Pelo menos 12 pessoas morreram e 29 ficaram feridas este domingo na praia de Bondi, em Sydney, depois de dois atacantes terem aberto fogo indiscriminadamente sobre quem se encontrava no areal a participar numa festividade judaica.

O ataque, classificado pelas autoridades australianas como um atentado terrorista movido por antissemitismo e direcionado à comunidade judaica, foi condenado por líderes mundiais de todo o mundo, especialmente a partir de Israel.

Centenas de pessoas encontravam-se na praia de Bondi num evento organizado pelo movimento judaico Chabad, para assinalar o início do Hanucá, festival judaico que começa na noite deste domingo.

Doze mortos e 29 feridos após ataque terrorista em celebração judaica do Hanucá na praia de Bondi, Austrália

O que é o Hanucá?

O Hanucá, também conhecido como Festa das Luzes, é uma das festas mais importantes do calendário anual judaico. Por calhar habitualmente em datas próximas ao Natal, a festa judaica do Hanucá é por vezes comparada à festa cristã que assinala o nascimento de Jesus, mas a verdade é que se trata de dois acontecimentos religiosos bastante distintos.

O início do Hanucá celebra-se no dia 25 do mês de Kislev, o nono mês do calendário religioso judaico. Uma vez que o calendário hebraico se baseia num sistema lunissolar, os dias no mesmo não têm sempre o mesmo equivalente no calendário cristão, que se tornou o calendário universal. Este ano, o primeiro dia do Hanucá é a noite de domingo para segunda-feira (14 para 15 de dezembro), já que os dias no calendário judaico começam ao anoitecer.

A Festa das Luzes prolonga-se, depois, por oito dias — assinalados a cada dia, com o acendimento de uma vela nova numa menorá (candelabro) especial com nove braços. O braço central da menorá está sempre aceso e é a partir dele que se acendem os restantes braços — originalmente a chama é alimentada com azeite, de acordo com as prescrições bíblicas, mas muitas vezes são usadas velas convencionais.

Neste período festivo, os judeus celebram um acontecimento concreto na história do povo judaico: a reinauguração, ou rededicação, do Templo de Jerusalém, no século II a.C. Trata-se de um acontecimento relevante no percurso histórico dos judeus, marcado por constantes perseguições, exílios e regressos à Terra Prometida.

O Templo de Jerusalém teria sido inicialmente erguido pelo Rei Salomão e foi o lugar de culto por excelência dos judeus até à sua destruição pelos babilónios no século VI a.C. O povo judaico viveu no exílio em Babilónia (um período fundamental para a definição da identidade judaica e para o registo escrito dos textos bíblicos) até ao regresso a Jerusalém, algumas décadas depois.

De regresso, os judeus reconstruíram o templo, conhecido como Segundo Templo de Jerusalém. Esse novo edifício duraria até 70 d.C., o ano da destruição de Jerusalém pelos romanos. Nessa altura, não só o templo foi destruído, como o próprio povo judeu sofreu um forte impacto histórico — vendo-se obrigado a viver na diáspora por todo o mundo, alimentando o sonho de um dia regressar a Jerusalém. Com a destruição do templo começou também a era do judaísmo rabínico, corrente judaica que perdura até hoje.

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Foi justamente esse Segundo Templo que esteve no centro dos acontecimentos comemorados no Hanucá. No início do século II a.C., com a região da Judeia sob domínio dos selêucidas, os judeus foram perseguidos e o templo foi profanado e colocado ao serviço dos deuses gregos. A revolta dos Macabeus permitiu aos judeus recuperar o controlo do Templo.

Os escritos judaicos falam de um milagre que teria acontecido nesse momento da rededicação, envolvendo o candelabro do templo. De acordo com as prescrições bíblicas do tempo de Moisés, o candelabro tinha de estar aceso e alimentado com azeite preparado sob determinadas condições e rituais. Porém, quando os judeus recuperaram o Templo, só uma pequena porção de azeite tinha sobrado — que seria manifestamente insuficiente para manter o candelabro aceso durante o tempo necessário para preparar mais azeite. Ainda assim, milagrosamente, o candelabro terá permanecido aceso durante oito dias com apenas aquela pequena porção de azeite.

Por essa razão, a Festa do Hanucá é atualmente comemorada com recurso a um candelabro com oito braços, que se acendem diariamente durante um período de oito dias, para recordar a rededicação do Templo. À festa estão associadas múltiplas outras tradições, incluindo jogos, receitas culinárias, trocas de presentes e candelabros decorativos, que contribuem para a frequente comparação entre o Hanucá e o Natal cristão.

Que evento estava a acontecer na praia australiana?

O evento chamava-se “Chanukah by the sea”, inglês para “Hanucá junto ao mar”, e estava agendado para as 17h deste domingo. Organizado pela delegação local de Bondi do movimento judaico internacional Chabad, este evento pretendia juntar a comunidade judaica daquela zona da cidade de Sydney para assinalar o primeiro dia do Hanucá.

