Alaa Abd el-Fattah, um ativista pró-democracia egípcio, pediu esta segunda-feira desculpas por conteúdos por si publicados entre 2010 e 2012 na rede social X, numa altura em que aumentam os apelos para que seja deportado do Reino Unido. O dissidente havia chegado há dias ao país que durante anos empreendeu esforços diplomáticos para conseguir a sua libertação de uma prisão no Egito.

“Estou abalado com o facto de, precisamente no momento em que me reúno com a minha família pela primeira vez em 12 anos, vários tweets antigos meus terem sido republicados e usados para questionar e atacar a minha integridade e valores, chegando ao ponto de exigir a revogação da minha cidadania”, explica Alaa Abd el-Fattah em comunicado.

Os tweets foram entretanto apagados da conta de Fattah, mas surgem alegadamente recuperados no jornal britânico The Telegraph.

Social media posts allegedly written by Alaa Abd el-Fattah The Telegraph/ site

O ativista pede “desculpa de forma inequívoca”, admitindo que as suas publicações  — ou pelo menos “aquelas cujo sentido não foi totalmente deturpado” — são “chocantes e ofensivas”. “Eram sobretudo expressões da raiva e frustração de um jovem num período de crises regionais (as guerras no Iraque, no Líbano e em Gaza) e do aumento da brutalidade policial contra a juventude egípcia”, refere ainda.

Numa reação à chegada de Alaa Abd el-Fattah ao país, publicada no X a 26 de dezembro, o primeiro-ministro britânico prestou “homenagem à família de Alaa”, num caso que “tem sido uma das prioridades do meu governo desde que assumimos o cargo”.

Mas no parlamento britânico, em particular os conservadores e o partido de Nigel Farage, Reform UK, pressionam Starmer a revogar a cidadania do egípcio libertado através de um perdão concedido pelo Presidente Sisi. Numa carta dirigida à ministra do Interior (equivalente ao ministro da Administração Interna português), Shabana Mahmood, o líder do Reform UK encabeçou os apelos para que o Governo cancelasse a cidadania e deportasse o ativista. “Não quero que pessoas que odeiam a Grã-Bretanha venham para o nosso país”, afirmou também Kemi Badenoch, líder do Partido Conservador.

Segundo o The Times, também alguns deputados seniores do Partido Trabalhista pedem a retirada da cidadania de Fatah. Ao jornal britânico, um ministro terá dito ser “verdadeiramente chocante que tenhamos acolhido de braços abertos no nosso país um antissemita racista”. “É preciso colocar questões sérias sobre a falta de discernimento demonstrada e o Ministério do Interior deveria ponderar seriamente a retirada da sua cidadania britânica”, lê-se ainda.

Outros políticos que haviam apoiado anteriormente os pedidos de libertação dirigidos aos responsáveis egípcios alegaram desconhecimento quanto às posições expressas publicamente pelo ativista, lamentando ter oferecido o seu apoio.

Os tweets de Abd el-Fattah ascenderam ao conhecimento público pela primeira vez em 2014, depois de um artigo de opinião do Wall Street Journal ter criticado a sua nomeação para a mais alta distinção do Parlamento Europeu, o prémio Sakharov, que acabou por ser retirada.

Conforme apurado pelo The Telegraph, o dissidente, que obteve a cidadania em 2021 através da sua mãe, professora e ativista veterana nascida no Reino Unido, não passou pelas “verificações de ‘bom caráter’”, devido a uma brecha criada pela Convenção Europeia dos Direitos do Homem.

Fattah foi uma figura de destaque na revolta de 2011 no Egito através das redes sociais antes de entrar em conflito com os governantes que se seguiram no país. Foi condenado a cinco anos de prisão em 2015 por protestar sem autorização e em 2019 foi novamente detido no Cairo por “espalhar notícias falsas”.

Texto editado por Dulce Neto