O apelo ao voto foi evoluindo durante a campanha de António José Seguro, à boleia de sondagens favoráveis. O candidato presidencial que começou com a ambição de conseguir ter o voto da esquerda e centro-esquerda, terminou a tentar alargar ao máximo o seu alcance, apelando ao voto de todos os que são contra o seu adversário, André Ventura.
Nunca o refere pelo nome, mas Ventura está em todas as entrelinhas de Seguro quando o candidato apoiado pelo PS fala em “extremismos” e “radicalismos”. E falou muito disso nestes dias de campanha oficial, com as sondagens a fazerem com que a sua mensagem fosse, aos pouco, dirigindo-se a todos “os democratas”.
Num almoço-comício esta sexta-feira em Valadares (Vila Nova de Gaia), explicou de forma detalhada o que quer dizer quando pede o voto “dos progressistas e dos moderados”: “É o voto dos democratas, mas também é o voto dos humanistas, democratas-cristãos, socialistas e sociais-democratas.” A enumeração acaba por apanhar todas as áreas políticas, menos a direita populista onde se move André Ventura.
Desde terça-feira à noite, altura em que foi conhecida uma grande sondagem, a da Universidade Católica (para a RTP, Antena 1 e Público), que o candidato tentou fazer destas eleições uma corrida a dois, já na primeira volta — os indicadores apontam com elevada probabilidade uma segunda volta. E no último dia de campanha ante da ida às urnas insiste nessa mesma tecla.
A frente a atacar, vai dizendo nas suas intervenções, é a das “forças políticas que há anos tentam dividir e que se alimentam do ódio”. Por oposição, Seguro repete que vem “para unir”, rejeitando “recuar. Nunca mais recuar”, afirmou neste útlimo dia quando fazia o apelo aos “democratas”.
O socialista garante que a sua “é a única candidatura moderada que pode passar à segunda volta” e diz mesmo que “não há outra candidatura moderada que o possa fazer”. O apelo vai direto aos eleitores de Luís Marques Mendes, com o candidato a dizer-lhes (também sem nomear este adversário) que “um voto noutra candidatura de um moderado não vai ajudar” a que a sua candidatura “esteja na segunda volta”. Numa chamada telefónica com o Observador, durante esta campanha, Seguro explicou que quando fala em moderados é precisamente Marques Mendes que tem em mente: “No sector mais próximo, Marques Mendes, evidentemente.”
VASCO COELHO/OBSERVADOR
A “pôr água na fervura nas sondagens” e prego a fundo da recta final
Neste último dia de campanha, Seguro segue um périplo intensivo, com sete momentos de campanha, cinco no distrito do Porto, um nas Caldas da Rainha (onde vive) e o último em Lisboa, para o fecho de campanha. No Porto esteve em dois mercados (Vila do Conde e Bolhão) e ainda tomou dois cafés com apoiantes que quis evidenciar, Sobrinho Simões e Pedro Abrunhosa.
Durante a manhã chegou a ouvir chamarem-no de “Presidente”, na feira de Vila do Conde, e por isso refreou ânimos, temendo a dispersão de voto com o excesso de confiança. Ao almoço, em Gaia, Seguro disse que “é preciso pôr alguma água na fervura. Quem ganha, na democracia, não são as sondagens. É preciso ir votar”, avisou.
Ainda fez um paralelismo com a sua vida de vitivinicultor ao dizer que “até ao lavar dos cestos é a vindima. Vamos fazer uma boa vindima este domingo”. Prometeu que se tiver o voto dos portugueses que esta “não será a eleição do Seguro, mas de um porto Seguro” — em mais um trocadilho com o seu apelido, que tem sido um dos trunfos que usou na comunicação da sua campanha (dos cartazes aos cânticos e apelos na rua).
VASCO COELHO/OBSERVADOR