Siga aqui o nosso liveblog sobre a operação dos EUA para a captura de Nicolás Maduro
“Agora estamos a ir atrás da terra. A terra é, na verdade, mais fácil.” Este foi o primeiro sinal dado por Donald Trump do que se seguiria. Uma semana depois do anúncio do primeiro ataque dos Estados Unidos em solo venezuelano, uma operação norte-americana em larga escala varreu os céus da Venezuela na madrugada do dia 3 de janeiro. Em duas horas e 28 minutos, 150 aeronaves desmantelaram as defesas aéreas venezuelanas, limpando o caminho para que helicópteros militares pudessem transportar a força especial do Exército responsável pela captura de Nicolás Maduro e da mulher, Cilia Flores, no complexo militar onde dormiam.
Enquanto a Venezuela continua em suspenso em relação ao futuro político do país, Maduro aterrou nos EUA, tendo passado a noite no Centro de Detenção de Brooklyn, uma prisão federal em Nova Iorque. À chegada, aparece em vídeo, escoltado por dois agentes federais que o seguravam pelos braços, mas sorridente. O Presidente venezuelano está acusado de quatro crimes: conspiração para narcotráfico e terrorismo, conspiração para importação de cocaína, posse de armas de combate e dispositivos destrutivos e conspiração para posse de armas de combate e dispositivos destrutivos. Foi indiciado pela primeira vez em 2020, durante o primeiro mandato de Donald Trump, por acusações semelhantes.
Resumimos os principais acontecimentos numa linha do tempo. Pode ver aqui em baixo o antes, o durante e o depois da captura de Nicolás Maduro, nas últimas horas até ter ficado detido em Nova Iorque.
Inaugurações, lives e “otimismo” com o novo ano: as últimas horas antes da operação militar
30 de dezembro, terça-feira
Maduro visitou a comuna agrícola “Por amor y lealtad a Chávez”, nas “belas montanhas” de Macarao, a sudoeste da capital. Numa publicação na rede social Telegram, em que tem mais de 100 mil seguidores, Maduro surge rodeado de apoiantes e natureza. Entregou vacas, plantas de café e cacau e plantou uma árvore de abacate com a mulher, “Cilita”. “A exportação de alimentos orgânicos será a nova fonte de divisas para a Venezuela. Anotem isso!”, lê-se na mensagem.
Na mesma publicação dava ainda conta de que teriam sido eliminadas em 24 horas, pela “querida” aviação militar bolivariana, nove aeronaves estrangeiras do narcotráfico. “Estamos a culminar um ano de ofensiva contra gangues criminosos e todos os inimigos da pátria. Em 2025, chegámos a 39 aeronaves e [a um total de] 430 desde que aplicamos esta lei”.
31 de dezembro, quarta-feira
Segundo registos por divulgados na sua conta no Telegram, Maduro inaugurou a Escola Internacional de Liderança, numa visita ao estado de Aragua, a “fonte de luz de onde emana todo o movimento feminista”, no centro do país.
“O meu especial cumprimento às mulheres” do movimento Josefa Joaquina Sánchez, “as líderes maioritárias no seio do povo. Vamos formá-las para a ação transformadora”, escreveu na mensagem publicada às 7h08, hora local (11h08 em Lisboa).
“Proponho que sejam as mulheres a liderar o Desafio Admirável, Forever! (RA-2026). O desafio de 2026”.
Às 12h44 (16h44 em Lisboa), Nicolás Maduro publicou uma primeira mensagem a desejar um bom ano, acompanhada por um vídeo em que surge, na primeira imagem, com uma criança ao colo. “O ano de 2025 chega ao fim, deixando-nos lembranças e lições inestimáveis na luta pela nossa pátria, o berço de Bolívar, que mantém intacto o seu direito à existência, à paz e ao desenvolvimento integral”, consta da mensagem.
“Brindemos a um futuro com independência e à construção de uma nova sociedade cimentada nos valores de Cristo Redentor. Feliz Ano Novo, Venezuela!”, lê-se ainda.
Depois de um live stream de 24 minutos, o agora Presidente deposto publica novamente uma mensagem para o Ano Novo, cerca de meia hora antes da chegada de 2026 na Venezuela (3h35 em Lisboa). Na publicação em que diz encerrar o ano de 2025 “com otimismo”, garante ter um plano para o ano seguinte: “Em 2026 temos um plano, uma bandeira, uma história e continuaremos a ter #Pátria.”
1 de janeiro, quinta-feira
Às 12h30 do primeiro dia do ano (16h30 em Lisboa), uma nova mensagem de Maduro no seu canal Telegram. O Presidente despedia-se, mais uma vez, de 2025 “com uma nota positiva”: “Vamos em direção a um novo amanhecer: o ano de 2026, em paz, soberano e criativo.”
