A dupla de atiradores que provocou a morte de 15 pessoas na praia de Bondi em Sydney na Austrália, são pai e filho. Naveed Akram, de 24 anos, foi detido e está no hospital em situação crítica, enquanto o seu pai, Sajid Akram, de 50 anos, que foi desarmado pelo dono de uma frutaria, morreu no local. Pai e filho terão dito à família que iriam embarcar numa viagem de pesca na costa sul do país, avança o Sydney Morning Herald. Um dos atiradores já foi investigado no passado por ligações ao grupo Estado Islâmico, e bandeiras do movimento terrorista foram encontradas no carro dos dois suspeitos.

Em declarações à ABC TV esta manhã, Anthony Albanese, o primeiro-ministro australiano, disse que “não há evidências de que os dois atiradores faziam parte de uma célula” do grupo terrorista Estado Islâmico na Austrália. “Claramente foram motivados por ideologia extremista, e detalhes serão divulgados quando a polícia concluir o seu trabalho. No momento é uma investigação em curso”, afirma. Albanese também falou sobre a investigação feita a Naveed em 2019, pelo envolvimento com duas pessoas que foram posteriormente presas por ligações a atividades terroristas, mas afirma que “não há evidência clara” de que o homem se tenha radicalizado. O primeiro-ministro australiano rebateu ainda as alegações de Benjamin Netanyahu, que disse que o reconhecimento do Estado palestiniano em setembro “colocou combustível no fogo antissemita”. “A maior parte do mundo reconhece a solução de dois estados como sendo o caminho a seguir no Médio Oriente”, afirmou.

O ministro da Administração Interna, Tony Burke, confirmou no domingo que Sajid Akram imigrou para a Austrália com um visto de estudante em 1998, e depois de se casar com uma australiana, teve o visto alterado em 2001. Já o filho nasceu no país em 2001.

Numa primeira conferência de imprensa, o diretor da agência de segurança australiana, Mike Burgess, tinha afirmado que um dos suspeitos (que não especificou) já era “conhecido” das autoridades, “mas não era visto numa perspetiva de ameaça imediata”. Os serviços secretos australianos (ASIO) já haviam investigado um dos atiradores há seis anos por suspeita de associação à organização terrorista Estado Islâmico (ISIS). De acordo com a ABC Australia, em 2019 Naveed Akram foi investigado pela equipe de combate ao terrorismo, quando a polícia frustrou os planos de um ataque por parte do grupo. Duas bandeiras do movimento foram encontradas dentro do carro dos dois atiradores, e uma bandeira do ISIS é vista nas imagens do tiroteio que circulam nas redes sociais. A polícia não comentou oficialmente as ligações dos dois atiradores com a organização terrorista. Já Sajid Akram, tinha seis armas de fogo legalizadas e que tinha licença de porte de arma há dez anos anos.

O caso foi logo tratado como um atentado terrorista e como um ato de antissemitismo pelas autoridades australianas e já motivou reações da comunidade internacional, concretamente da parte do governo israelita. O primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, e o primeiro-ministro do estado onde fica Sydney, Chris Minns, já sinalizaram a intenção de haver uma reforma nas leis sobre o acesso e posse a armas de fogo.

Numa reunião de urgência convocada por Albanese para esta segunda-feira, líderes dos governos regionais do país concordaram em solicitar aos comandantes de polícia que apliquem regras mais restritas para o porte de arma, incluindo a exigência de cidadania australiana como uma “condição” para a atribuição de uma licença. Também ficou definido que sejam usadas informações criminais adicionais para confirmar licenças para armas de fogo. Já o Governo federal vai começar a trabalhar em restrições alfandegárias para a importação de armas, incluindo impressões 3D e equipamentos capazes de disparar uma grande quantidade de munição. O trabalho de reformulação ao longo das diferentes jurisdições do país será coordenado pelo primeiro-ministro de Nova Gales do Sul e o primeiro-ministro da Austrália Ocidental, Roger Cook.

A ABC News australiana partilhou um vídeo, também a ser veiculado nas redes sociais, que mostra o momento em que os atiradores foram neutralizados:

O último balanço deste ataque que aconteceu na tarde de domingo aponta para 16 mortos (sendo um atirador) e 38 feridos, sendo que 26 continuam internados. O número de vítimas mortais foi revisto em alta na segunda-feira às 6h00 (hora local) pelo ministro da Saúde da Nova Gales do Sul, Ryan Park, citado pela ABC. Entre as vítimas está uma criança de 10 anos, a menina Matilda, confirmou a família, assim como dois rabinos responsáveis pela promoção do festival, um cidadão francês, um polícia reformado, um sobrevivente do holocausto e um empresário judeu.

“Tivemos cerca de 38 pessoas feridas e temos mais de 100 paramédicos e especialistas médicos” no local, referiu Ryan Park. A informação mais atualizada dada pelas autoridades revela que as vítimas mortais tinham entre 10 e 87 anos. Entre os feridos há dois agentes da polícia e um homem, dono de uma frutaria, que desarmou um dos atiradores quando ia passar pelo local.

Ataque visou celebração judaica do Hanucá junto à praia

A polícia de Nova Gales do Sul foi chamada para uma ocorrência com um atirador ativo na praia de Bondi, uma das mais conhecidas da Austrália, às 18h45 (hora local, 7h45 em Portugal continental). Os dois atiradores abriram fogo a partir de uma ponte junto à praia, colocando-se numa posição cimeira sobre a multidão que fora assinalar o Chanukah by the Sea, ou Hanucá junto do mar, um evento promovido pela organização Chabad no Archer Park, uma zona verde junto à praia.

A comemoração assinalava o primeiro dia do Hanucá, o Festival das Luzes, que se prolonga pelos próximos oito dias para celebrar a reabertura do Templo de Jerusalém no século II a.C. O evento começou cerca das 17 horas e deveria durar até às 21 horas.

Dentro de um carro perto da ponte onde os atiradores se posicionaram, foi encontrado um dispositivo explosivo que foi entretanto retirado em segurança pelas autoridades.

Um dos atiradores — que se será o que ainda não foi identificado — foi desarmado por um homem. Ahmed el Ahmed tem 43 anos, é dono de uma frutaria e tem dois filhos. Conseguiu surpreender o atirador ao esconder-se entre os carros e derrubando-o, chegando mesmo a empunhar a arma contra ele. Foi baleado pelo segundo atirador, tendo sofrido ferimentos na mão e no braço, e está a ser operado.

Identificado o homem filmado a desarmar atirador de Bondi Beach. Dono de frutaria de 43 anos está a ser operado devido a ferimentos de bala

Entretanto, vários líderes mundiais lamentaram o sucedido. De Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa condenou a “violência especialmente originada pelo ódio, nomeadamente o anti-semitismo, o racismo, a xenofobia, a intolerância, que nos lembra os tempos mais negros da nossa história recente”, e Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, expressou “sentidas condolências às famílias das vítimas, ao povo e às autoridades australianas, bem como a toda a comunidade judaica”.

De Portugal à Ucrânia, líderes internacionais condenam “ato hediondo de antissemitismo” na Austrália