De acordo com o cartaz que foi divulgado nas redes sociais, o evento, de entrada gratuita, incluía várias atividades ao ar livre, espetáculos musicais, jogos familiares e seria coroado com o momento do acender da primeira vela do Hanucá numa menorá gigante junto ao mar. O cartaz diz ainda que no recinto estavam disponíveis roulotes de comida e apelava à vinda de amigos e família para uma noite de “alegria e luz”.

O que é o movimento Chabad?

Também conhecido como Lubavitch, o Chabad é um movimento judaico internacional com sede em Brooklyn, Nova Iorque, como explica o The New York Times. Trata-se de um ramo integrado dentro do Judaísmo Hassídico, que é por seu turno uma corrente do Judaísmo Ortodoxo (um dos três grande grupos do Judaísmo contemporâneo, sendo os outros dois o conservador e o reformista, mais progressista e maioritário).

De acordo com o mesmo jornal, o movimento Chabad teve as suas origens na Rússia czarista há cerca de 250 anos, tendo tido uma grande disseminação na Rússia durante o século XIX, a partir da cidade russa de Lubavitch (daí o nome pelo qual é conhecido). O Chabad manteve-se ativo mesmo depois da revolução de 1917, embora tenha passado à clandestinidade, sofrendo duras perseguições durante o tempo da União Soviética.

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Depois do Holocausto, tal como sucedeu com uma boa parte das comunidades judaicas na Europa, o Chabad acabaria por encontrar o caminho para os Estados Unidos (país onde vivem cerca de 40% dos judeus de todo o mundo), onde tem atualmente sede. Trata-se de uma organização judaica ortodoxa, cujos membros são facilmente reconhecíveis pelas vestes tradicionais, que está presente em vários países do mundo, com casas e comunidades que promovem e dinamizam vários grupos da diáspora judaica.

A Austrália é um dos países onde existe uma presença significativa do movimento Chabad, que tem uma casa na praia de Bondi, Sydney. O site do Chabad de Bondi permite perceber que o movimento desenvolve um programa com frequentes atividades ao longo do ano para assinalar as diferentes festas religiosas judaicas, bem como um ritmo semanal de culto religioso.

O que contam as testemunhas sobre o que aconteceu no evento?

O evento “Hanucá junto ao mar” tinha começado havia poucos minutos quando, de acordo com várias testemunhas no local, se começaram a ouvir tiros, que provocaram o pânico entre as centenas de participantes, que se puseram em fuga a correr. À estação televisiva australiana ABC, várias testemunhas disseram ter ouvido tiros de forma contínua, com uma das testemunhas a falar em mais de 50 tiros.

“As pessoas começaram a gritar, a dizer-nos para entrar”, disse à ABC Sarah Frydman, que estava no local para participar num bar mitzvah. “Estivemos escondidos numa sala atrás da cozinha durante meia hora. Havia muita gente ansiosa. A dada altura, deixaram-nos sair. Um agente da polícia veio, levou-nos para um salão e disse-nos para nos baixarmos e para ficarmos longe das janelas.”

Sydney. Um dos atiradores foi identificado como Naveed Akram. Casa do suspeito alvo de buscas

Nathan Zlatkis, outra testemunha, disse à ABC que viu “dois agentes da polícia deitados no chão” com “sangue”.

“Havia gritos e berros de ‘deitem-se, deitem-se, deitem-se'”, disse Zlatkis, assumindo que têm sido tempos “muito difíceis” para a comunidade judaica. “Somos pessoas pacíficas, não acreditamos na violência.”

Uma outra testemunha, Richard Hasten, estava já dentro do recinto do “Hanucá junto ao mar” e explicou que tentou socorrer uma mulher que foi atingida pelos tiros. “Estava deitado e estava uma mulher à minha frente, pude ver que ela estava a sangrar à minha frente. Por isso, tirei a minha camisa para parar a hemorragia.”

Várias outras testemunhas, incluindo turistas, fizeram relatos semelhantes à ABC. Abdullah Ashraf, por exemplo, estava na praia e viu os atiradores numa ponte pedonal, momento em que gritou a quem por ali se encontrava que fugisse para se abrigar. Ashraf esteve durante 40 minutos a estancar o ferimento de uma mulher que tinha sido atingida por dois tiros.

Outro homem que falou à ABC disse que os disparos duraram cerca de 10 minutos e pareceram o “inferno na terra”.

Pelo menos 12 pessoas morreram na sequência do ataque, que as autoridades australianas estão a classificar como atentado terrorista movido por antissemitismo. Um dos mortos é um dos atiradores. Entretanto, um dos atiradores foi identificado como Naveed Akram. A partir de todo o mundo, especialmente a partir de Israel, têm-se multiplicado as reações de condenação e de solidariedade para com as vítimas.