Como se estivéssemos a completar o refrão da música Liberdade de Sérgio Godinho, depois da saúde veio a habitação. Após uma primeira semana a centrar as suas intervenções nos problemas do serviço de urgência do SNS, Catarina Martins trouxe este domingo a habitação para a campanha prometendo ser, a partir de Belém, “um travão de emergência” ao aumento dos preços das rendas. Como? Desde logo, a candidata apoiada pelo BE vetaria o pacote de habitação do Governo aprovado no Parlamento esta sexta-feira.

Foi a primeira candidata a dizê-lo e desafiou os adversários na corrida presidencial a pronunciarem-se com a mesma clareza. Depois, Catarina Martins visou especificamente o ministro Joaquim Miranda Sarmento que a deixou “chocada” por ter dito que 1.000 euros/mês são uma renda baixa. “Queria deixar a certeza de que travarei qualquer diploma que diga que uma renda moderada são 2.300 euros ou que chame baixa a uma renda que é superior aos salários que as pessoas ganham em Portugal”, assegurou.

Um dos cenários escolhidos pela candidata para discutir o tema foi simbólico: a Associação de Moradores da Bouça, no Porto, fundada em 1975 ao abrigo do processo de construção de habitação pública SAAL. Trata-se de “uma questão de regime”, disse a bloquista, que apontou para o impacto que os preços da habitação têm em profissionais de saúde e professores, causando “uma crise também dos serviços públicos”.

Catarina Martins já tinha aproveitado para lembrar que Portugal é “recordista” na diferença entre os valores dos salários e das rendas e que, segundo a Eurostat, os preços da habitação cresceram mais do que a média da UE, no 3º trimestre de 2025. Mais do que isso, a crise da habitação “é uma crise de comunidade”, defendeu a candidata natural do Porto, que lembrou como na Invicta “todo o pequeno comércio fechou”. Servindo-se do discurso de Isabel Moreira no comício deste sábado, Catarina Martins defendeu que, para reverter a situação, o primeiro passo é, já no próximo domingo, “não emprestar o voto”.

Resposta a Trump não “vai lá com carinho”

A perda do sentido de comunidade serviu de introdução para falar da “política do ódio” e a candidata colocou o assunto no formato da pergunta do ovo e da galinha: “O problema é haver muitos imigrantes na mesma casa ou termos casas que não podemos pagar?”

Catarina Martins também mencionou o caso da morte de uma mulher branca às mãos do serviço de imigração e fronteiras norte-americano (ICE), que levou milhões à rua em Minneapolis, para argumentar que a política de ódio não se fica pelas minorias. “Se alguém achou que isto parava nalgum sítio, não acaba, acaba sempre a disparar sobre cada um de nós. A esperança está em quem sai aos milhões para a rua. Devemos celebrar a solidariedade contra o terror.”

Depois, manteve a discussão do outro lado do Atlântico para acusar Trump de “atirar para matar, contra o seu povo”. Se Henrique Gouveia e Melo se referiu ao Presidente norte-americano como representando “uma deriva perigosa”, Catarina Martins quis discordar: “Trump não está numa deriva perigosa, Trump é um perigo.”

Após corrigir o tiro do almirante, a bloquista defendeu que a resposta não “vai lá com carinho” e definiu este como o tempo em que a Europa deve cooperar com o resto do mundo pela defesa do direito internacional. E não deixou de dar nomes às coisas: “Só podemos defender a Gronelândia, se formos capazes de dizer que o direito internacional tem de valer em Gaza, na Venezuela ou na Ucrânia.”

Comentando a notícia de que o Reino Unido e Alemanha mobilizaram tropas para o território pertencente à Dinamarca, perguntou: “Vamos pedir a um general norte-americano que nos defenda do presidente norte-americano?” Para responder, propôs que a “vocação atlantista” de Portugal seja dizer que a toda a situação “é um absurdo”. “Este é um momento de definição e também é isto que se joga nestas eleições”, concluiu.