As três freiras austríacas Bernardette, Rita e Regina, que em setembro se tornaram notícia mundial por fugirem de um lar de idosos para regressarem ao convento onde sempre tinham vivido, vão poder ficar a viver no convento se cumprirem um conjunto de condições, incluindo a de abandonar a presença nas redes sociais, onde nos últimos meses reuniram centenas de milhares de seguidores de todo o mundo.
Contudo, as religiosas não estão satisfeitas com as condições que lhes foram impostas e pretendem continuar a lutar pelo seu direito a residir na casa onde estão há mais de meio século.
No centro de toda esta história está o castelo de Goldenstein, em Elsbethen, na região de Salzburgo, que é propriedade das freiras agostinianas desde o final do século XIX. Durante várias décadas, funcionou ali um mosteiro e um colégio privado. Bernardette, Rita e Regina, de 88, 86 e 82 anos, têm uma longa ligação ao edifício: a irmã Bernardette chegou lá em 1948 como aluna do colégio e seguiu a vocação religiosa, tornando-se freira; Regina chegou ao convento em 1958 e Rita em 1962.
Com o declínio das vocações, em 2022 aquelas três freiras eram já as únicas que restavam da antiga comunidade. O edifício passou para a posse arquidiocese de Salzburgo e ficou sob alçada da abadia de Reichersberg, também da ordem agostiniana. O padre agostiniano Markus Grasl, superior daquela abadia, tornou-se o superior imediato das três religiosas. Grasl decidiu dissolver a comunidade, que já não tinha viabilidade para continuar, mas permitiu às três freiras que continuassem a viver no convento, desde que a saúde física e mental o permitisse.
Em dezembro de 2023, com o argumento de que a saúde das freiras era precária, a abadia agostiniana decidiu transferir as três idosas, todas com mais de 80 anos, para um lar de idosos da Igreja Católica. Mas as irmãs queixaram-se de não ter sido ouvidas e até acusam os responsáveis eclesiásticos de as terem enganado, obrigando-as a assinar documentos de consentimento sem que percebessem exatamente o que estavam a assinar.
Em setembro deste ano, com a ajuda de um grupo de antigas alunas do colégio, as três freiras fugiram do lar de idosos e voltaram ao convento, que voltaram a reativar à revelia das autoridades eclesiásticas. O padre Markus Grasl classificou a decisão das freiras como “completamente incompreensível”, pela falta de condições do convento. Entretanto, com a ajuda das antigas alunas e da comunidade local, as três freiras criaram uma página de Instagram onde partilham vídeos e fotografias do seu dia-a-dia no convento. A página conta com milhares de seguidores e tornou-se um fenómeno mundial — ao mesmo tempo que a história das três freiras foi contada pelos jornais de todo o mundo.
Rapidamente, instalou-se uma tensão permanente entre as três religiosas, apoiadas pelas antigas alunas e a comunidade local, e a hierarquia eclesiástica. Ainda em setembro, Markus Grasl acusou as freiras de incumprirem os seus votos religiosos, nomeadamente ao permitirem a entrada livre de estranhos no claustro do convento, onde as religiosas deveriam viver em clausura e oração. Em outubro, as freiras avançaram com uma ação judicial contra a hierarquia da Igreja por considerarem que foram enganadas na admissão ao lar de idosos.
Já no final de novembro, Grasl apresentou uma proposta de acordo às freiras: poderiam ficar no convento se cumprissem um conjunto de condições. Em primeiro lugar, seria necessário restaurar a dimensão monástica do edifício, reservando o claustro exclusivamente a membros da congregação e permitindo visitas apenas numa área específica para o efeito. Em segundo lugar, as religiosas têm de parar com a sua presença nas redes sociais. Por fim, a disputa legal teria de ser encerrada. A proposta prevê ainda que, caso as religiosas vejam a sua saúde a deteriorar-se, seriam novamente inscritas no lar de idosos.
Em contrapartida, a Igreja asseguraria às religiosas apoio médico e de enfermagem, bem como apoio espiritual por parte de um padre.
Um porta-voz de Grasl explicou à imprensa austríaca que o objetivo das exigências é colocar novamente a vida monástica e espiritual no centro da vida das três religiosas. “O que passa nas redes sociais não é verdadeiramente a realidade da vida monástica”, explicou.
As religiosas, no entanto, decidiram não assinar o acordo, aconselhadas por um advogado que considera as condições demasiado restritivas — e o caso continua, agora, à espera de uma resolução.
A adensar a polémica, a imprensa austríaca trouxe a público esta semana alegações de abuso psicológico feitas por uma ex-aluna do colégio contra a irmã Bernardette, uma das três religiosas. A antiga aluna acusou a freira de, durante o seu tempo de professora no colégio, impor às estudantes uma obediência cega à hierarquia e de aplicar castigos que causaram trauma.
O caso estará, já, nas mãos do Vaticano, onde chegaram esta semana duas cartas — uma assinada por Markus Grasl sobre as alegações de abuso psicológico, e outra assinada pelas três freiras, que pedem a nomeação de um novo superior eclesiástico para substituir Grasl.