Enquanto a administração Trump já planeava a sua captura, às 19 horas locais (23h em Lisboa), a última entrevista do chefe de Estado venezuelano era transmitida na estação pública do país — na verdade, a operação militar já devia ter acontecido por altura do final do ano, mas as condições meteorológicas não permitiram avançar com o plano (e calendário) iniciais.
Embora Ignacio Ramonet já tenha entrevistado várias vezes o Presidente venezuelano no Ano Novo ao longo dos últimos há 10 anos, Maduro foi o condutor desta entrevista em modo carpool, realizada num carro que percorria as ruas da capital.
Ao volante, e com a mulher no banco de trás, Maduro mostrava as atrações da cidade a Ramonet, jornalista diretor da edição espanhola do jornal francês Le Monde Diplomatique e autor das biografias autorizadas do antigo líder cubano Fidel Castro e de Hugo Chávez, antecessor de Maduro.
A transmissão da entrevista, gravada no dia anterior, termina no Passeio dos Heróis, monumento erguido em homenagem às lutas pela independência de vários países da América Latina e localizado no perímetro do Forte Tiuna, a “fortaleza” em que Maduro e a mulher seriam, dois dias mais tarde, capturados por forças militares americanas.
2 de janeiro, sexta-feira
Já nas últimas horas antes da captura, durante a tarde de sexta-feira, Nicolás Maduro esteve num encontro com o enviado especial da República Popular da China, Qiu Xiaoqi, numa reunião de trabalho no Palácio de Miraflores, em Caracas. O Presidente estava acompanhado pela vice-presidente (e agora Presidente interina) Delcy Rodríguez e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Yván Gil.
Durante o evento oficial, transmitido pela televisão estatal venezuelana, Maduro e o diplomata de Pequim trocaram lembranças. O líder venezuelano ofereceu ao representante de Pequim uma pintura em retribuição pela oferta de um vaso de porcelana decorativo pelo enviado chinês.
É a última publicação no seu canal no Telegram, às 20h37 locais (00h37 em Lisboa), a que se seguiram dois lives de cinco e oito minutos.
Na noite de sexta-feira, o mau tempo de inverno melhorou “o suficiente” para abrir um caminho “que apenas os aviadores mais habilidosos do mundo poderiam manobrar”, segundo declarações do general Dan Caine, citadas pelo The Washington Post.
De acordo com o chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine, é às 22h46 (23h46 em Caracas e 3h46 em Lisboa) que Donald Trump dá a ordem para a missão.
Ataques em vários pontos da Venezuela e a captura no forte
3 de janeiro, madrugada de sábado
Por volta das 2h da manhã, hora local (6h em Lisboa), as forças norte-americanas atacaram vários locais no norte da Venezuela, incluindo a capital do país, Caracas. Foram ouvidas pelo menos sete explosões, ao mesmo tempo que se escutava o som de aeronaves a sobrevoar Caracas, até às 2h15 (6h15 em Lisboa).
De acordo com o general Caine, as forças norte-americanas chegaram ao complexo militar em que pernoitava Maduro às 2h02 locais (6h02 em Lisboa).
Duas horas e meia depois do início da operação no complexo, às 3h29 da hora de Caracas, o helicóptero que transportava Maduro e Flores já sobrevoava o Mar das Caraíbas, transportando o casal para um navio de guerra da Marinha, o Iwo Jima.
Na sua rede social, Truth Social, Trump partilhou a primeira imagem de Nicolás Maduro desde a sua detenção.
Depois de declarar estado de emergência nacional, o governo venezuelano denunciou a “gravíssima agressão militar”, quando eram cerca das 4h (8h em Lisboa).
Viagem de barco e o avião até Nova Iorque : a chegada aos EUA
3 de janeiro, tarde de sábado
As informações divulgadas na comunicação social norte-americana permitem fazer a reconstituição das horas que se seguiram: extraído de Caracas de helicóptero, Maduro foi então levado a bordo do Iwo Jima para a base militar dos EUA em território cubano, Guantánamo. Ali, embarcou num avião que o transportou até à Base Aérea da Guarda Nacional de Stewart, em Nova Iorque.
Segundo um elemento das forças de segurança citado pelo New York Times, que não estava autorizado a falar sobre o assunto, Maduro foi depois transportado até Manhattan de helicóptero, onde chegou pouco antes das 19h (00h em Lisboa), seguindo de imediato para a sede da Administração de Combate às Drogas dos EUA (DEA), também em Nova Iorque. Depois de identificado, Nicolás Maduro foi transferido para o Centro de Detenção Metropolitano, em Brooklyn, onde deverá ficar detido.
4 de janeiro, madrugada de domingo
Numa publicação no X à 1h52 em Lisboa, a conta de resposta rápida da Casa Branca mostra Maduro, já em Nova Iorque, a desejar uma boa noite e um “feliz Ano Novo”.
Perp walked.pic.twitter.com/34iIsFUDdG
— Rapid Response 47 (@RapidResponse47) January 4, 2026
Texto editado por Pedro Raínho