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São centenas de quilómetros na estrada, no carro ou em carrinhas, entre hotéis ou em casas de amigos, numa das corridas eleitorais mais exigentes, imprevisíveis e combativas de que há memória em Portugal. Campanha que implica, naturalmente, sacrifícios: há candidatos que se fazem acompanhar pelas respetivas mulheres como suporte emocional; há quem viva com o dilema de expor ou não a família; há quem, não o fazendo, sofra com as saudades de casa. Depois existe quem, sofrendo com tudo isto, vá também pensado na vida profissional que teve de suspender para entrar nesta aventura ou nos jogos de Belenenses que ficaram por acompanhar.
Nesta “Última Chamada do Dia Especial Presidenciais”, os oito principais candidatos falam dos aspetos menos conhecidos do dia a dia na estrada, mas também sobre política — muita política. As contas de Ventura ao primeiro lugar, o sonho cada vez mais possível de Seguro, os altos e baixos de Cotrim, a grande esperança de Gouveia e Melo, e a falta de confiança de Mendes nas sondagens. À esquerda, fala-se sobretudo da competição muito particular que se vai travando, mas também do dia depois das presidenciais — será ou não a primeira derrota da direita em muito tempo.
Ventura. O susto que não esquece, Dina, Churchill e a certeza na vitória
TIAGO PETINGA/LUSA
Já se aproxima da meia-noite quando André Ventura atende o telemóvel ao Observador. As reuniões de campanha ficam para tarde, depois do jantar, e só descansa depois. Tendo em conta as sondagens, sabe que pode ter de duplicar as semanas na estrada e opta por gerir esforços. Desta vez, tem tido a mulher, Dina Ventura, ao seu lado e isso tem-lhe dado outro conforto.
A última campanha para as legislativas, em maio de 2025, ficou marcada pelo estado de saúde de André Ventura. Nesta corrida eleitoral, o candidato apoiado pelo Chega segue pelo país a um ritmo de duas arruadas por dia, diminuiu os comícios a mínimos (atendendo ao padrão das campanhas do Chega) e faz uma campanha sem grandes momentos para discursar.
Estou? Boa noite, André Ventura.
Boa noite, como está? Tudo bem?
Tudo bem, obrigada. Esta campanha é naturalmente diferente — há uma grande probabilidade de haver duas voltas. Está a gerir esforços para a próxima fase?
Não, obviamente há essa expectativa e isso não digo que não tenha nenhum impacto. Mas estou a tentar manter o mesmo ritmo, a mesma força e a mesma intensidade. E isso obriga a uma gestão, não lhe chamaria de esforço, mas a uma gestão política a longo prazo. Esta foi uma campanha longa, não foi uma campanha curta e terá provavelmente uma segunda volta. Tenho de fazer essa gestão com responsabilidade e também com algum equilíbrio.
Caso passe à segunda volta, vai intensificar a campanha eleitoral?
Provavelmente. Pode acontecer haver alguma aceleração e sobretudo uma intensificação de temas, de debate, de confronto e, no geral, de intensidade. Vai haver mais confronto, vai haver mais debate, vai haver mais intensidade.
A última campanha ficou marcada pelo facto de se ter sentido mal. Já falou disso em público. O que se passou altera de alguma forma a sua maneira de estar na rua?
Um pouco, talvez. Acho que vocês também notam nisso. Tento ter alguma cautela. Provavelmente sou aquele que tem mais campanhas em cima, mais esforço de permanência nos vários pontos do território, de gestão partidária, etc. E isso tem que ser feito também com algum equilíbrio. Não diria que afetou, que alterou as contas da campanha, mas é um facto que agora tenho isso mais em conta do que tinha na última campanha. Deu-me alguma consciência dos meus limites. Não há dúvida.
Nestes últimos dias já apanhou algum susto?
Não, não, não.
Vimo-lo a apanhar com uma cavaca. Esse susto, pelo menos, apanhou.
Que sejam todos desses. Que não haja mais iguais aos outros. Mas se não me sentisse bem, era o primeiro a decidir não ter avançado.
No fim de semana, a sua mulher juntou-se à campanha. Sente-se mais confortável?
Sempre que temos connosco a família sentimos-nos mais confortáveis. E isso é normal que aconteça. Há um conforto mais familiar e isso ajuda. É uma campanha longa, desgastante, que é de muita deslocação territorial e por muitos pontos do território. Portanto, acho que esse ponto é importante e acho que em todas as circunstâncias ajuda.
Uma curiosidade: só tem duas ações de campanha por dia. O que é que faz nos tempos livres e nas longas horas de viagem pelo país?
Procuro fazer o país todo. Há adversários meus, e respeito isso, que optaram por fazer uma concentração da campanha em alguma zona e têm mais disponibilidade de número de ações. Achei que era importante passar por todo o território. Tenho tido essa experiência já há vários anos. E isso leva a que tenha que haver aqui uma certa redução de ações para haver uma maior amplitude na deslocação.
Quando está no carro, opta por ver notícias? Vê televisão? O que é que faz?
Televisão não. Tento acompanhar as notícias e procuro estar em contacto com os grupos de trabalho, de preparação das coisas.
Também perde muito tempo a fazer vídeos para o TikTok, para as redes sociais.
As redes sociais são obviamente um ponto de contacto importante. E quem disser o contrário está a mentir. Aliás, os candidatos que estão na frente, tirando um deles, mas pelo menos os que estão na frente em todas as principais sondagens, são aqueles que estão a saber contactar melhor com o eleitorado. E se eu estou em primeiro em quase todas, à exceção de uma, é porque também estou a contactar diretamente com o eleitorado. Isso é uma parte importante de uma campanha. Hoje as campanhas fazem-se muito desta nova forma de digitalização.
Habitualmente, fala com os jornalistas no arranque das arruadas, duas vezes por dia. Essas declarações são suficientes para preencher os espaços informativos mais relevantes. Ao contrário de outras campanhas, raramente adapta a mensagem ao sítio que visita. O assunto do dia é falado em frente aos microfones, independentemente da geografia.
Tem pontuado os dias com um curto discurso no final das arruadas. Dirige-se diretamente aos apoiantes, normalmente focado apenas em temas específicos — que têm ido da Saúde, à corrupção e à imigração. Muitas vezes, alimenta os discursos com queixas das pessoas com quem se vai cruzando e que falam sobre pensões, filhos no estrangeiro ou saúde.
Cada caso é motivo para que Ventura se coloque numa posição de forte oposição ao Governo. Ainda que estas sejam umas eleições presidenciais, Ventura tem dificuldade em despir o fato de líder da oposição, navegando bem para lá dos limites dos poderes presidenciais. O líder do Chega, porém, chama-lhe estilo. Quer ser, diz Ventura, um “Presidente interventivo”.
Tem dito que pretende fazer uma campanha elevada e evita atacar diretamente os seus adversários. Ainda que procure normalizar esta atitude, e tendo em conta o seu perfil político, consegue perceber que isso cause alguma estranheza?
Não é não atacar os adversários. É conseguirmos, nos poucos dias que faltam, discutir temas que ficaram completamente fora das campanhas. O que não aconteceu noutras. Noutras campanhas, houve ataques, houve confronto, mas houve discussão de temas. O que eu senti aqui foi que isso não aconteceu. Daí a minha insistência perante ansiedade do país e o que ouço na rua. Ninguém nos vem dizer assim: “Então, você disse aquilo do Seguro? ou “você disse aquilo do Gouveia e Melo?”. Não. As pessoas vêm-me dizer das pensões, do que se passa na Saúde, da insegurança… Não se trata só de uma questão de perfil. Trata-se de uma exigência do país discutir temas importantes. É isso que estou a tentar fazer. Só isso.
Passou muitos anos com um estilo de campanha completamente diferente. E, na verdade, resultou eleitoralmente.
Está bem, veremos no dia 18 se resulta ou não. É um dever ético pôr temas importantes a discussão quando estamos numa fase tão importante do mundo e do país. É importante discutir coisas que importam. Podemos discutir temas que importam e ter confronto. Não precisamos é de passar a campanha a discutir o perfil de Seguro, de Ventura, Gouveia e Melo, Marques Mendes ou Cotrim Figueiredo. Podemos ser aguerridos e discutir temas. Vou-lhe dar o exemplo das legislativas que tivemos: houve intensidade e houve uma campanha aguerrida; mas houve ao menos alguma discussão de temas importantes. Nesta campanha, isso não está a acontecer tanto. As pessoas sentem falta disso.
Provavelmente pela natureza das eleições.
Não, sobretudo pela imagem que as pessoas têm do Presidente da República. Não tem tanto que ver com os portugueses. Tem que ver com a imagem que têm. Isso é errado e é isso que quero mudar.
Certo, mas já disse que pretende captar eleitorado da AD. É normal que haja uma preocupação acrescida na postura que adota. A tal moderação de que se tem falado.
Não é a minha preocupação. Estou preocupado em conseguir transmitir ideias. Há pouco, antes de falarmos, publiquei nas redes sociais, um vídeo de pancadaria à frente do Continente no Barreiro. As coisas têm que ser ditas, tem que haver verdade, tem que haver frontalidade. Pode haver tudo isto e haver ao mesmo tempo uma preocupação com o país e com o estado do país.
Acha que o Chega se tornou numa espécie de portal de queixa das pessoas?
Acho que o Chega se tornou um portal da voz e não da queixa. As pessoas sentem que em mim, no Chega, têm a voz que nunca tiveram. E é esse candidato que quero ser. Trata-se de dar voz a quem nunca teve voz. As pessoas sentirem que, pela primeira vez, podem ter no espaço público alguém que as defenda, que as represente. Porque se a pessoa viu que no seu bairro, na sua cidade, na sua zona, está uma vandalização cada vez maior, uma selva cada vez maior, terem alguém que expõe as coisas e é capaz de dizer as coisas já é uma representatividade. Nós políticos não adquirimos notoriedade e expressão pública para ficarmos famosos. Devemos pô-la ao serviço da população. Nós não somos atores.
Ainda que, às vezes, pareça uma popstar na rua.
Sim, mas nós não somos. Não somos atores, nem futebolistas, nem cantores. Devemos usar essa notoriedade para fazer valer a voz das pessoas. É isso que eu tento fazer. E é isso que faço todos os dias, porque não fico a viver à conta dessa notoriedade. Expresso essa notoriedade em preocupações, em vídeos, em mensagens, em coisas performativas que podem mudar a realidade.
Ao longo da campanha, Ventura foi assumindo um discurso e um comportamento bem mais moderado do que aqueles que adotou nas muitas campanhas de que foi protagonista. Ao contrário do que aconteceu noutras ocasiões, foi bastante comedido nos ataques aos principais rivais. Recusa que seja tática política, mas é evidente que ganha em estar acima do caos que foi esta corrida e que se tem divertido muito com os erros que os adversários vão cometendo.
