O que era para ser um passeio de final de ano no Pico do Paraná, a montanha mais alta do sul do Brasil, tornou-se num pesadelo para um jovem brasileiro que, no entanto, acabou por ter um final feliz. Depois de cinco dias perdido na montanha apareceu com nódoas negras, sem óculos, sem uma bota, mas vivo.
Roberto Thomaz Faria e a amiga Thayane Smith, ambos de 19 anos, começaram a subida à montanha sensivelmente a meio do último dia de 2025, apurou a Folha de São Paulo junto dos bombeiros. Os jovens queriam assistir ao primeiro nascer do sol de 2026 no topo da montanha mais alta do sul do Brasil, a 1.877 metros de altitude. De acordo com os bombeiros, o jovem ter-se-á sentido mal durante a subida, mas, ainda assim, a dupla prosseguiu e chegou ao cume por volta das 4h00 do dia 1 de janeiro.
Já no pico, depois de descansarem, Roberto e Thayane encontraram dois grupos de pessoas. Juntaram-se a um deles na descida, por volta das 6h30, refere o portal de notícias G1, da Globo. Mas a determinada altura Roberto ficou para trás. O portal de notícias brasileiro conta que, de acordo com os bombeiros, o segundo grupo iniciou então a descida e passou pelo local onde Roberto foi visto pela última vez, mas o jovem já não estava lá.
“Quando a gente chegou no acampamento A1, venceu o ‘grampos’ e tudo mais, tava a menina na barraca. Aí eu pergunto para ela: ‘Cadê o Roberto?’ e ela não sabia do Roberto. Aí bateu o desespero, eu falei ‘o guri deve ter se desorientado lá no [acampamento] A2, tá perdido lá em cima. […] Aí nós voltamos. No primeiro ponto que dá sinal de celular, eu faço uma ligação para o Corpo de Bombeiros e situo o bombeiro da posição e das referências que nós tínhamos ali”, contou o analista jurídico Fabio Sieg Martins, um dos montanhistas dos grupos que se tinha cruzado com os dois amigos, ao G1. As buscas começaram logo, com helicópteres, drones, montanhistas e equipas de resgate, mas ninguém encontrava Roberto, que durante cinco dias esteve perdido.
“Estava eu e essa minha amiga fazendo a trilha juntos e encontramos um grupo que também estava descendo — ela percorreu com esse grupo e eu fiquei um pouco mais para trás, com minha velocidade. […] Quando eu me dei conta, cheguei em uma encruzilhada onde não tinha mais visão de ninguém, e tinha um caminho entre a direita e a esquerda”, contou Roberto à CNN Brasil. Escolheu o caminho que lhe parecia estar sinalizado mas não foi a melhor solução. Acabou por escorregar pela encosta, caindo no início de uma cascata.
“Pensei que era o fim”, relatou à RPC, afiliada da TV Globo no Paraná. “Tinha uma cachoeira de mais de 30 metros e não tinha mais como voltar para trás.” Nessa altura, Roberto resolveu saltar. “Olhei para a frente e eu estava com minha última refeição, uma ameixa e um pouco de panetone, e comi. Olhei para a cachoeira e falei: vai, mesmo que eu ande pelo vale da sombra, eu não temo mal algum, porque o Senhor é meu pastor e nada me faltará. Pensei na minha família e pulei”, contou. O jovem disse à CNN Brasil que tinha sido arrastado pela corrente do rio durante cerca de quilómetro e meio, momento em que perdeu os óculos e uma das botas.
????HOJE-Roberto Farias Thomaz, desaparecido no Pico Paraná é encontrado com vida após quatro dias.
Segundo o tenente-coronel Ícaro Gabriel, porta-voz dos bombeiros, Roberto chegou sozinho até a base da montanha, em uma fazenda em Antonina Cacatu, após andar por mais de 20 km. pic.twitter.com/qJuDVR3yym
— André Aranda (@Andre17121979) January 5, 2026
As buscas mobilizaram centenas de meios: mais de 100 bombeiros e 300 voluntários, reporta o G1. Com o passar dos dias, Roberto, que tinha visto um helicóptero uma vez, pensou que tivessem desistido de o encontrar, mas continuava agarrado à fé e à família. Ao terceiro dia, o jovem, cita o G1 pensava: “Eles podem ter cancelado as buscas, mas Deus está comigo e eu vou seguir o destino, o caminho que Deus me deu. Pedi forças à minha mãe, pensei em toda a minha família”.
Sem comida e sem telemóvel (tinha avariado e ficado no acampamento intermédio na subida para o pico Roberto apenas bebeu a água da cascata.
“Nos dias que eu estava nessa trilha dessa cachoeira, não tinha nenhuma árvore frutífera, não tinha nada para comer. Só tinha a cachoeira, um pouco de água, que eu conseguia pegar para tomar um pouquinho, porque eu não sabia qual era a condição da água”, recordou.
O jovem enfrentou ainda outros desafios para além do terreno inclinado e acidentado e a falta de mantimentos. “Todos os dias que eu estive lá, choveu bastante. Muito bicho. Mosquito, aranha, eu vi muita aranha. Pisei em algumas cobras, só que elas já estavam mortas. Graças a Deus não encontrei nenhuma onça”, disse ainda à CNN.
Acabou por percorrer cerca de 20 quilómetros e, pouco antes das 11h00 de segunda-feira, chegou a uma fazenda em Antonina Cacatu (há imagens do momento a circular nas redes sociais), onde entrou em contacto com a família e foi transportado para a unidade hospitalar mais próxima, informaram os bombeiros ao jornal paulista. Estava “lúcido e com sinais de desidratação leve”, reporta a Secretaria de Estado da Saúde citada pela Folha de São Paulo.
Momento em que Roberto Farias Thomaz chega a uma fazenda para pedir SOCORRO após ficar 5 dias perdido na mata.
Roberto Farias Thomaz, de 19 anos, que estava desaparecido no Pico Paraná desde o dia 1 de janeiro, andou cerca de 20 Km, conseguiu chegar até a fazenda e pediu ajuda. https://t.co/H8YtVmrI3V pic.twitter.com/Qv3lywBJQH
— Odnalda Whigson Fênix???????? (@OdnaldaW2) January 6, 2026
À saída do hospital, após receber alta clínica, o jovem mostrou-se grato a todos aqueles que direta e indiretamente ajudaram nas buscas e deixou um pedido: “Pessoas, não façam isso, por favor. Foi um risco enorme que eu enfrentei, foi literalmente um milagre que eu passei por lá”.
Texto editado por Dulce Neto