Desde o último desfile em que Karl Lagerfeld subiu à passarelle, em dezembro de 2018, que a Chanel não voltava a Nova Iorque. A estreia de Matthieu Blazy na Big Apple foi esta terça-feira, 2 de dezembro, na apresentação da coleção Métiers d’Art, quase dois meses depois do designer belga apresentar pela primeira vez a sua visão para a maison francesa.

Blazy deixou clara a sua inspiração em Lagerfeld: o que se viu foi mais um desfile teatral e temático, no estilo dos criados no Grand Palais. A plataforma do metro transformou-se em passerelle, e as modelos vinham das escadas da estação ou de dentro dos comboios, como se estivessem a circular pela cidade — algumas sem maquilhagem, o cabelo desgrenhado, e o visual sobreposto, casual, como uma transeunte elegante; outras com saltos altos, penteadas e vestidos de festa, tal como se estivessem a ir com pressa a uma festa glamurosa. Nas peças, os códigos da maison continuam a ser respeitados, dos coordenados em tweed aos vestidos clássicos com gola redonda e cintura marcada; mas também há a frescura de Blazy, com os animal prints, as peças em cabedal ou as referências à cultura pop, como a T-shirt “I love NY” ou a malha do superman.

O desfile acontece apenas três dias depois do anúncio de que A$ap Rocky é o novo embaixador da marca. O artista norte-americano, companheiro de Rihanna, tem sido uma figura popular no mundo fashion: foi escolhido como diretor criativo da Ray-Ban em fevereiro e eleito o ícone da moda do ano pelos CFDA Fashion Awards. A 29 de novembro a Chanel divulgou a curta-metragem protagonizada pelo rapper e pela atriz Margaret Qualley, que já dá o rosto pela marca há mais tempo. Realizado pelo francês Michel Gondry, conhecido pelo trabalho com inspirações surrealistas, como O Despertar da Mente, de 2004, o filme mostra uma história de amor em Nova Iorque, e serve de montra para a nova coleção assinada por Blazy, antecipando o ambiente do desfile. Qualley veste um casado em tweed vermelho e azul com franjas, calças azuis largas e saltos altos — referências à estética eternizada por Coco Chanel e modernizada pelo novo diretor criativo. Já Rocky usa um coordenado vermelho em seda, estilo pijamas, para percorrer as ruas da cidade e chegar a tempo de ajoelhar-se à saída do metro e pedir a parceira em casamento.

Desde 2002 que a Chanel apresenta uma coleção fora dos calendários das semanas da moda, uma invenção de Karl Lagerfeld para celebrar o savoir-faire francês e os artesãos que contribuem para as coleções regulares. Nesta estreia de Matthieu Blazy na “modalidade”, são apresentados trabalhos de Lesage, Massaro, Goossens, Lemarié, Atelier Montex e Maison Michel, seis das 11 casas sediadas no le19M, o espaço criado pela Chanel em 2021 para reunir ateliers de artesanato e alta costura no 19º arrondissement de Paris.