Francisco Louçã considera que o Bloco de Esquerda “é mais útil para os eleitores do que nunca”. “A democracia está ameaçada. É preciso uma esquerda que combata pela democracia. É preciso recuperar a decência.”

Em entrevista ao Observador, a partir da XIV Convenção do Bloco de Esquerda, o fundador e antigo líder do partido reconhece que os resultados eleitorais foram negativos, mas relativiza: quem não está preparado para sofrer derrotas, não está na política a fazer nada. “O Bloco de Esquerda tem de ser um ponto de referência para o diálogo entre movimentos. O socialismo pode ser uma realidade.”

“Qualquer liderança que sofre uma derrota eleitoral percebe que não conseguiu. Mas entendamo-nos: quem acha que está tudo bem e que pode viver a sua vidinha [à esquerda], está a viver enganado. Temos uma vaga de terror político. A Mariana foi o primeiro alvo dessa campanha. Porque é uma mulher jovem e combativa.”

No entanto, Francisco Louçã reconhece que nas últimas legislativas houve uma “grande dificuldade” de mostrar a “utilidade prática” das propostas eleitorais do Bloco de Esquerda. “Desse ponto de vista, esta campanha foi uma derrota.” O Bloco precisa de ter uma força “muito maior” para os combates que quer travar.

Agora, o partido deve concentrar-se em fazer e alimentar convergências à esquerda, começando desde logo pela oportunidade da greve geral de dezembro, onde até “sociais democratas” alinham, lembra — criticando o PCP por ter sido “irresponsável” e não ter entrado na coligação à esquerda em Lisboa, contribuindo para a “grave derrota” destes partidos.

Desafiado a dizer se o Bloco deve ou não falar para aqueles eleitores que, estando descontentes, decidiram votar no Chega, Louçã não tem dúvidas: “Claro que sim”. “Quando um deputado do Chega pede à polícia quer matar mais, está a criar uma armadilha contra a polícia. Quando André Ventura vai aprovar uma lei que penaliza o trabalho por turnos, há muita gente que vai penar. Há trabalhadores do Chega a quem vão ser cortados salários. Claro que devemos falar com essas pessoas.”

Para o fundador do partido, o facto de estarmos perante um “regime decrépito” na capacidade de responder aos problemas das pessoas, cria o terreno propício para o crescimento do populismo de direita. E parte desse “regime decrépito” alimenta e é alimentado pelo Chega. “O mais podre que existe no sistema está no Chega.”