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"O baiano tem o molho", Margiela e Dolce Gabbana: o estilo de Wagner Moura na temporada de prémios

Este artigo tem mais de 6 meses

Dos fatos verdes e amarelos ao look Margiela com o controverso sapato tabi, Wagner Moura tem se destacado nas red carpets internacionais com a ajuda de Ilaria Urbinati, stylist influente em Hollywood.

11 fotos

Foi vestido com um fato off-white Maison Margiela e a usar os sapatos de culto tabi, uma reinterpretação de Martin Margiela das meias japonesas do século XV, lançada no desfile de estreia da marca em 1988, que o brasileiro Wagner Moura subiu ao palco no passado domingo para receber o prémio de Melhor Ator nos Globos de Ouro. É o primeiro homem brasileiro a ser reconhecido na história da gala, repetindo o feito de Fernanda Torres em 2025, aproximando-se cada vez mais de uma nomeação para os Óscares. Caminhou pela red carpet confiante, a posar para as lentes dos fotógrafos como se soubesse exatamente que estava a fazer um statement fashion. Mas horas antes, em conversa com a Vanity Fair, o ator brasileiro assumia-se muito mais “simples e discreto” fora do mundo dos holofotes. “A moda não é algo que eu saiba muito. Não conheço as marcas, nem os stylists ou os criadores assim tão bem. Mas acho que é um mundo muito bonito de criatividade, e respeito muito”. Quem o apresentou a este universo foi a stylist que é considerada a guru da moda masculina em Hollywood, Ilaria Urbinati.

A italiana é a responsável por visuais de figuras do cinema fortes também na moda contemporânea, como Donald Glover, Barry Keoghan ou Sam Nivola — que foi o escolhido de Jonathan Anderson para protagonizar o vídeo que abriu o seu desfile de estreia pela Dior — mas também alguns rostos queridinhos de Hollywood, como Adam Brody — o rabino sexy de Ninguém Quer Isto, Ryan Reynolds ou Chris Evans. Além de Wagner Moura, a italiana está por trás de looks de outros atores que percorreram ou percorrem a maratona de red carpets que antecedem os Óscares, como é o caso de Rami Malek, que venceu o prémio em 2019 quando interpretou Freddie Mercury na cinebiografia do antigo vocalista dos Queen, e também Dwayne Johnson, que agora tenta uma nomeação por The Smashing Machine: Coração de Lutador, que conta a história do lutador de MMA Mark Kerr.

Sobrinha da designer italiana Laura Urbinati, filha de um fotógrafo e uma marchand de arte, Ilaria nasceu em Roma, cresceu em Paris e agora vive em Los Angeles, onde ganhou o status de uma das mais “poderosas e influentes stylists da década”, de acordo com a Hollywood Reporter. “Cresci a vender Picassos para o meu avô na sua galeria de arte em Monte Carlo”, diz ao InStyle, ao falar da familiaridade com que lida com o mercado de luxo. Aliás, a stylist começou a carreira na moda a trabalhar em boutiques high end e depois abriu a própria loja em Los Feliz, a Confederacy, na qual desenvolveu uma linha de fatos sob medida que serviu o guarda-roupa de Ryan Gosling em Amor, Estúpido e Louco, de 2011.

Com Wagner Moura a tarefa envolvia transportar um homem que se veste basicamente com a combinação ganga e T-shirt para um ambiente de red carpet, em que a roupa também é uma declaração. “Homens querem que as provas sejam o mais rápidas possível e querem experimentar o mínimo de peças possível”, assume Ilaria, que diz ter encontrado a forma “mais rápida de vestir um homem”. A sua equipa costuma etiquetar todos os visuais com informações como evento e data, “como se estivessem a ir para um acampamento de verão”, revela, sobre o seu “método”. “Gosto de brincar com as expetativas das pessoas”, diz ainda, sobre como lê o perfil de cada um dos seus clientes. “Há alguns que têm uma base de fãs bastante grande e que me dá muito feedback, estão mesmo a prestar atenção”, conta a stylist, que recebe mensagens nas redes sociais a pedir looks para os ídolos. “Tento considerar os pedidos, porque se as fãs ficam excitadas isso deixa-me motivada”.

“O baiano tem o molho”

A “brincadeira” com o público nas redes sociais pode ganhar contornos muito maiores ao chegar à audiência brasileira. Assim como aconteceu com Fernanda Torres na corrida pelos Óscares em 2025, os brasileiros alavancam a presença de Wagner Moura em Hollywood com o apoio massivo através do Instagram — a fotografia do brasileiro partilhada na página da Academia na ocasião dos Governors Awards teve 3,5 mais gostos do que a segunda mais popular, e ultrapassou o milhão de interações. Ilaria Urbinati já tem experiência e mostra saber que os brasileiros estão atentos: poderá ter sido este o motivo para vestir Wagner Moura num fato amarelo da italiana Giuliva Heritage para a estreia de O Agente Secreto no Festival Internacional de Cinema de Toronto, ou o coordenado verde oliva Dolce & Gabbana que o ator brasileiro usou para a sua participação no New York Film Festival, ainda no início da temporada, em setembro.

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▲ Em Toronto a posar com os fãs, no fato amarelo da italiana Giuliva Heritage, escolha de Ilaria Urbinati

Getty Images

Já nas red carpets que se seguiram o tom ficou mais sóbrio, mas sempre com algum detalhe especial, como a aposta no blazer preto com gola smoking Bottega Veneta para os Governors Awards em novembro, o coordenado castanho escuro Ralph Lauren para os Indie Honors no início de dezembro, e o casaco inspirado nas smoking jackets do século XIX da italiana Zegna em veludo, com cinto amarrado, que foi chamado nas redes sociais de “roupão de resort de luxo”. Para as produções fotográficas de revistas como a do LA Times, a Hollywood Reporter ou a Interview, as escolhas foram por peças em tons neutros, desde camisas azuis, calças de ganga e coordenado de fato e calça bege, combinados em sobreposições, incluindo ainda tricôs — como o usado pelo ator na entrevista a Seth Meyers na última semana.

