A administração de Donald Trump informou que se opunha à sua divulgação completa, mas perante as reações de líderes norte-americanos a desvalorizar a sua importância, a The Atlantic veio agora revelar todas as mensagens sobre ataques militares iminentes no Iémen, no Signal, enviadas inadvertidamente ao diretor da revista, Jeffrey Goldberg.
A The Atlantic admite o dilema que tinha à sua frente — se no artigo original (publicado a 24 de março e republicado e traduzido aqui pelo Observador) ocultou “informações específicas relacionadas com armas e com a calendarização dos ataques encontradas em determinadas mensagens”, agora entende que existe um “claro interesse público em divulgar o tipo de informação que os conselheiros de Trump incluíram em canais de comunicação não seguros”. Isto porque são os próprios altos funcionários a “tentar minimizar o significado das mensagens que foram partilhadas”, entende a revista.
Neste novo artigo, em coautoria com Shane Harris, Jeffrey Goldberg, o jornalista que revelou a quebra de segurança norte-americana, refere, tal como já tinha feito na segunda-feira, que grande parte da conversa naquele grupo dizia “respeito ao momento e à lógica dos ataques aos houthis, e continha comentários de elementos da administração Trump sobre as alegadas deficiências dos aliados europeus”.
No dia do ataque, a 15 de março, o tema do chat desviou-se para as questões operacionais relacionadas com o ataque iminente — com a cronologia detalhada da ofensiva e a tipologia de armas — que antes Goldberg não quis citar por motivos de segurança.
Às 11h44, no fuso horário Eastern Time, Pete Hegseth, secretário da Defesa escreveu no chat, em letras maiúsculas: “Atualização à equipa”. E continuou: “O clima está favorável. Acabei de confirmar com o CENTCOM [Comando Operacional] que estamos prontos para o lançamento da missão.” Seguem-se as mensagens com as respetivas horas e minutos, agora publicadas e transcritas pelo The Atlantic pela primeira vez, enviadas por Hegseth para um grupo no Signal com 19 membros onde estão altas figuras da equipa de Trump, incluindo o vice-presidente JD Vance:
- “12h15: Lançamento de F-18s”
- “13h45. De forma automática, começa a janela de ataque dos F-18 (alvo terrorista está na sua localização conhecida, por isso [o ataque] DEVE ACONTECER A HORAS — para além disso, serão lançados ataques de drones (MQ-9s)”
O The Atlantic considera que estas duas mensagens em concreto, de sinalização operacional, mostram que o secretário da Defesa dos EUA enviou mensagens de texto a um grupo que incluía um número de telefone desconhecido — o telemóvel de Goldberg — às 11h44.
“Isto foi 31 minutos antes do lançamento dos primeiros aviões de guerra dos EUA e duas horas e um minuto antes do início de um período em que se esperava que um alvo primário, o ‘Terrorista Alvo’ Houthi, fosse morto por estes aviões americanos”, escreve a revista, que considera que se esta mensagem tivesse sido recebida por “alguém hostil aos interesses americanos, ou por alguém meramente indiscreto e com acesso às redes sociais, os houthis teriam tido tempo para se prepararem para o que era suposto ser um ataque surpresa às suas fortalezas”. “As consequências para os pilotos americanos podiam ter sido catastróficas”, conclui a revista.
A descrição operacional continua na mesma mensagem do secretário da Defesa norte-americano, com novas atualizações:
- “14h10: Mais F-18s LANÇADOS (2ª leva de ataque)”
- “14h15: Ataques de drones ao alvo (ISTO É QUANDO AS PRIMEIRAS BOMBAS CAEM DE FACTO, na sequência dos anteriores ataques automáticos [primeiros F-18] aos alvos)
- “15h36: Começa o segundo ataque de F-18 – para além disso, os primeiros Tomahawks são lançados a partir do mar.”
Ao final da tarde de 15 de março, numa das mensagens que também não tinha sido divulgada, Pete Hegseth, secretário da Defesa, escreveu no grupo: “O CENTCOM [Comando Central] estava/está no ponto”.
Disse depois que os ataques iriam continuar. “Ótimo trabalho para todos. Mais ataques em curso durante horas esta noite, e forneceremos um relatório inicial completo amanhã. Mas na hora certa, no alvo, e bons indicadores até agora“, transcreve a revista.
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Casa Branca contra divulgação completa, mas insiste que “não foram transmitidas informações confidenciais”
“Como afirmámos repetidamente, não foram transmitidas informações confidenciais na conversa de grupo”, afirmou Karoline Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca, numa resposta à revista, esta terça-feira.
“No entanto, como o Diretor da CIA e o Conselheiro de Segurança Nacional expressaram hoje, isso não significa que encorajemos a divulgação da conversa. Pretendia-se que fosse uma deliberação [sic] interna e privada entre funcionários superiores de alto nível e foram discutidas informações sensíveis. Portanto, por essas razões [sic] — sim, opomo-nos à divulgação“, acrescentou Leavitt.
Perante esta oposição, a The Atlantic destaca que a declaração da Casa Branca não determina quais os elementos dos textos que considera sensíveis e lembra a reação do secretário da Defesa norte-americano. “Ninguém estava a enviar mensagens com planos de guerra. E é tudo o que tenho a dizer sobre isso”, respondeu Hegseth quando questionado sobre a exposição da falha de segurança.
O próprio Presidente dos EUA negou a gravidade do sucedido esta terça-feira. “Não era informação classificada”, garantiu Donald Trump.
O The Atlantic procurou aconselhamento junto da CIA e a única informação que optou por continuar a não divulgar neste novo artigo é a do nome do chefe de gabinete do diretor da CIA, John Ratcliffe, uma vez que os agentes dos serviços secretos da agência norte-americana não são tradicionalmente identificados publicamente.
Com exceção para essa não identificação, a revista garante estar agora a partilhar as mensagens, sem qualquer edição, após seu diretor ter sido adicionado ao grupo do Signal, devido a um aparente engano, com os mais altos responsáveis da Defesa nos EUA.