sena. “Olhou para mim e perguntou: ‘Precisas de fazer xixi?’, como um adulto a falar com uma criança”. Sem acesso a uma casa de banho gratuita — tinha deixado a mala no ministério — acabou por entrar num café e, ao ver a porta da casa de banho no topo das escadas, começou a molhar a roupa. Mais tarde, no comboio, sentiu-se “quase a desmaiar“.

Nègre foi afastado do Ministério da Cultura e da função pública em 2019, sendo então colocado sob investigação formal por crimes que incluem administração de substâncias ilícitas e agressão sexual. A sua advogada, Vanessa Stein, afirma que o cliente não fará comentários enquanto o processo estiver a decorrer. Apesar das acusações, Nègre continua a trabalhar no setor privado enquanto aguarda julgamento.

O caso reacendeu o debate sobre a chamada “submissão química”, especialmente após o mediático processo de Gisèle Pelicot, que era drogada pelo marido para depois ser violada, crime que foi cometido por dezenas de homens.

De não poder resistir até se tornar um símbolo de resistência. Gisèle, a mulher violada em série pelo marido, condenado a 20 anos de prisão

As vítimas de Nègre, porém, denunciam a lentidão da justiça francesa. “Seis anos depois, continuamos à espera de julgamento. É inacreditável”, disse uma das vítimas em anonimato, defendendo que “o processo judicial causa mais trauma do que cura”. A Fondation des Femmes (Fundação das Mulheres, em português) também lamentou publicamente a falta de meios do sistema para lidar com crimes de violência sexual, alertando que, após apresentarem queixa, as vítimas “são deixadas à sua sorte”.

Embora o Ministério da Cultura não tenha sido considerado responsável, afirmou, em comunicado, que está empenhado em prevenir o assédio, a violência sexual e a apoiar as vítimas. Já o sindicato CGT-Cultura exige que a tutela “reconheça a sua responsabilidade enquanto empregador”, apontando “um problema sistémico que permitiu que um alto funcionário agisse desta forma durante uma década”, lembrando que já existiam denúncias de que Nègre tirava fotografias às pernas de colegas durante reuniões.