As aparições públicas de Wagner Moura acendem ainda mais a claque brasileira, que se aproveita da música do cantor O Kannalha que tem embalado as comemorações depois da vitória nos Globos de Ouro. “O baiano tem o molho” parece a expressão perfeita para descrever Wagner Moura, que é natural de Salvador, a capital da Bahia, e tem mostrado muito estilo e personalidade ao passar pelas red carpets e especialmente ao subir ao palco dos prémios. No Critics Choice Awards o ator acompanhou Kléber Mendonça Filho na apresentação do prémio de Melhor Filme, depois de O Agente Secreto ter sido escolhido como Melhor Filme Internacional antes da gala e o realizador ter sido premiado na passadeira vermelha, sem ter tido tempo para um discurso. Mendonça Filho usou o espaço para agradecer o reconhecimento e depois apresentou os nomeados: “É uma honra apresentar o prémio de Melhor Filme”, disse. De seguida, Wagner Moura interveio: “Ou, como chamamos no Brasil, ‘Melhor Filme Estrangeiro'”. Já este domingo depois de vencer o Globo de Ouro, o ator fez questão de terminar o discurso em português: “Viva o Brasil e viva a cultura brasileira”. “O baiano tem o Golden Globes”, destacou Lula da Silva, ao dar os parabéns ao ator pelo prémio — a comemoração pós gala foi ao som de “Não Deixe o Samba Morrer”, com a equipa do filme ao redor da estatueta, e Wagner Moura a mostrar ter muito samba no pé.

Das tranças estilo rasta à primeira fila da Chanel

Na longa metragem o ator veste-se com o estilo clássico dos anos 1970 no país, dando prioridade para T-shirts leves e camisas desabotoadas na parte de cima. “Este visual lembra-me a forma como o meu pai costumava vestir-se, com o peito à mostra. Nos anos 1970, pelo menos no Brasil, lembro-me que todos os homens, os meus tios e todos os adultos, vestiam-se com a camisa dessa forma”, conta à Vanity Fair o protagonista do filme, que agora inspira-se na figura de Armando para criar um estilo próprio. “Tenho algumas camisas com botões e agora deixo um ou dois abertos para incorporar esta vibe de peito à mostra”, brinca. Mas a transformação de Moura é evidente, desde o início dos anos 2000, quando despontou no teatro, televisão e cinema brasileiros. Um dos primeiro papéis do ator na Globo foi na série de humor Sexo Frágil, de 2003, em que tinha tranças no estilo rasta. Na mesma época Wagner Moura integrou o elenco de filmes policiais como Carandiru, de 2003, e Tropa de Elite, de 2007. Na televisão viveu um dos vilões mais adorados pelo público brasileiro, na novela da Globo Paraíso Tropical, o bad boy Olavo. Para os papéis assumiu o corte de cabelo mais curto e o rosto limpo, uma imagem contrária ao aspeto que agora o leva à fama internacional, com barba por fazer, brinco e o cabelo grisalho.

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▲ O ator em 2011 e 2014 em participações no Festival de Berlim, a apresentar os filmes Tropa de Elite e Praia do Futuro

AFP via Getty Images

Wagner Moura não é um rosto propriamente novo para o público internacional — o ator já recebeu uma nomeação aos Globos de Ouro há dez anos pelo papel de Pablo Escobar na série Narcos — mas parece entender que o momento atual exige uma perceção ainda maior do próprio estilo. O “molho” de Wagner Moura tem sido descrito na imprensa internacional também como “pirraça”, palavra que o New York Times escolheu para abrir o artigo sobre o ator brasileiro esta semana, e que é usada para definir o clima político do Brasil em 1977, ano em que se passa o filme O Agente Secreto. Ao jornal o ator brasileiro diz que já negou alguns papéis em Hollywood, e que foi alertado por um agente de que precisava ser menos seletivo. “Talvez seja algum tipo de anticolonialismo”, dispara. “Nunca fiz nada por dinheiro ou porque é uma grande coisa de Hollywood que todo o mundo vai ver. Especialmente depois de Narcos, não quero fazer nenhum papel que seja um estereótipo latino”, diz.

Em paralelo às declarações políticas à imprensa, tem apostado cada vez mais em marcas de luxo e presenças fashionistas. A primeira vez de Wagner Moura num desfile foi no Metiers D’Art em Nova Iorque no início de dezembro,  como se estivesse a seguir os passos trilhados por Fernanda Torres em 2025, que também se estreou num evento de moda num desfile Chanel. “É a minha primeira vez num desfile de moda. Estou achando tudo lindo”, disse o ator à Elle Brasil, contando que um dia antes pediu conselhos a uma amiga mais acostumada com o universo fashion. “Ontem liguei à Bruna Marquezine. Mandei uma mensagem para perguntar como era isso… E ela me deu direitinho o que é que eu tenho que fazer: ‘Você chega, tira uma foto, senta, assiste, depois tem uma festa, alguma coisa… Achei tudo ótimo”. O brasileiro seguiu à risca o guião: posou ao lado de Tessa Thompson na primeira fila, além de conhecer e cumprimentar o embaixador da marca, A$ap Rocky, o grande protagonista do desfile. Curiosamente, antes aproveitou para se apresentar e trocar algumas palavras com o realizador Martin Scorcese, sentado imediatamente ao lado do rapper.

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