De todo o modo, André Ventura assegura que nada disto obedece a um princípio estratégico e vai repetindo, à exaustão, que o seu objetivo é mesmo falar sobre os problemas do país e garantiu que se vai manter assim. Ainda assim, admite abertamente que terá de acelerar o ritmo se passar à segunda volta e que é bem provável que o grau confrontacional venha a aumentar quando tiver apenas um adversário pela frente.
Mas as coisas são como são. Não existe, até ao momento, nenhum cenário que o dê a vencer numa segunda volta. Perderia sempre contra todos os adversários por ter altos índice de rejeição. Ventura sabe que existe este risco, fala dele abertamente, mas corre numa outra pista: na verdade, se conseguir passar à segunda volta como campeão das direitas, não só se afirma como o incontestável líder da oposição, como fica em condições de pressionar Luís Montenegro a escolher entre e um socialista, por exemplo.
Naturalmente, já desafiou Luís Montenegro a posicionar-se sobre uma segunda volta das presidenciais. Ficou, claro, sem resposta. Desta forma, procurou fazer xeque a Luís Montenegro, sabendo que estará num dilema numa segunda volta caso não haja Luís Marques Mendes, e preparando o seu eleitorado para a narrativa de que a AD nada fez para travar um ex-líder do PS em Belém — caso a segunda volta fosse Seguro-Ventura, como parece ser cada vez mais provável.
Desafiou Luís Montenegro a pronunciar-se sobre uma segunda volta entre si e António José Seguro. Recordou, aliás, que a AD e o Chega têm trabalhado em conjunto em diplomas importantes. A relação entre os partidos poderia sofrer algum revés se esse apoio não existisse?
Acho que não, são eleições diferentes. Não é uma questão de partidos. É uma questão de consciência política. Do país que queremos seremos. Se queremos voltar para o país socialista ou se queremos andar para a frente. Eu sou aquele que quer andar para a frente e o candidato socialista será o que quer andar para trás. Aliás, ele próprio disse que foi arredado da política naquela altura. Provavelmente, quer voltar para essa altura. Eu não quero. Quero pôr o país em 2030. Não quero pôr o país em 2014.
Nesta campanha, ainda assim, não está mais a vestir o fato de tal líder da oposição do que de candidato à Presidência?
Quando temos causas não fazemos cálculos de taticismo eleitoral. Queremos mudar o país em todas as eleições. Como dizia Winston Churchill: lutar em todas as circunstâncias, nas praias, nas falésias, no ar, no mar, lutar sempre pelas nossas causas e convicções. É isso que tento fazer.
O tema da imigração tem estado mais ausente da sua campanha. Acha que com a negociação entre o Governo e o Chega o problema ficou amenizado?
Não ficou, evidentemente. Está a acentuar-se.
Mas a questão da imigração está melhor do que estava antes do Chega estar na liderança da oposição.
Acho que PS e PSD são iguais em termos de imigração, francamente. Acho que houve um contributo legislativo, mas que ainda está por…
Ainda não se nota?
Ainda está por verificar. Ainda está por melhorar a situação do país. O país continua num grande descontrolo migratório. Aliás, esta última decisão de suspender os controlos europeus no aeroporto de Lisboa, mostra bem o descontrolo que o Governo continua a ter nesta matéria.
Sabendo que estas eleições são difíceis para si à segunda volta, esta campanha pode tornar-se mais sobre aquilo que pode ganhar no Parlamento?
Não, não. Esta campanha vai ser decisiva para o país e vai ser uma segunda volta como nunca vimos. Temos que ver isto passo a passo. Há uma que vai acabar agora e temos outra que começa depois. São outras três semanas, é muito tempo em política, há muito para discutir, há muito para mostrar ao país, há toda uma nova dinâmica para criar e acho que vai ser completamente diferente. Estas eleições são sobre o Presidente da República e são sobre o futuro do país. Não são sobre mais nada.
Tem sofrer de uma espécie de fenómeno do Le Pen?
Vencer à primeira volta e nunca consegui vencer à segunda volta… Vou lutar com seriedade. Os portugueses terão a última palavra. Há um dado importante: o facto de a maioria das pessoas me ver como potencial vencedor das eleições. Nunca tinha acontecido em sondagens. Nunca houve esta perceção de vitória. É um dado muito importante numa sondagem, mostra como o ambiente político em Portugal está a mudar.
André Ventura tem procurado criar uma onda de vitória durante a campanha eleitoral. Com sondagens muito positivas, o líder do Chega já não tem apenas como objetivo passar à segunda volta; começa mesmo a acreditar que é possível ficar em primeiro lugar na primeira volta — o que objetivamente reforçaria o seu estatuto como candidato natural a primeiro-ministro.
Seja como for, André Ventura assumiu riscos ao candidatar-se à Presidência da República quando tinha conquistado um eleitorado próximo dos 23% nas últimas legislativas. Um resultado inferior a esse será, ficar-se pela primeira volta, seria obviamente, uma derrota em toda a linha para o líder do Chega. O próprio sabe-o, mas recusa fazer grandes cenarizações — até porque acredita convictamente que tem o vento a seu favor.
Se não passar à segunda volta das eleições presidenciais, assume que errou na leitura que fez destas eleições?
Estas eleições têm risco. Mas, como dizia Sá Carneiro, a política sem risco é uma chatice. Acho que devemos arriscar quando sentimos que o país merece esse risco.
Mas não retira nenhuma leitura se vier a valer menos do que conseguiu nas legislativas?
Evidentemente. Farei a avaliação que tem que ser feita. Mas repito o que disse sempre: acho que vou vencer.
Muito obrigada, André Ventura. Continuação de uma boa campanha.
Obrigado, para si também.
Ouça aqui a Última Chamada com André Ventura
Seguro. O candidato-gestor, a campanha em crescendo e uma certeza
VASCO COELHO/OBSERVADOR
Acorda cedo, leva centenas de quilómetros nas pernas, não tem sido capaz de ter grande vida para lá da política, mas não consegue esquecer a vinha que deixou para trás para entrar nesta corrida. Apesar de tudo, há coisas que compensam o esforço e o sacrifício. Está cada vez mais confiante na passagem à segunda volta e nas perspetivas que se abrem para vencer as próximas eleições presidenciais. Vai mantendo uma relação de alguma distância segura face ao PS, ainda que a máquina socialista não tenha faltado à chamada.
Olá, António José Seguro. Como está?
Olá, boa noite. Como vai?
Estou aqui para a última chamada do Observador, numa altura em que já tem muitos quilómetros pelo país. Que tal tem corrido esta campanha?
Muito bem, muito boa. Está num crescendo, está a alargar, é uma maré de alegria, de esperança e estou muito feliz, muito satisfeito com a receção que os portugueses me têm feito e com as conversas que temos mantido.
Tem falado nesse “crescendo”. Como é que têm sentido as pessoas na rua? E sente essa diferença em relação ao quê?
Hoje sinto essa diferença em relação há uns meses. Senti uma mudança no final dos debates e sinto agora uma mudança desde que estamos verdadeiramente em campanha. E sinto alegria, sinto emoção na cara das pessoas, portanto sinto que há uma corrente de confiança que se está a estabelecer entre mim e cada portuguesa e cada português.
E o que provocou essa mudança foi o desempenho nos debates?
Os debates ajudaram, mas considero que as pessoas percebem que há uma diferença entre a minha personalidade e a minha candidatura, há uma proximidade muito grande, conheço as dores dos portugueses, escuto o que eles têm para me dizer, dialogo com os portugueses e tenho feito uma campanha que faz a diferença em relação a todas as outras. Não entrei em nenhum debate de lama, não entrei em desconsideração com os outros adversários, eu vim para unir e para elevar a qualidade do debate público no nosso país. E considero que os portugueses estão a valorizar isso. O que os portugueses querem é soluções para os seus problemas.
Na estrada tem-se notado bem o envolvimento do PS nesta campanha, ainda que numa posição discreta que é imposta pela candidatura que quer poder manter a garantia de que é “suprapartidária”. Mas o partido que António José Seguro liderou entre 2011 e 2014 tem estado ativo e a máquina envolvida na preparação do terreno que vai receber o candidato. Seguro garante que “é a candidatura que está a dirigir a campanha” e que é “aberta a todas as sensibilidades políticas e a muitas pessoas que não têm opções partidárias absolutamente nenhumas”.
“A minha campanha, a minha candidatura sou eu que a dirijo. O caminho foi escolhido por mim, desde que lancei a candidatura, sou eu que o trilho, sou uma pessoa livre, não tenho amarras absolutamente nenhumas”, garante nesta conversa com o Observador ao mesmo também que diz que a equipa que conduz a campanha “é pequena, mas de enorme inteligência e valia”.
Prefere não ficar assim, só debaixo do chapéu de um partido, é isso?
Não, eu não estou debaixo do chapéu absolutamente de ninguém. Eu sou uma pessoa livre, vivo sem amarras e façam-me uma justiça: lancei a candidatura em 15 de junho sem fazer qualquer acordo com partidos, com nenhum partido. E assim manterei. Eu é que trilho o meu caminho.
Com uma coordenação da campanha muito concentrada em si mesmo, António José Seguro acorda cedo e deita-se tarde. E passa os dias envolvido na candidatura, sem tempos livres nem para ler um livro. 9Na estrada não há um dia em que não tenha partilhado — sobretudo quando se encontra com agricultores — que tem uma vinha e a poda por fazer. Durante estes dias também teve de resolver um problema com o ar condicionado num dos alojamentos que tem. “São as contingências de quem vive do seu trabalho”, aproveita logo para dizer quando conta o episódio para mostrar que tem vida para além da política.
E também tem restado pouco tempo para a família. Nesta primeira semana, a sua mulher esteve em poucos momentos da campanha, sempre com discrição. O candidato diz que Margarida Maldonado Freitas vai manter a sua atividade profissional, mesmo que passe a ser primeira-dama: “A minha mulher vai continuar a exercer as suas funções empresariais, como até aqui. Naturalmente, sempre que o Estado, a dignidade do Estado, a representação do Estado exigir a presença da minha mulher, naturalmente que ela ajudará a reforçar essa posição do Estado português, a dignidade do Estado”.
Tem falado todos os dias na poda da sua vinha e também no alojamento local que tem. Tem conseguido manter esses negócios a funcionar por estes dias?
Naturalmente, fechei o ano, pelo menos numa das empresas, com menos faturação do que tinha tido no ano passado. Mas tenho que acudir às situações mais urgentes. Tive que, no meio da campanha, tratar da equipa que vai fazer a poda na vinha e também surgiu um problema com um dos ar-condicionados de uma das casas e também tive que dar uma ajuda no sentido de se resolver essa situação porque também passava por um investimento, tinha que se mudar lá uns equipamentos. Enfim, são as contingências de quem vive do seu trabalho.
A questão da poda já está resolvida? Não andava preocupado em arranjar alguém?
