A Direção-Geral da Saúde publicou e apagou este domingo uma imagem, por ocasião do Dia Mundial da Sida, que está a gerar polémica nas redes sociais — e o protesto de uma deputada do PS. A imagem em causa só incluía fotografias de pessoas negras, o que levou a que a deputada Eva Cruzeiro a considerasse “profundamente problemática” e que vários utilizadores se queixassem da campanha, considerando-a “miserável”.

A imagem em causa é um poster que foi em primeiro lugar promovido internacionalmente pela ONUSIDA, ou UNAIDS, o Programa Conjunto das Nações Unidas para o VIH/SIDA, que junta 11 agências da ONU. A DGS partilhou uma versão em português onde se lia que “a Sida não acabou”, numa imagem com várias pessoas negras e por baixo os logótipos da DGS e da República Portuguesa.

Em resposta ao Observador, a Direção-Geral da Saúde frisa que partilhou “uma imagem produzida e disponibilizada pela ONUSIDA para o dia internacional da luta contra a sida, com a devida tradução em português. A mesma foi partilhada com parceiros comunitários, e por alguns igualmente divulgada”.

“A imagem da campanha pretende alertar que a SIDA ainda não acabou e que há um caminho a percorrer, em todo o mundo, para mitigar os riscos e alcançar a meta dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável de acabar com a SIDA até 2030”, contextualiza a DGS, que volta a sublinhar que não produziu a imagem: “De forma a contribuir para a perceção da mensagem e a sua origem, e sempre em pleno respeito pelos direitos humanos, a DGS repartilhou o post original da ONUSIDA (UNAIDS) com a mesma mensagem”.

“A DGS rejeita discriminação seja por que motivo for, designadamente sexo, raça, cor, origem étnica ou social ou outros (artigo 21 da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia)”, remata a mesma resposta, embora sem fazer referência à eliminação da imagem.

Nas suas redes sociais, Eva Cruzeiro partilhou um printscreen da imagem — que já não está disponível nas redes sociais da DGS — considerando “profundamente problemático que uma campanha oficial do Estado português para o Dia Mundial da SIDA utilize exclusivamente imagens de pessoas negras para ilustrar a mensagem “A SIDA não acabou”.

“Este tipo de comunicação não é neutro”, argumenta a deputada. “Reforça estereótipos raciais perigosos, associa uma doença a um grupo específico e ignora por completo o contexto epidemiológico real em Portugal. Num país onde pessoas negras continuam a enfrentar discriminação no acesso à saúde, na habitação, no emprego e na própria representação mediática, campanhas públicas não podem perpetuar narrativas estigmatizantes”.

Na mesma publicação, a deputada diz que o Estado tem “o dever acrescido de comunicar com responsabilidade, sensibilidade e rigor” e defende que a luta contra o VIH e a SIDA “não se faz à custa da estigmatização de comunidades que já carregam múltiplas vulnerabilidades”, mas antes com “informação rigorosa, prevenção, investimento na saúde pública e campanhas inclusivas. Portugal merece comunicação de saúde pública que não reproduza preconceitos, mas que os combata”.

Nos comentários da publicação da deputada, há também quem questione a ideia de que a publicação é racista e frise que África é o continente mais afetado pelo vírus e pela doença, embora os números estejam a baixar e os especialistas avisem que isto se deve ao menor acesso à prevenção e tratamento.

Na publicação original da ONUSIDA não se encontram as mesmas críticas ou discussões nos comentários. Em Portugal, um relatório de novembro de 2024 do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge indica que houve uma redução de 36% no número de novos casos de infeção por VIH e de 66% em novos casos de SIDA entre 2014 e 2023. A maioria deu-se em adolescentes e adultos, em homens e com uma mediana de idades de 36 anos.

A transmissão entre heterossexuais mantém-se como a mais frequente, representando 54% dos casos, embora os casos em que homens que têm sexo com homens representem a maioria dos novos diagnósticos em homens (61,6%). E em Portugal, no total dos quarenta anos desta epidemia, foram notificados 68.627 casos de VIH, sendo que 23.995 desenvolveram-se para SIDA e 15.918 pessoas morreram.