O regresso de Donald Trump ao cargo mais alto da Casa Branca trouxe uma verdadeira revolução no governo norte-americano. Para além da mudanças em vários cargos, este segundo mandato do atual Presidente tem sido marcado por poucas demissões de membros do governo, uma realidade muito diferente do que aconteceu na sua primeira administração. Desta vez, como destacam antigos conselheiros e especialistas, Trump escolheu um grupo de pessoas próximas em que a palavra de ordem é a “lealdade” a si e às suas ideias.
O jornal norte-americano Washington Post noticia mesmo que, apesar de ser relativamente cedo para avaliações, o primeiro ano deste mandato tem contrastado com a “intriga palaciana” que reinou no seu primeiro governo e que resultou na demissão de vários dos secretários e conselheiros. Até agora, neste primeiro ano, Trump não demitiu nenhum membro do seu gabinete (equivalente ao conjunto dos ministros) nem houve qualquer saída.
Olhando para o primeiro ano do primeiro mandato, houve duas saídas: a do secretário da Saúde, Tom Price, que saiu cerca de sete meses após a nomeação, e a de Reince Priebus, chefe de gabinete que durou apenas seis meses.
Até agora, o único que foi afastado nesta segunda administração foi Mike Waltz, conselheiro de segurança nacional, devido ao caso do Signalgate. Ainda assim, Waltz saiu para ocupar o cargo de embaixador dos EUA nas Nações Unidas e o cargo que ocupava não tinha a mesma importância que a de um secretário.
“Acho que o meu gabinete é fantástico”, disse Trump recentemente numa reunião citada pelo The Guardian, rejeitando todas as críticas e alegações de que estaria insatisfeito com elementos como o secretário de Defesa, Pete Hegseth ou a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem. “Eu leio essas histórias de que estou insatisfeito com este ou aquele — e não estou. Acho que o gabinete tem feito um ótimo trabalho. Temos um gabinete simplesmente fantástico“, sublinhou.
A razão para esta mudança de atitude do Presidente dos Estados Unidos, segundo dois elementos que pertenceram à equipa do primeiro mandato e que falaram com aquele jornal norte-americano, é que a “dinâmica” e quem está à volta de Trump “não o desafiam“, pelo contrário, elogiam-no constantemente.
“No primeiro mandato, ele despediu muitas pessoas que achava que não lhe dariam a resposta que ele queria“, confidenciou John Bolton, que serviu como o terceiro conselheiro de segurança nacional de Trump e que avançou que o atual Presidente “aprendeu” uma “lição” com essa primeira experiência em Washington D.C.
“Se não quer que as pessoas digam: ‘Já considerou estas alternativas?’; o que deve fazer é conseguir que as pessoas digam ‘Sim, senhor‘. E tem sido notavelmente bem sucedido no segundo mandato em conseguir isso”, continuou Bolton. Um dos seus antecessores no cargo, Michael Flynn, no primeiro mandato de Trump durou menos de um mês como conselheiro de Trump.
Também Sean Spicer, o primeiro porta-voz da Casa Branca, esteve pouco mais de seis meses no cargo, tendo saído a 21 de julho de 2017 pouco depois de Anthony Scaramucci ser nomeado para diretor de comunicação. O próprio Scaramucci viria a ficar apenas dez dias no cargo, saindo ainda nesse mês.
Ao jornal, Spicer apontou que não conhecia bem o líder nem conseguiu planear a abordagem que a sua equipa iria ter, algo muito diferente do que aconteceu com a atual porta-voz, Karoline Leavitt. “É como uma equipa desportiva quando se joga no início e no final da temporada. Pode-se parar, pensar e analisar a gravação. O que funcionou, o que não funcionou, quem seria diferente?”, explicou Spicer, sublinhando que “desta vez, há realmente um livro de jogadas“.
“Da última vez, algumas dessas pessoas não estavam comprometidas com a sua agenda. E, em alguns casos, opunham-se veementemente a ela. Desta vez, não é esse o caso“, acrescentou.
Bill Galston, membro sénior do Brookings Institution, um think tank político de Washington, afirmou ao The Guardian que a Casa Branca “está agora a funcionar num ambiente que é de lealdade acima de tudo“. “Se forem leais e lutadores, a balança tenderá a pender a seu favor, mesmo que cometam erros. Os erros são secundários, enquanto a lealdade e a agressividade constante são o principal”, continuou, apontando ter “a certeza de que Trump adora o facto de Hegseth nunca recuar, nunca admitir erros“.
A característica de “nunca admitir erros”, segundo John Bolton, foi uma das Trump teve em conta ao escolher o gabinete, afiançou John Bolton, afirmando que o atual Presidente não quer que o seu segundo mandato seja “definido” por um caos igual ao vivido no primeiro mandato. “Se contrata montes de pessoas e depois tem de despedi-las, isso significa que cometeu um erro. E, como todos sabemos, Donald Trump não comete erros“, afirmou ao Washington Post, de forma sarcástica.