Sim, está resolvida. Falta agora só acertar a data.
Tem algum tempo livre? Já começou a ler o livro sobre Maria Barroso que comprou durante uma iniciativa de campanha?
Não, infelizmente não. Comprei exatamente em Alvalade, em Lisboa, mas ainda não tive absolutamente tempo nenhum para ler. Talvez no sábado.
Resta-lhe algum tempo ao fim do dia?
Não, os tempos que tenho verdadeiramente são de manhã, um bocadinho, porque acordo cedo. Quando acordo, vou ao meu telemóvel, ver as mensagens, ver o que é que a minha equipa me envia, vejo as notícias mais importantes que saem na comunicação social e aí dou alguma orientação caso seja necessário corrigir algumas das nossas ações ou o discurso. E depois, entre viagens, naturalmente vou falando com a minha equipa e com pessoas para fazermos acertos.
E é só trabalho ou consegue descomprimir em algum momento? Ouvir música, ler, ver séries? Há algum tempo livre para isso?
Fundamentalmente, muito trabalho. Embora haja sempre um momento de descontração e de conversa e de partilha. Situações que nos fazem também ter muita alegria nesta campanha. Mas fundamentalmente é trabalho. E depois, quando há possibilidades no final do dia, quando o dia permite, nós reunimos a equipa que está no terreno comigo para fazer acertos ou correções. Às vezes é necessário fazer correções ou de programas ou de iniciativas.
Garante que não tem sido preciso fazer muitos acertos à mensagem política. “Nós mantemos um rumo e eu sou inflexível em relação à afirmação desse rumo.” Explica que o trajeto que definiu passa por “uma campanha pela positiva” — a tal “elevação do debate público” de que tem falado para se distanciar do bate-boca entre os adversários — pelas “características do candidato” e pela “afirmação da necessidade de haver um equilíbrio no nosso sistema político”. Na reta final da campanha entrou no apelo ao voto dos “moderado”, para tentar fazer desta uma decisão entre “radicalismo” e “moderação”. E, ao Observador, explica que está afinal em cada um dos lados.
Quem é que encaixa nesse grupo dos moderados?
Enfim, no setor mais próximo, Marques Mendes, por exemplo.
João Cotrim Figueiredo também encaixa aí ou não?
Não.
Encaixa mais nos radicais, é isso?
Claro, claro.
A conversa continua pela política, com o candidato a garantir que te contactos de rua e mensagens suficientes para manter aceso o desejo de passar à segunda volta. Ainda assim, garante que ainda não tem nada preparado para mais quinze dias de estrada — se isso vier mesmo a acontecer. “Neste momento estamos focados nas eleições e no próximo domingo”, assegura.
Nem mesmo expressa preferência sobre confrontos na segunda volta. Dá a volta à pergunta evita fazer contas a disputas com eventuais adversários num segundo tempo e diz que o seu foco está no próximo domingo. “Neste momento estamos muito preocupados e concentrados, exclusivamente, em que os portugueses nos deem a possibilidade para passarmos à segunda volta”, diz.
Ao mesmo tempo assume que “acalenta a esperança” de conseguir chegar lá. Só recusa que, caso corra bem, aquilo que diz ser “um movimento de esperança” possa transforma-se num movimento partidário alternativo aos que já existem.
Tem dito que a sua candidatura já é um “movimento de esperança”. Se correr bem, pode sair daqui um movimento autónomo ou mesmo partido?
Não, não, não. A maioria que me elegerá, se tiver a confiança dos portugueses, vai-se extinguir no momento da eleição.
Num programa chamado Última Chamada, o Observador acabou a conversa com uma provocação: “Gostava que a primeira chamada de noite eleitoral fosse a de António Costa a dar-lhe os parabéns?”. Seguro respondeu como se não tivesse ouvido o nome do socialista que já foi seu rival no PS — e responsável pelo fim da sua liderança — limitando-se a presumir que “haverá várias pessoas que telefonarão a dar os parabéns”: “Não sei qual será a primeira. Eventualmente a primeira até poderá ser do atual Presidente da República.” Domingo se verá se haverá motivo para esse contacto.
Ouça aqui a Última Chamada com António José Seguro
Cotrim. As “ameaças sujas”, as pressões do PSD e o discurso da filha
Maria João Gala
A campanha de João Cotrim Figueiredo pode bem dividir-se em dois momentos: antes da frase sobre André Ventura e do caso sobre o alegado assédio sexual; e depois da frase sobre André Ventura e do caso sobre o alegado assédio sexual. Parecem mesmo duas campanhas diferentes.
Até ao dia mais negro da campanha de Cotrim, o liberal era o candidato-sensação, a crescer todos os dias na tracking-poll até ao segundo lugar com 21%, como se estivesse num palanque a saborear os ataques do lado de Marques Mendes, e a manter uma pose quase presidencial, a imaginar-se em Belém e indeciso sobre se ficaria melhor como o “Presidente do Otimismo” ou o “Presidente da Esperança”.
Depois desse dia, transformou-se para alguns eleitores no candidato-desilusão. Primeiro, ao mudar o discurso de toda uma carreira política sobre André Ventura; mais tarde, a ter de lidar com os efeitos imprevisíveis da alegação de assédio sexual de uma antiga assessora da Iniciativa Liberal — acusação que Cotrim negou repetidamente.
Esta conversa com o Observador aconteceu antes deste segundo momento, no domingo à noite. Não é possível dizer com certeza que o candidato ainda não conhecia o conteúdo da acusação — que começou a circular precisamente nessa mesma noite. O Observador tentou atualizar a conversa com João Cotrim Figueiredo, que não se mostrou disponível para tal.
Existe, porém, uma pista sobre o estado de espírito de Cotrim: o liberal já fazia uma referência velada a ataques sujos já nessa noite de domingo. Apesar de tudo, nesta conversa com o Observador, não existem referências à alegação de assédio, nem à frase sobre André Ventura — que provocou ataques de Mendes, de Gouveia e Melo e do próprio líder do Chega.
Boa noite, João Cotrim Figueiredo.
Sim, muito boa noite.
Muito obrigado por se ter juntado à última chamada do Observador. Onde é que o apanho? Já está num hotel ou ainda está no autocarro?
Estou na Covilhã, no autocarro a sair para o hotel, mas não vou dizer o nome para não fazer publicidade.
Na manhã seguinte, segunda-feira, teria uma ação no Mercado do Fundão, onde, à pergunta sobre o que faria caso não passasse à segunda volta, Cotrim não excluiu votar em André Ventura. Horas depois, perante a chuva de críticas que estava a receber, veio sugerir que os jornalistas o tinham interpretado mal. Mais à frente, no mesmo dia, fez um vídeo para as redes sociais a assumir que não tinha sido muito claro. No dia seguinte, reconheceria, por fim, que não tinha estado bem e assumindo que soubera do rumor que circulava antes de responder aos jornalistas presentes no Fundão, o que lhe terá toldado o raciocínio.
No domingo, no entanto, o estado de espírito de Cotrim era diferente. Até porque a sondagem diária da TVI/CNN continuava a alimentar um cenário que, há poucos meses, era absolutamente impensável. De tal forma que a primeira pergunta foi onde é que estava quando tinha sabido os últimos resultados — seguia a caminho do Fundão e analisou os números num jantar com a equipa. “Com aquela satisfação de um trabalho bem feito, mas sem nenhuma euforia.”
Dos vários militantes do PSD que lhe foram transmitir apoio esta manhã em Setúbal, houve um, pelo menos, que disse que havia, e há mais militantes da sua secção, do PSD de Palmela, que também eram seus apoiantes, mas que tinham medo de assumir por represálias. Também lhe têm chegado eco de mais situações deste género?
Sim, uma ou outra, não com tanta nitidez, confesso, como este militante de Palmela, mas sim, há algumas situações desse tipo, e por isso eu referi que espero que não seja nada generalizado, nem orquestrado, porque de facto qualquer partido que se preze que seja democrático tem que permitir que os seus militantes, mais ou menos destacados, tomem as suas posições políticas, e decidam neste caso nas presidenciais apoiarem o que quiserem, era o que mais faltava agora as pessoas serem prejudicadas na sua vida política ou pessoal por uma escolha política que façam.
Acha que colheu os frutos daquilo que foi semeando ao longo da semana, nomeadamente em termos do apoio de idosos por causa das visitas aos lares, os combatentes por causa da visita à Liga dos Combatentes, ou acha que são coincidências?
Não, nada nestas campanhas, nem na política, é coincidência, e eu diria até que na vida tudo é fruto de um esforço e de um trabalho, e nós fizemos por isto. E eu já expliquei, não tenho nada a esconder nessa matéria, a campanha começa por apelar àqueles que são mais facilmente convencíveis, e no nosso caso é a camada mais jovem da população, que facilmente apreendem a nossa mensagem de esperança e de otimismo, e de tentar fazer por si próprio. Esses são os melhores embaixadores que temos para chegar a outras faixas etárias.
No sábado à tarde, num comício no Técnico, foi anunciada uma convidada-surpresa: a filha mais velha do candidato, Catarina Cotrim de Figueiredo, que admitiu que ia passar a ser conhecida como “a filha do Cotrim”. João Cotrim de Figueiredo acabou esse discurso emocionado e rodeado dos quatro filhos e dos quatro netos.
Teve algum dilema antes de decidir este envolvimento familiar na campanha? Foi ideia sua ou dos seus filhos?
Os meus filhos residem todos em Lisboa, com a exceção de uma que está temporariamente nos Estados Unidos. A dificuldade era arranjar uma altura em que, por motivos de agenda, fosse possível estarmos todos juntos. Não foi nem uma exigência minha, nem uma exigência deles, foi algo natural. Eles apoiam o esforço político do pai, eu sinto que eles percebem que eu também estou a fazer este esforço por eles, e não decidi mostrá-los de repente, nem acho que eles tenham um particular desejo de serem vistos no palco político. Acontece que eu achei que era tempo também de mostrar que aqueles que estão comigo mais de perto podem testemunhar a minha preocupação com todas as gerações. Podia, noutras circunstâncias, ter levado a minha mãe, que tem 95 anos, e que infelizmente já não tem todas as capacidades cognitivas nem de mobilidade, mas que também está muito empenhada nesta campanha, com a idade que tem, com o conhecimento talvez mais limitado do que se está a passar, mas muito empenhada e muito interessada neste processo. Aquilo que eu estou a tentar fazer por outros, comecei a fazer pela minha própria família, e gostava que os portugueses percebessem isso.
Várias pessoas presentes disseram que a presença mais habitual ali, mais frequente, até é o seu filho mais novo. Como é que foi a decisão de ser a filha mais velha a falar?
Achei que, sendo todos eles uns indefectíveis defensores da minha atividade política, independentemente das suas opiniões políticas, faria sentido que fosse a mais velha a falar em nome dos quatro. Tanto quanto sei, pelo menos nos grupos de família, não foi discussão, nem foi tema.
E durante o discurso da sua filha, como é que foi para um pai, candidato a presidente, naquele momento, receber aquele apoio público da filha, daquela forma?
Foi simultaneamente algo que eu sabia que ia receber, porque falamos muito e sabemos aquilo que achamos uns dos outros e o que andamos a fazer, e muito, muito, muito emocionante, como se pode imaginar, receber aqueles elogios públicos e aquela demonstração de confiança pública por parte de uma filha que há 36 anos me tem alegrado a vida, é absolutamente extraordinário. Por isso eu disse também que é difícil começar um discurso político como eu tinha que fazer a seguir a intervenção da Catarina, sem uma lágrima ao canto do olho, foi bastante difícil. E há vários momentos nesta campanha que têm sido difíceis desse ponto de vista: em algumas visitas a lares de idosos, algumas histórias que ouço de parte dos idosos lembram-me muito a história da minha avó Prazeres, e, portanto, quando se tenta introduzir aspetos mais pessoais na campanha, torna-se mais difícil conciliar o estritamente político com o pessoal.
E no pós-comício, como é que a família reagiu? Falaram em conjunto sobre este momento?
Acabámos por estar juntos a seguir ao comício e foi muito gratificante perceber o quanto eles gostavam de apoiar esta minha luta eleitoral para a presidência e do quanto eles se sentiam orgulhosos de um pai que não vira a cara à luta. Isso é algo que eu não esquecerei, levarei para a vida. Seja qual for o resultado a 18 de janeiro, esta vitória já ninguém me tira.
Está preparado para o impacto que pode ter a divulgação de sondagens que lhe deem números inferiores?
Estou perfeitamente preparado para que haja resultados diferentes em sondagens, que me coloquem em níveis diferentes. Eu tenho sempre dito que mais do que o resultado absoluto nas sondagens o que me interessa é a tendência. Se uma determinada empresa de sondagens me dá uma porcentagem, e que essa porcentagem representa um crescimento em relação à versão anterior dessa mesma empresa de sondagens, eu continuo a achar que o trabalho está a ser bem feito. E é impossível não sentir que há uma vaga verdadeiramente impressionante de pessoas a aderir a esta candidatura.
Mesmo que não me deem os níveis que outras, e nomeadamente a sondagem diária, têm dado, eu continuarei a acreditar que, até ao último dia, estamos perante a possibilidade real de chegar à segunda volta e de, pela primeira vez em muitas décadas, um candidato oriundo de um partido que não é grande conseguir disputar a Presidência da República.
Para terminar, e não lhe tomo mais tempo: está preparado para uma semana de ataques ainda mais intensos entre os vários candidatos? E como é que vê esta descida contínua do seu principal adversário, Luís Marques Mendes?
Bom, a descida de Marques Mendes provavelmente terá a ver com alguma dificuldade que a campanha tem estado a ter de se afirmar com alguma ideia que lhe seja particular, algum valor que lhe seja particular. Quando se pergunta o que é que representa a campanha de Marques Mendes, é difícil dizer exatamente, exceto 40 anos de experiência política e pouco mais. Acho que isso é pouco para oferecer aos portugueses em 2026. Mas isso é a minha leitura e posso estar completamente enganado. E sim, infelizmente, neste equilíbrio político, tenho que esperar ataques dos mais variados tipos e espero só que não sejam demasiado sujos.
João, muito obrigado por ter tido esta última chamada connosco.
Foi um gosto. Boa noite. Muito obrigado.
Ouça aqui a Última Chamada com João Cotrim Figueiredo
Gouveia e Melo. Os 15 minutos de power nap e a maioria silenciosa
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Uma boa parte da campanha de Henrique Gouveia e Melo é passada no carro, apesar de já ter andado de barco, numa atividade rafting, e até de avião. É do lugar do pendura do Toyota branco em que habitualmente segue que atende a chamada do Observador no fim de um longo, mas com menos ações que o habitual.
Horas depois de conhecer o resultado das últimas sondagens, mantém-se absolutamente convicto na vitória, motivado e disposto a aguentar mais uma volta. Reconhece que experiência tem sido exigente do ponto de vista físico, ainda que assegure estar em boa forma. Também concede que já estar mais treinado a responder a jornalistas e com a vida na caravana.
Boa noite, como está?
Boa noite.
Queria começar por uma pergunta muito típica em campanhas: têm sido dias muito cansativos ou está a aguentar-se?
Os dias têm sido cansativos, porque a minha campanha tem sido uma campanha muito intensa. No entanto, são dias cansativos fisicamente, mas muito interessantes em termos do conteúdo e do contacto com as pessoas, que eu tenho adorado.
Havia muito aquela questão de não ter experiência. Pela maneira como responde aos jornalistas, como fala com as pessoas, sente que está em crescimento nesses aspetos? Hoje é mais fácil estar nessas situações?
Eventualmente, sim. Mas a minha falta de experiência, quando falava com jornalistas, tem a ver com a minha forma muito genuína de dizer as coisas. Não tenho uma vida política anterior em que tenha estado treinado a esconder o que penso e a tentar, de alguma forma evitar assuntos ou problemas. Portanto, naturalmente, se cometi erros, foram erros que têm a ver com a minha forma muito aberta e direta de dizer as coisas. Relativamente às pessoas, é uma característica que já tinha, porque lidei com muitas pessoas, de muitos estratos, de diferentes áreas do país e de culturas também diferentes nas Forças Armadas. E desde pessoas muito jovens até outras já bastante adultas e novas.
E o que é que lhe custa mais neste processo todo? São os contactos com a comunicação social ou não ter descanso?
Francamente, eu gosto quer dos contactos com as pessoas, quer do contacto com a comunicação social. O que me custa mais é notar alguns preconceitos nas interpretações que se fazem dos conteúdos que resultam das minhas entrevistas ou das minhas exposições. Esses preconceitos, de alguma forma, enviesam a forma como são lidas as minhas exposições.
Está a falar dos que chamou de “sicários”? Os comentadores?
Não, isso foi numa fase em que a imprensa era muito negativa. Tudo o que dizia iam tentar encontrar qualquer falha, qualquer incongruência. Muitas vezes, não todas, não havia incongruência nenhuma. Não sei se é uma palavra muito forte, mas era isso que queria dizer. Não parecia que era uma boa informação. Tinha um certo ativismo político por trás. Esse ativismo político revelava algum preconceito contra o país militar que se quisesse meter na política. Ou então alguma obrigação partidária. E foi isso que me fez dizer isso.
Depois de admitir que às vezes fecha os olhos durante 15 minutos no carro — onde normalmente vai acompanhado pelo motorista e dois dos três assessores que o acompanham — explica que a maior parte do tempo é passado na conversa. E o rádio, quando vai ligado, é para ouvir as notícias. Sobre o cansaço acumulado, conta que tem dormido entre 4 a 5 horas por dia.
Já percebi que vai sempre à frente no carro. Tenho algumas curiosidades. Vai lendo as notícias? Lê links que partilham consigo num grupo do Whatsapp? Costuma ouvir as notícias ou prefere música?
Sim, gosto de ir à frente.
Mas vai a ouvir música ou as notícias?
Raramente ouço música. Somos muito ativos, falamos uns com os outros. Normalmente, vou a ouvir notícias ou estamos a conversar uns com os outros. Às vezes, também acontece parar para descansar por 15 minutos. Depois desperto, abro a porta e lá estou em ação de campanha.
Tem dormido poucas horas, não? Já disse que é bom com a matemática. Tem ideia de quantas horas tem dormido em média?
Menos de cinco horas por dia. Entre quatro e cinco horas por dia.
Há pouco falou no facto de ser militar, dizendo que no início parecia haver algum preconceito. A partir de certa altura da campanha, quando falou no “miúdo de 17 anos”, começou a puxar cada vez mais também esse lado militar. Começou por tentar mostrar um lado mais civil e agora já perdeu esse pudor?
Não. Há uma continuidade. Uma das motivações para me candidatar era achar que o mundo se ia tornar muito mais perigoso. Na realidade, confirmou-se o que eu temia. Com essa confirmação, tento mostrar à população que irá votar que a minha preparação militar pode ser uma mais-valia para a República, no sentido em que o Presidente é o Comandante Supremo das Forças Armadas. Uma pessoa que não esteja habituada a olhar para a perspetiva internacional, para a geopolítica e geostratégica, que não conheça bem alguns assuntos, terá mais dificuldades naturalmente. É fácil mostrar a diferença.
Henrique Gouveia e Melo diz que é tímido, por defeito militar. Fica incomodado quando lhe elogiam os atributos físicos na rua, o que tem acontecido com muita frequência nas arruadas e visitas a feiras. Por norma, costumam dizer ao almirante que “é muito alto” e que “tem os olhos muito bonitos”. Também lhe chegaram a elogiar o sorriso, dizendo que “era bonito como o do Goucha”.
Não gosta desses elogios também porque não conduzem ao que chama de “voto racional”. Diz, porém, que fica derretido quando lhe elogiam o trabalho que fez na pandemia. Revela ainda que a frase que mais gosta de ouvir da claque de fãs que o acompanha é: “Já não pára, almirante”. Mas, às vezes, só às vezes, desejava ter uns minutos de silêncio.
Na rua também lhe elogiam o trabalho na pandemia, e agradecem-lhe até por salvar vidas. Também há quem lhe elogie os olhos, mas, nesses casos, parece que não fica tão confortável. Como é que lida com isso?
Fui habituado, porque como militares somos habituados, especialmente na Marinha, a não gostar de elogios. Achamos que a missão fala por si, não devemos fazer elogios ou gostar de ser elogiados. Portanto, temos sempre alguma timidez. E então quando são elogios, também com a parte física, fico mesmo desconfortável. Tento desviar.
Acho que não estou a mentir se disser que elogiam os olhos e o facto de ser mais alto.
Sim. Mas isso não contribui para nenhuma decisão racional. Fico desconfortável. Preferia que me elogiassem por outras qualidades. Quando falam do meu passado recente, da minha participação na task force da vacinação, gosto de ouvir as pessoas a dizer que iam reconhecer o trabalho que foi feito. A soma da parte física… Olhe, não tive contributo nenhum, foram os meus pais que contribuíram.
Tem alguma música que os jovens que andam atrás de si cantem que goste mais?
Acho os meus jovens fantásticos. Quando eles andam connosco, às vezes fazem tanto ruído, tanto ruído, que eu digo: “Pára, pára, pára, só dois minutos ou três minutos para regularmos os nossos ouvidos”. Mas há uma em que eles dizem: “Já não pára, almirante! Já não pára, almirante!” É uma sensação de energia que nos transmitem. Devo-lhes muito. Sou muito grato ao trabalho que eles têm feito nesta campanha.
O candidato antecipa que, se for eleito, terá certamente atividades mais físicas, mas saberá bem distinguir o que são momentos institucionais de momentos mais informais. Pela manhã, no Mercado do Livramento, em Setúbal, apareceu pela primeira vez de fato e gravata nestes dias de campanha oficial. Pouco depois, percebia-se que uma das razões por estar tão informal seria o reencontro com antigas altas patentes militares.
Também já andou de mota, fez rafting, vai ter um estilo, se for eleito, de Presidente ativo. Não estou a imaginá-lo como Vladimir Putin a andar de cavalo, mas vai ter algumas ações mais ativas a mostrar também esse lado da atividade física?
Sim, sou uma pessoa ativa. Estou em boa forma física e isso tem a ver com as características da minha profissão. No entanto, sei muito bem distinguir as duas coisas. Há momentos em que devemos ser muito sérios e protocolares, há momentos em que devemos ser mais descontraídos e o que a população percebe o que é isso. Um ser humano não dorme de fato e gravata, não vai fazer a barba de fato e gravata.
Ainda hoje esteve de fato e depois também percebi que tinha alguns almirantes e um general ao almoço. É uma questão de respeito?
Sim. São militares e ex-militares. Nós, no nosso dia-a-dia, quando nos encontramos, somos formais. Temos algum formalismo que vem da nossa profissão. São pessoas que viveram comigo, pessoas que me deram muito e que foram grandes exemplo para mim na minha vida. Era uma questão de mais respeito para com eles. E sabia que não ia fazer uma atividade física.
Sei que o dia vai longo, mas queria perguntar-lhe que balanço é que faz e o que espera dos próximos dias da campanha?
O balanço é muito positivo. De alguma forma temos que contrariar uma imagem que as pessoas têm de que eu sou uma pessoa distante e muito austera. Acho que não sou. Sou uma pessoa austera quando tem que ser austera em termos do trabalho. Mas sou uma pessoa muito próxima e empática — e julgo que esse efeito da campanha ainda não se manifestou verdadeiramente. Porque é um efeito que ainda não está muito visível. No entanto, acho que a campanha está a correr muito bem. Depois, são os portugueses que decidem no fim.
Num dia em que a sondagem da Católica para RTP o coloca em quarto lugar a nove pontos do segundo lugar, confirmando a tendência consolidada na tracking poll da TVI/CNN, Henrique Gouveia e Melo desvaloriza, aponta falhas às sondagens e repete que existe muita gente que não está refletida nos estudos de opinião e que acabará por votar em si no dia 18 de janeiro. São essas pessoas a quem chamou de “maioria silenciosa” já durante esta campanha.
Acredita que há um eleitorado escondido que não aparece nas sondagens que vai votar em si?
Sim. Tenho essa convicção. Por exemplo, nestas sondagens que muitas vezes aparecem, eles, em cada quatro chamadas telefónicas que fazem, só uma pessoa é que responde. As técnicas de sondagem têm as suas falhas. E se as sondagens ganhassem eleições, não precisávamos de ir a votos. Acredito verdadeiramente que há uma parte do eleitorado [cujo sentido de voto] não se consegue perceber. Só teremos verdadeiramente resultados concretos no dia 18. Aliás, em eleições anteriores, já aconteceram grandes erros em sondagens. Tenho sempre alguma reserva relativamente a sondagens. O que me preocupa muitas vezes é que estas sondagens possam de alguma forma manipular a opinião pública. Isso é que não parece muito legítimo numa democracia.
Só para terminar, vou perguntar: quantos dias é que faltam para a vitória?
Faltam cinco dias para a vitória. Cinco dias!
A pergunta é desdobrada, há uma segunda parte da pergunta: essa vitória vai ser sua?
Certo. A vitória há de ser de algum jeito. Mas eu estou muito convencido que há uma lógica muitas vezes volátil e de último momento que determina a vitória. Portanto, a luta política é até mesmo ao último minuto. Até ao último minuto, até à próxima sexta-feira.
Muito obrigado. Muito boa noite.
Muito obrigado
Ouça aqui a Última Chamada com Henrique Gouveia e Melo
Mendes. A primeira dama e o drama das sondagens
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Na rua, as conversas são normalmente curtas e simpáticas – ouve muitas vezes, como refere aqui, desabafos mas que têm sobretudo a ver com matérias que não dizem diretamente respeito aos poderes presidenciais (na feira de Paredes, houve quem lhe perguntasse se ia baixar os impostos). Mendes goza, evidentemente, de uma notoriedade indiscutível, justificada sobretudo pelos doze anos de comentário televisivo.
Ninguém sabe quanto disso se traduzirá em votos. Na rua, onde prolonga agora essa “relação à distância” que foi mantendo com os telespectadores, quem muitas vezes se destaca é a mulher, Sofia: anda sempre ao lado do candidato, distribui beijos e abraços, conversa, sorri e tem direito a cânticos (“Nós só queremos a Sofia a primeira dama!”). E durante o dia tem sempre a companhia da mulher, nas refeições, nas viagens e em qualquer parte.
A companhia pode ajudar a combater o natural cansaço, mas Mendes já avisa que está pronto para fazer quatro semanas (ou seja, ir à segunda volta) e que já organiza os seus descansos, e a gestão do esforço, a contar com isso. Tem de ser “otimista” sobre isso: afinal, foi a vida que escolheu.
Boa noite, como está?
Olá, desde há bocadinho.
Como é que correu o dia? Está cansado? Foi um dia cheio.
Cansado estou. Toda a gente ao fim de um dia de campanha intensa como esta fica cansada. Mas a mim o cansaço também passa rapidamente, porque se a motivação é grande, compensa.
Como é que chegou a esta ideia da liderança firme e tranquila, que é inspirada na “força tranquila” de François Mitterrand. Porque é que é um bom mote para a segunda parte da campanha?
É a minha ideia de sempre. Posso tê-la apresentado agora de forma mais clara, sintética, afirmativa. A ideia é ter uma Presidência da República que seja um fator de estabilidade e, portanto, de tranquilidade. Mas ao mesmo tempo é uma liderança que não é apenas tranquila. É também firme nas convicções, na exigência de resultados, na afirmação de uma vontade estratégica para o país.
Acabou por inspirar António José Seguro, que cita agora precisamente o slogan de Miterrand?
Não sabia. Mas se entendeu copiar é porque a minha ideia está boa. É a prova provada de que eu estava certo.
A propósito da ideia de firmeza de que estava a falar, deu dois conselhos presidenciais a Ana Paula Martins. Estes casos na Saúde, tendo em conta que é apoiado pela AD, têm algum impacto para si? Acha que os eleitores o associam a isso?
São coisas completamente distintas. As pessoas separam completamente eleições legislativas e eleições presidenciais. Há uma coisa que devemos ser justos: as questões na saúde preocupam as pessoas. E a circunstância de perante os vários casos que vão surgindo o Governo, e o Ministério da Saúde em particular, terem vazios em matéria de informação e de esclarecimento, prejudica. Não estou a dizer que me prejudica; faz é com que as pessoas fiquem mais preocupadas. É talvez o setor do Governo que mais preocupa as pessoas. E uma parte tem a ver com decisões ou falta delas, mas há uma parte grande que tem a ver com uma má gestão da comunicação. Se perante problemas que surgem ninguém dá uma explicação, ninguém dá um esclarecimento, obviamente isso gera alarme. Entendi dar esse conselho presidencial porque acho que o Presidente da República não existe apenas para fazer crítica. Pode fazer crítica, com certeza, mas acho que isso é curto e transforma a vida política numa certa mediocridade.
Também existe para apontar caminhos.
Isso mesmo. A minha visão do cargo é uma magistratura de influência construtiva, que implica a crítica, se for necessário, mas sobretudo apontar caminhos. Tenho apontado várias ideias profundamente inovadoras para mudar o estado da saúde em Portugal. E isso vai ter de acontecer. As coisas não podem continuar da mesma maneira. Quem quer ser Presidente tem de ser construtivo. E nesse plano tento ser um pouco diferente. Não se pode dizer que não estou a apontar ideias e caminhos.
Conta com o Governo em peso na campanha, o apoio oficial da AD e o aparelho do PSD empenhado na sua candidatura (mesmo que o partido “real” se divida). O desafio é provar que, apesar de todos os esforços para mobilizar o eleitorado da AD e não deixar escapar a passagem à segunda volta, vai ser independente – e essa garantia, que todos os ministros vão repetindo (Manuel Castro Almeida dizia esta fim de semana que Mendes, enquanto Presidente, deixará a AD muitas vezes “triste”) pareceu ficar em causa quando, na primeira reação aos casos de atraso no INEM, apontou exclusivamente à direção executiva do SNS, poupando o Executivo.
Entretanto, a mensagem foi corrigida: Mendes fala com cada vez mais veemência sobre o papel do Governo e da ministra da Saúde, consciente de que os portugueses estão preocupados (é, aliás, das queixas que mais ouve quando percorre as ruas e os mercados de Portugal). Nesta conversa, chega mesmo a falar dos “vazios de informação” e da “má gestão da comunicação” que existe no Governo, e que, assegura, não o prejudica, mas “prejudica” o Executivo. O dia 18 também servirá para perceber se, como Mendes acredita, as pessoas separam mesmo as duas eleições e não vão aproveitar para mostrar um cartão vermelho ao candidato apoiado pela AD.
O foco do candidato presidencial encontra-se agora em mostrar que consegue pôr em prática o slogan de Mitterrand – e isso faz-se, garante, exercendo uma magistratura de influência “firme”, pelo que tem aproveitado para ir deixando sugestões concretas de reformas ao Governo (começando pela Saúde, onde quer que as nomeações deixem de ter em conta os “cartões partidários).
Perguntamos-lhe muito pelas sondagens e agora temos esta tracking poll que é diária e anima muito as conversas na campanha. Acredita nestes números que apontam um crescimento tão fulgurante para Cotrim Figueiredo?
Não vou estar a comentar sondagens. É objetivo que toda a gente está concentrada nesta sondagem da TVI. Mas eu gostava de dizer duas coisas. Esta é a mesma sondagem que há quatro anos começou por dizer que o PSD de Rui Rio estava à frente.
Rui Rio até chegou a aconselhar humildade a António Costa para a hora da derrota.
E depois António Costa não só ganhou, como ganhou com maioria absoluta. É a mesma empresa. Não estou a criticar a empresa, estou apenas a constatar. Enganou-se redondamente. A empresa, claro, dizia que no último dia não se enganou. Pois, mas andou a enganar-se durante vários dias.
Isso não viciou um pouco o jogo?
Não sei se viciou o jogo, isso é partir do princípio que as pessoas mudam a sua opinião em relação a uma sondagem desta natureza. Isso não creio. Mas aquela sondagem, que não é sondagem, vale o que vale. A empresa falhou há quatro anos redondamente. A segunda parte é: vamos admitir então que estou errado e a sondagem está certa. Há uma segunda parte que diz que os portugueses acham que passo à segunda volta com André Ventura e que depois ganho ao André Ventura, ou seja, sou o favorito.
Ainda hoje o ouvi dizer que às vezes parece que os seus adversários andam na guerra. Como é que lida com isso? Gosta de ir à luta ou prefere conter-se?
Gosto de ir à luta, evidentemente. E já fui à luta muitas vezes. E neste momento estou numa luta também, claro. A questão é qual é o modo de fazer esta luta. Os meus adversários passam o tempo a guerrearem-se uns aos outros. Fiz isso uma vez ou outra, a título excecional. De modo geral faço uma campanha pela positiva.
Isso para transmitir uma postura mais presidenciável?
Sim, e sobretudo é mais útil. As pessoas estão fartas de uma campanha só de ping-pong, de ataques e contra-ataques.
É inegável, e Mendes assume-o: a tracking poll diária da CNN/TVI acabou por se tornar uma protagonista da campanha, mexendo com os ânimos (e as estratégias) dos candidatos e dos eleitores. Apesar de o método não ser exatamente o de uma sondagem, de a amostra ser menor e de as variações serem pequenas, a tendência para Mendes tem sido negativa, colocando-o em quinto lugar, atrás de todos os rivais para passar à segunda volta.
Mendes usa a arma mais forte contra a tracking poll: não quer “criticar” a empresa, mas lembra que foi a mesma que há quatro anos dava a vitória a Rui Rio. E toda a gente sabe como é que essa história acabou. Durante a campanha, vai contrariando a ideia de “desânimo” e garante mesmo – com base, mais do que em palpites, em números internos da campanha – que os analistas que acreditarem nas sondagens se vão enganar “redondamente”.
Em campanha convém fazer um equilíbrio virtuoso para evitar “triunfalismos” (que podem fazer com que o eleitorado relaxe e não vote, tendo um excesso de confiança no seu candidato) ou o contrário (podendo passar-se a imagem de que o candidato não passa à segunda volta e que por isso mais vale trocar de voto).
Quantos aos adversários que andam em “guerra”, não é que Mendes nunca se tenha metido nela – nesta campanha já classificou comportamentos de Cotrim como “ridículos” – mas tenta não dedicar a maior parte do discurso à troca de farpas, deixando muitas vezes esse encargo aos apoiantes que convida para falar dos comícios. Afinal, como vai recordando, ele é que é o candidato.
Tem criado uma relação com os portugueses há muitos anos através da televisão, a tal relação à distância de que já falou. E agora anda também a alimentar essa relação na rua. O que é mais natural para si e como é que prefere manter essa relação com os portugueses?
As duas coisas. Acho que construí como comentador uma relação muito forte com os portugueses. Constato com satisfação que na rua muitos portugueses recordam os comentários e desabafam comigo a dizer que têm saudades. Fico satisfeito e sensibilizado. Mas fiz uma escolha diferente e gosto deste contacto de rua. Na campanha eleitoral, entre comícios e contactos de rua, gosto muito mais de contactos de rua. Os comícios têm de ser feitos, fazem parte da lógica, mas gosto muito mais dos contactos de rua porque são mais genuínos. Obviamente também são mais perigosos, pode aparecer uma pessoa ou outra a criticar.
A sua mulher, que o acompanha sempre, também tem sido uma componente importante nesse contacto de rua, não é? Tem sido uma ajuda?
É um bocadinho ser juiz em causa própria, mas sim. Ela é muito genuína e, portanto, tem muito jeito. As pessoas gostam dela e tem gerado uma onda de simpatia. Não é propriamente uma pessoa da política, mas é uma pessoa com uma grande dose de afetividade e de autenticidade.
Nestes dias de campanha consegue fazer alguma coisa para descontrair e para desligar da política ou não é possível?
Quase impossível. Não vou estar aqui a enganá-la. Praticamente o tempo é todo concentrado ou na campanha ou no descanso, que é uma componente também importante numa campanha, já que tudo isto é tão intenso, tantos quilómetros, são tantos contactos, tantas fotografias, e muitos discursos. Tudo isto é muito intenso. O tempo que resta é sobretudo para descansar. É muito difícil encontrar tempo para outras leituras que não sejam as questões que têm a ver com a campanha. Mas pronto, isto também é um período curto, circunscrito. São duas semanas.
Se tudo correr bem, serão mais três semanas.
Sim, mas é o normal. Não me queixo de nada. Primeiro porque eu tenho um pensamento sempre positivo. Eu sou uma pessoa muito otimista, que vive as coisas sempre com confiança. E também não era nenhum ignorante. Sabia muito bem quais eram os prós e os contras de um desafio desta natureza. E ponderei tudo isso. Portanto, não me queixo rigorosamente de nada. Nem de ninguém, nem de nada.
É um bom mote para eu o deixar ir descansar. Obrigada pela conversa.
Adeus, obrigado. Até amanhã.
Ouça aqui a Última Chamada com Luís Marques Mendes
Catarina Martins. A campanha anti-hotéis pela liderança da esquerda
FERNANDO VELUDO/LUSA
Apesar de a candidata não o admitir, ficar à frente de Jorge Pinto e de António Filipe seria uma muito necessária vitória para o partido de que Catarina Martins foi líder. Publicamente, a eurodeputada garante que a maior vitória é mesmo ter um lugar à mesa da discussão — e tentar marcar a agenda. Sem eleições no horizonte até 2029, estas presidenciais são uma última oportunidade de cobertura mediática mais intensa para os partidos à esquerda do PS, que estão reduzidos a mínimos históricos no Parlamento.
Esse palco tem sido também utilizado para pressionar António José Seguro, que tem reais hipóteses de ser o próximo Presidente da República, a pronunciar-se sobre determinados temas e a dar garantias de defesa dos valores da esquerda. Como mandam os manuais das boas campanhas, estando à frente, o socialista raramente responde à bloquista — seria um erro do ponto de vista estratégico. Ainda assim, Catarina Martins não tem deixado de se tentar bater com Seguro.
Boa noite, Catarina Martins.
Olá, boa noite.
Passados menos de dois anos, volta a ter aqui uma campanha intensa, com muitos debates, muitos candidatos, muitos quilómetros. Segundo me disseram outras pessoas da sua campanha, num esforço de controlo das despesas, na sua caravana não tem havido estadias em hotéis e têm procurado dormir em casas de pessoas que conhecem, nos vários pontos por onde vamos passando no país. Tem conseguido descansar ainda assim?
Sim, consegui. Esta é realmente uma campanha assumidamente feita sem meios e está muito bem assim. Também é um privilégio ter apoio de tanta gente que se voluntariou para apoiar a campanha. Desde gente que se voluntariou para fazer coisas para as redes sociais, até gente que se voluntaria acolhendo-nos em sua casa, de vez em quando. Mas tenho sido muito bem tratada, não me queixo nada
Se voltasse ao dia em que apresentou a sua candidatura presidencial, faria alguma coisa de diferente?
Não sei. Acho que não estava preparada para a quantidade de pessoas que se ofereceram para ajudar. Confesso que pensei que ia fazer uma campanha mais sozinha do que acabo por fazer. Às vezes, devíamos ter pensado mais na forma de dar o melhor uso às pessoas. Mas se fossem todos erros destes estávamos bem.
O seu debate na televisão com André Ventura mereceu também muitas críticas pelo tipo de linguagem que foi utilizada, pela troca de acusações e por não ter havido tanto espaço para a discussão de propostas. Também faz esta análise crítica a esse debate?
As pessoas na rua têm-me dito “ainda bem que lhe respondeu, que lhe mostrou que não se pisa numa mulher e nas pessoas”. Não tenho culpa do registo de André Ventura. Uma pessoa pode decidir deixá-lo insultar tudo e ficamos todos sem resposta porque não queremos responder. Já pensei que se devia fazer isso há muitos anos, mas deixei de pensar isso. Acho que foi dar-lhe uma passadeira vermelha. Aliás, julgo que ele até disse num programa que reconhece que esteve mal, que não devia ter atirado o papel e tal. É verdade, estava mais agressivo comigo do que qualquer outro candidato, mas eu nunca deixei que ninguém me pisasse.
André Ventura está menos presente no discurso de Catarina Martins do que esteve, em tempos, na mensagem do Bloco de Esquerda. A referência à suposta ameaça da extrema-direita continua lá, mas, perante aquilo que os bloquistas consideram ser um Governo de “direita radicalizada”, o tiro ao líder do Chega perde centralidade. Como provou o frente a frente entre ambos, a animosidade continua lá. Mas os bloqusitas focam-se agora num combate mais alargado: a hegemonia política e cultural da direita.
A campanha eleitoral está orçamentada para cerca de 50 mil euros, um valor próximo da subvenção pública que se recebe com 5% dos votos. Não obter essa compensação teria um impacto muito negativo nas finanças da candidatura, ainda que, nesse caso, exista um entendimento para o BE prestar auxílio a Catarina. Esse será o cenário mais provável com as sondagens mais recentes a apontarem para um resultado na casa dos 3%, mas dentro da margem de erro.
Falámos do desafio de tornar uma campanha mais economicamente sustentável. Parte desse desafio também passa por ter um resultado eleitoral que garanta subvenção pública. No caso das presidenciais, o valor mínimo para recebê-la são 5% dos votos. Atingir essa marca é o objetivo?
O meu objetivo está traçado desde o início da campanha e não é um objetivo financeiro, seguramente. Não estou a dizer que não seja importante, mas estou a fazer uma campanha com poucos custos. Tenho tido donativos de pessoas, de 5, 10 euros, mas que fazem a diferença porque é muita gente. Para mim é o mais importante. O objetivo da minha campanha sempre foi que houvesse nestas presidenciais alguém que não aceita aos termos do debate impostos pela direita radicalizada e pelas extrema-direita. Temos um Governo de direita em clara coligação com o Chega. Se houvesse outras campanhas a disputar o país que queremos ser, se calhar não estávamos a discutir burcas, estávamos a discutir o pacote laboral. Esse é o meu objetivo. Claro que também se disputa o melhor resultado eleitoral possível. Todos os votos que se tiver agora na primeira volta também marcarão os debates do nosso país para todas as voltas a seguir.
Havendo outros candidatos do seu campo político, como Jorge Pinto e António Filipe, ficar à frente deles significaria que a Catarina Martins foi a candidata que melhor conseguiu fazer essa defesa das ideias de esquerda? Seria importante?
É preciso uma esquerda com coragem de fazer pontes e sem taticismos desse género. Isso não nos ajuda neste momento. Também é preciso uma esquerda que não se encolha nas grandes questões do mundo. Precisamos perceber que sempre que alguma coisa corre mal, o Chega ou o Governo decidem falar de imigrantes. Também acredito que deve haver uma democracia paritária com homens e mulheres. Há quem não acredite nisto. Mesmo à esquerda não é uma ideia consensual. Assim como acho que há questões como o ambiente que são fundamentais e há questões da própria política internacional. Acho que estamos a precisar de uma esquerda que ponha em cima da mesa valores a sério. Temos de dizer que não há dois pesos e duas medidas, que chamamos genocídio a genocídio, ocupação a ocupação, seja ela em que latitude for do mundo.
Tem criticado António José Seguro por considerar que não pertence ao espaço da esquerda. No entanto, parece cada vez mais provável que o socialista vá ser um dos dois nomes a figurar na segunda volta das presidenciais. Depois de lhe ter feito duras críticas durante esta campanha, sentir-se-ia confortável em apelar ao voto em Seguro numa segunda volta?
Quando chegarmos à segunda volta, chegamos à segunda volta. Agora estamos na primeira volta.
Mas vai anunciar em quem votará numa segunda volta?
Nem sequer sei quem é que vai à segunda volta. Imagine se for eu… Precisamos é de compreender que a democracia tem de ser sobre escolha e sobre convicção. Se a democracia é permanentemente taticismo, não diz nada à vida das pessoas. E isso faz crescer a desesperança, o cinismo, e não há nada pior da política, sobretudo para quem acredita na democracia, como eu. Estou a lutar na primeira volta, por princípios, pela dignidade do país. Por uma esquerda que saiba falar com o país, que saiba conversar consigo própria, que saiba não ficar acantonada.
Aos olhos da bloquista, o ex-líder do PS certamente não preenche os requisitos mínimos para ser Presidente da República. Mas será muito difícil para Catarina Martins ficar em cima do muro num eventual duelo entre António José Seguro e qualquer outro candidato do espaço da direita — além de profundamente incoerente. Sobretudo se Seguro tiver pela frente André Ventura, como se afigura mais provável.
Até ao dia 18 de janeiro, no entanto, a batalha continua a ser travada com o candidato apoiado pelo PS. Catarina Martins tem pedido aos eleitores de esquerda para que votem por convicção e não por taticismo. A bloquista quer provar que há margem para a esquerda à esquerda do PS crescer, que os eleitores não estão condenados a uma espécie de mal menor. “Isso tem apenas feito crescer o mal maior”, vai dizendo a bloquista.
Outro dos princípios ao qual têm dado muito espaço nesta campanha é a questão das mulheres. Marques Mendes tem uma proposta para nomear um jovem para o Conselho de Estado. Se fosse Presidente poderíamos, por exemplo, esperar ver uma casa civil com mais mulheres?
Essa seria, por exemplo, uma maneira de fazer refletir essa. Confesso que a ideia de escolher um jovem para o Conselho de Estado é um bocadinho absurda. Os jovens são tão diferentes uns dos outros como todas as outras gerações são diferentes umas das outras. E as mulheres também são diferentes umas das outras. Claro que farei sempre tudo para haver paridade. Numa Casa Civil também deve haver mulheres e homens com a responsabilidade, como em tudo na vida. Mas digo-lhe que uma Presidente da República que lute pelas mulheres é alguém capaz de dizer que neste país o maior problema de segurança pública é mesmo a segurança das mulheres. Que diga que não é aceitável que as mulheres continuem a ganhar menos dinheiro que os homens.
Esta semana estivemos num liceu em Lisboa, onde a Catarina Martins conheceu um jovem de 11 anos, chamado Dinis, que se dizia de direita. No final da conversa consigo, já pareciam ser muitos os pontos em comum entre os dois. O Dinis teria de esperar pela candidatura de Catarina em 2036 para poder votar em si. Acha que ele terá essa hipótese, ou esta é a última oportunidade que dá à Presidência?
Estou a fazer esta candidatura e gosto muito de a fazer agora. Gostei muito de conhecer o Dinis, acho que ele também é um produto dos nossos tempos. Dizia que era de direita, mas as preocupações dele não correspondiam às preocupações da direita. Significa que vê influencers de direita. Muitas das perguntas que me fez são coisas que influencers espalham nas redes sociais. Isto também nos mostra muito o que são os algoritmos e o que é o forte financiamento que a direita e a extrema-direita têm obtido por parte destes donos do mundo. É um tema que acho que nos deve preocupar.
Muito obrigado, Catarina Martins.
Obrigada, boa noite.
Ouça aqui a Última Chamada com Catarina Martins
António Filipe. As noitadas, o amigo Seguro e o Belenenses
ANTÓNIO COTRIM/LUSA
À hora a que atende a chamada, António Filipe está sentado dentro do carro, à porta de casa. Decidiu esperar ali que o telefone tocasse à hora combinada, 10 da noite, por uma questão de cordialidade: tem um cão em casa (“cãozinho”, como lhe chamou na conversa), e quer evitar que a conversa seja interrompida.
Está a chegar a casa depois de ter ido jantar com os dois filhos neste domingo à noite — foram a presença mais discreta no comício do Casal Vistoso, em Lisboa, que acabou horas antes. Um momento importante, sem dúvida, mas ainda há muitos quilómetros a percorrer, e os dias que se seguem são os mais desafiantes. Mas cansaço, para já nem vê-lo, mesmo que a rotina nos momentos mortos não seja a mais tradicional.
Boa noite, António Filipe.
Olá, boa noite.
Está muito cansado desta primeira semana?
Não, não estou. Vou ter uma noite bem dormida, coisa que de facto tenho tido menos porque tenho ido para longe.
António Filipe tem grande facilidade em adormecer, e aproveita os saltos entre paragens, mesmo em viagens curta, para isso mesmo. Mas não só. Tem por hábito consultar as redes sociais da candidatura (especialmente Facebook e Instagram) para ver o que está a ser partilhado, e gosta de ler notícias, tanto das outras candidaturas como da atualidade em geral. Usa o telemóvel e, se for necessário, o computador. Também tem passado os últimos dias a responder a iniciativas de associações de estudantes e grupos de jovens que lhe pedem resposta a uma série de perguntas.
Chegado a casa do dia de campanha não vê filmes nem séries. “Demoram muito, e ficava tarde demais”, explica. Mas arranja sempre tempo para ler. E ler. E ler. É que à sua disposição, na cabeceira, tem nesta altura três livros bem diferentes. A Chuva que Lança a Areia do Saara, de Ana Margarida de Carvalho, John and Paul, livro que lhe foi oferecido pela filha e fala sobre a relação entre John Lennon e Paul McCartney, e um ensaio de João Rodrigues, intitulado Economia Política do Antifascismo. Lamenta o pouco tempo que tem para os consultar, mas mesmo em campanha nunca se deita antes das duas da manhã sem folhear umas páginas.
Falemos de política. No outro dia, disse que é amigo de António José Seguro já há quase 40 anos.
Há mais de 40 anos. Conhecemo-nos em 1983, se não estou enganado, e não há amizades à primeira vista. Mas, de qualquer maneira, quando chegámos a 1986 já éramos amigos.
E fica de alguma forma magoado ou vê deslealdade naqueles apelos ao voto útil?
Pessoalmente, não. António José Seguro faz o seu papel e eu faço o meu. Já fizemos trabalhos em conjunto. Houve momentos em que convergimos bastante, e houve momentos em que divergimos. Antigamente, durante o período em que éramos muito jovens, nós tivemos o governo do Bloco Central, em que o PS estava associado ao PSD. E depois, em outros momentos, divergimos bastante, participámos em muitos debates parlamentares em que não tivemos a mesma posição. Nestas eleições também não temos a mesma posição. António José Seguro procura ganhar o máximo possível de votos, e tem feito apelos a eleitores que se posicionam mais à esquerda para votar na sua candidatura. Eu dirijo-me aos cidadãos que têm configurações de esquerda e identificados com os valores da Revolução de Abril e da Constituição. Cada um faz o seu caminho e faz o seu apelo ao voto. É a democracia a funcionar. Disto aqui não resulta nenhuma animosidade pessoal contra António José Seguro, isto está para além disso. Continuaremos a ser amigos depois destas eleições.
Apesar da longa amizade, Filipe não se livrou dos avanços de Seguro e até de alguns apelos a que refletisse sobre uma eventual desistência. Já confessou aos jornalistas que prometeu a si próprio deixar de responder sobre o tema, mas ele vai surgindo todos os dias. Nada que afete a relação com o socialista, especialmente quando for virada a página das eleições.
O candidato tem também uma “relação cordial” com Catarina Martins, por força dos anos em que serviram como deputados em simultâneo, e com Jorge Pinto, com quem coincidiu durante uma curta legislatura. Os mais de 30 anos de António Filipe na Assembleia da República permitem que se lembre ao detalhe de quando conheceu praticamente todos os adversários, mesmo que não exista relação pessoal. Com Luís Marques Mendes, com quem partilha uma vida política de lados diferentes da barricada. Com Gouveia e Melo, que lhe foi apresentado numa visita à Marinha muito tempo antes do Almirante se tornar Chefe do Estado Maior da Armada. E Cotrim Figueiredo, que encontrou na vida parlamentar.
Nestas eleições, já vimos Cotrim Figueiredo a dançar e Marques Mendes a vestir as luvas de boxe. António Filipe não alinha tanto nestas brincadeiras. Acha que não passa de um número ou não é tão condizente com a sua personalidade?
Não é condizente com a minha personalidade. A minha forma de estar na vida, a minha forma de ser… Sou uma pessoa discreta. Nunca me exibi, nunca fui uma pessoa que alinhasse muito em modas, em termos de aparência, em vestuário, tenho sempre alguma descrição, ao longo da minha vida. Acho que estarmos na campanha eleitoral e querermos dar nas vistas… Não devíamos forçar, não podemos fazer coisas que não estão na nossa maneira de ser. Depois soa a falso. Não faço isso, faço uma campanha com a discrição com que costumo levar a minha vida.
Esta intensidade da campanha surpreendeu? Está a adaptar-se bem às exigências de uma campanha mediática?
Já sabia o que ia encontrar. Evidentemente que, sendo candidato, a pressão é maior, o desgaste é maior. Já tenho muitos anos de atividade política, não fiz campanha no país todo, mas fiz campanhas muito intensas. Uma campanha como cabeça-de-lista distrital nas legislativas é também muito exigente. Diria que tenho uma experiência grande que me permite aguentar fisicamente e emocionalmente uma campanha intensa. O maior desgaste intelectual até é a fase dos debates. É a parte mais exigente. Agora sai mais do corpo e menos do intelecto.
Alguma vez imaginou vir a ser candidato para Presidente da República?
Não estava nas minhas previsões. Mas a vida faz-nos algumas surpresas. Fui candidato às legislativas, não fui eleito. Aquilo que esperava há um ano seria fazer uma legislatura. Isso não aconteceu, e deu-me uma disponibilidade que não tinha. Nesse dia, os meus camaradas entenderam que reunia condições para ser candidato a Presidente da República e iriam apoiar-me se eu estivesse disponível para avançar. E foi assim que aconteceu.
António Filipe carrega muitos quilómetros nas pernas. Além de ter sido candidato nas legislativas nos círculos de Lisboa e de Santarém, foi também candidato autárquico na Amadora e em Sintra — sempre nos locais onde vivia. Percorreu o país na campanha presidencial de Jerónimo de Sousa de 1996, e acompanhou o então secretário-geral em todo o território, menos nas regiões autónomas. Na ida às urnas que se seguiu, foi mandatário de António Abreu.
Agora, dá uma terceira volta a Portugal, agora como cara principal de uma candidatura apoiada pelo PCP. Os tempos são de dificuldade e resistência para o partido a que dedicou grande parte da sua vida, mas garante não estar preocupado. Assumirá o resultado, seja ele qual for, e foge a leituras partidárias do número que conseguir alcançar no domingo, lembrando que se trata de uma candidatura unipessoal.
Mas percebe que consigo se faça uma leitura diferente.
Eu oiço falar nisso há 30 anos, toda a gente diz que o Partido Comunista vai desaparecer e nunca mais desaparece. E eu acho que não vai desaparecer. Já teve mais influência, já houve eleições em que desceu, houve eleições em que subiu. Nas últimas, efetivamente, tem perdido influência. Mas acho que o resultado que eu tiver não é transponível para os resultados eleitorais da CDU. Em matéria de presidenciais não é possível fazer esse tipo de comparações.
A semana do candidato está pensada ao mais ínfimo detalhe, com uma excepção: o dia de reflexão. Ao contrário de muitos, António Filipe não retira importância ao sábado que antecede a ida às urnas, mas não para que os eleitores tenham tempo para refletir. “Reflexão são todos os dias”, sublinha.
Considera no entanto que quem quer acabar com este dia não sabem o que implica trabalhar numa campanha eleitoral. O “dia de pausa”, como lhe prefere chamar, serve para que os milhares de pessoas que participam nas campanhas não tenham de estar às 7 da manhã a assegurar o funcionamento das mesas de voto no dia seguinte. E nesse sábado de pausa “entre a campanha e as operações eleitorais”, já tem planos que espera cumprir, que passam por um amor antigo: o Belenenses.
É adepto do Belenenses. Tem conseguido acompanhar os jogos?
Eu não sou adepto, sou sócio! Mas não tenho tempo para acompanhar os jogos. Quando posso, vou, mas não tanto como gostaria. A vida política implica muitos fins de semana ocupados. Quando tenho um fim-de-semana livre tenho outras coisas para fazer, como estar com os meus filhos. Já agora posso fazer uma inconfidência: talvez vá no próximo sábado, porque já não há campanha eleitoral. Não vou fazer nenhuma promessa, mas sou capaz de ir. Gosto de ver estes jogos, porque não é um jogo decisivo. Não sofro excessivamente com jogos de futebol, mas se for um jogo decisivo sofre-se um bocadinho mais e não gosto. Este será um jogo tranquilo.
António Filipe, não lhe tiro mais tempo. Muito obrigado pela conversa e até amanhã.
Muito gosto. Até amanhã.
Ouça aqui a Última Chamada com António Filipe
Pinto. As saudades da família e quilómetros na carrinha
MANUEL FERNANDO ARAÚJO/LUSA
Jorge Pinto fala ao Observador por volta das 23 horas. Viaja de Coimbra para Lisboa depois de um comício no Teatro da Cerca de São Bernardo, onde estiveram cerca de 50 apoiantes. O momento contou com os deputados e co-porta-vozes do Livre, Isabel Mendes Lopes e Rui Tavares. No final, foi Jorge Pinto quem tomou a palavra. Pela primeira vez nesta campanha — e depois de propor um pacto entre os candidatos de esquerda — teceu duras críticas a António José Seguro.
O candidato apoiado pelo Livre não gosta de criticar diretamente os seus adversários, mas neste dia optou por seguir uma abordagem diferente e acusar o candidato apoiado pelo PS de falta de “firmeza”, característica que considera essencial para defender a Constituição de uma revisão à direita. Os ataques foram bem recebidos pela plateia, que aplaudiu entusiasticamente . No final da noite, Jorge Pinto é um homem feliz.
Boa noite, Jorge Pinto. Podemos falar um bocadinho?
Sim, sim. Vai mesmo ser a última chamada do dia.
O dia já vai longo, não é? Com um comício em Coimbra… Bastante animado.
Sim, ja vai longo. Aveiro de manhã, a sair de Lisboa, e regressar a Lisboa.
Como é que se sente depois deste longo dia? Têm sido quase todos assim, não é?
Sim, e mais intensos. Com idas aos arquipélagos, com idas às extremidades do país também, com idas a Miranda do Douro. Têm sido jornadas de 14, 15, às vezes 16 horas entre sair, começar o dia e regressar. Mas motivado e animado. Mesmo quando custa sair de casa, como hoje de manhã, e tendo sido, no caso do dia de hoje, a primeira ação na rua, a quantidade de gente, o apoio que esteve na rua é logo aquele bálsamo de energia e de boa disposição.
Têm-se feito muitos quilómetros nesta campanha para chegar a sítios mais longe, a que outros candidatos nem sequer vão. Foi para si importante incluir sítios afastados das grandes cidades, mais no interior, no Norte e também no Sul?
Foi e é. Sítios, desde logo todos dos distritos, e depois dentro dos distritos também há alguns sítios que são muitas vezes esquecidos. A candidatura fez questão de ir dormir a Tábua. Quantas vezes é que se falou de Tábua nestas eleições? Ou quando é que lá esteve algum candidato presidencial? Estive em Miranda do Douro também, no distrito de Bragança, para que se fale da especificidade daquele território. Muitas vezes falamos de territórios únicos e ali sim é algo verdadeiramente único, desde logo também pelo seu património linguístico. E dar essa visibilidade, a pluralidade, a diversidade de Portugal… É uma parte, para a nossa candidatura.
Ao fim de tantos dias na estrada, como é que tem sido a rotina? A que horas tem começado o dia e a que horas tem terminado?
No que toca a começar o dia tentámos que não fosse demasiado cedo, se bem que quando fomos aos Açores, apanhámos um voo às seis da manhã. Portanto, o dia aí começou por volta das quatro, ou até antes. Mas tentamos que as primeiras ações sejam por volta das nove da manhã e temos saído de casa cedo. Hoje são onze menos dez e ainda estamos na estrada. É um bocadinho uma surpresa e uma incógnita sempre.
O candidato apoiado pelo Livre tem feito questão de trazer para a campanha dois temas que considera centrais: a revisão constitucional à direita (assunto sobre o qual tem discursado todo os dias) e a regionalização. É, em parte, devido ao segundo que Jorge Pinto tem feito questão de ‘fugir’ da capital e dos grandes centros urbanos. O seu objetivo é passar por todos os distritos e ir às terras mais longínquas que raramente constam na agenda dos políticos.
Ainda sobre a regionalização, Jorge Pinto já aproveitou o período de campanha eleitoral para criticar Bloco de Esquerda, PS e PCP porque, enquanto constituíam a geringonça, não terem avançado com um referendo à regionalização, apesar de, “na teoria, serem a favor” da mesma, apontou. Na agenda do político houve ainda espaço para apelar à necessidade de valorizar o mirandês, uma das bandeiras do Livre.
Já falou um bocadinho do cansaço, dos dias em que às vezes custa sair de casa, mas que acaba por compensar. De que é que tem sentido mais falta ao longo destes dias?
No meu caso, e admito que seja bastante específico da candidatura, é mesmo da família e do meu filho, que tem poucos meses. Custa-me estar fora de casa. É, se calhar, o que me custa mais de tudo.
Percebi que a comitiva da campanha viaja ou tem tendência a viajar junta, numa carrinha. Como é que tem sido fazer tantos quilómetros todos juntos?
Ah, é ótimo. É ótimo porque nos damos todos bem, o que nem sempre é o caso, e é um privilégio isso acontecer nesta candidatura, porque são pessoas com quem eu tenho já confiança e amizade até para partilhar muitas coisas. E fazer esta campanha com esta equipa na carrinha é um privilégio.
Tem feito ações de campanha diferentes, que não se têm pautado pelas habituais arruadas. Qual foi até agora a ação de campanha que mais o marcou?
Houve muitos. E há uma coisa que temos andado a fazer, que é: nos períodos entre os momentos em que dizemos aos jornalistas onde vamos estar, temos estado na rua. Por exemplo, nas Caldas da Rainha, há dois dias, depois de uma ação de campanha acompanhada pela comunicação social, fiz questão de continuar no sítio para falar com as pessoas sem câmaras. Porque muitas vezes as pessoas não têm liberdade ou não querem falar perante as câmaras. Acho que é importante. Esta candidatura tem tentado mostrar aquilo que se faz bem no nosso país. Estive com uma associação em Leiria que trabalha com pessoas em situação de sem-abrigo, com crianças com dificuldades e com estrangeiros que chegam ao nosso país. Um exemplo fabuloso. Em Miranda do Douro, uma associação da língua mirandesa, que no fundo faz um trabalho que é um trabalho de preservação cultural do nosso país. Ainda hoje, a sair de Aveiro, já ia um bocado atrasado e tive de voltar para trás, porque uma feirante me reconheceu e chamou para me dizer: “Finalmente está aqui alguém com sangue novo, com uma vontade nova de fazer política”. E essas coisas motivam alguém que, como eu, há dois meses era quase desconhecido aos olhos do grande público. Este reconhecimento pela positiva dá aquela energia.
Durante a campanha de Jorge Pinto, um dos motes que tem o acompanhado tem sido “fazer menos do mesmo”. O candidato à Presidência da República coloca todos os oponentes (da esquerda à direita) no mesmo saco e acusa-os de fazerem a política “do costume”. Agarrando-se frequentemente ao facto de ser o candidato mais novo na corrida, afirma que traz ideias novas para o debate político e ainda que foi graças a si que temas como a revisão constitucional entraram na agenda dos restantes candidatos.
O candidato apoiado pelo Livre tem feito vários quilómetros e tenta desdobrar-se para falar com o máximo número de eleitores possível. Inclusivamente já apelou não só aos eleitores da esquerda, como também “a quem já votou no PAN e em partidos de direita”. Jorge Pinto admite que, em novembro, era ainda desconhecido dos portugueses, mas é nesse mês que traça uma linha, uma vez que foi no início de novembro que avançou com a candidatura a Belém.
Dois meses depois, Jorge Pinto está confiante que conseguiu alterar a situação, mas as sondagens não parecem animadoras para o candidato — parece estar a competir, taco a taco, com João Manuel Vieira. Apesar de tudo, o candidato não desarma: otimismo até ao fim.
Relativamente ao dia de reflexão — quando vai finalmente poder descansar um bocadinho — já tem planos?
Já, e é basicamente descansar, estar tranquilo em família e aproveitar o dia.
Muito obrigada Jorge Pinto. Um resto de boa viagem e bom descanso.
Igualmente. Obrigado.
Ouça aqui a Última Chamada com Jorge Pinto