O número de mortos no acidente ferroviário em Córdova, no sul de Espanha, subiu para 43, segundo o último balanço das autoridades ao descarrilamento que aconteceu pelas 19h50 locais (18h50 em Portugal Continental). Por outro lado, 37 pessoas continuam internadas em diversos hospitais da região, 9 delas em unidades de cuidados intensivos. Segundo fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros à Lusa, dois cidadãos portugueses estavam no acidente e ambos estão bem.

Inicialmente, a referida fonte a fonte havia adiantado que uma portuguesa já se encontrava “bem e em casa” e que se desconhecia ainda o estado de saúde de um outro português “que foi sinalizado pelas autoridades espanholas”, sabendo-se agora que se encontra igualmente bem. O cidadão “foi atendido no hospital Reina Sofía de Córdoba, e já teve alta”.

Esta terça-feira, as equipas de resgate e salvamento conseguiram retirar dois dos três corpos que ainda estavam encarcerados no meio dos destroços de um dos comboios que descarrilou no domingo. A estimativa das autoridades é que ainda haja uma pessoa presa dentro de uma das carruagens mas não está, para já, descartada a hipótese de haver mais, nota o jornal El Mundo. Esse é, aliás, o cenário mais provável uma vez que ainda há registo de 43 desaparecidos. As autoridades cifraram em cerca de 150 o número total de feridos, com diversa gravidade.

Fontes policiais citadas pela agência de notícias EFE disseram que ainda decorrem trabalhos para localizar cadáveres de pessoas que viajavam no comboio que ficou mais danificado no acidente, que fazia a ligação entre Madrid e Huelva, perto da fronteira com Portugal, com o Algarve.

À imprensa ainda no domingo, o ministro dos Transportes de Espanha, Óscar Puente, revelou que as causas do acidente estão por apurar, afirmando que a investigação pode levar cerca de um mês. “Este é um acidente extremamente estranho, que ocorreu num troço reto da linha férrea, e todos os especialistas ferroviários que consultámos estão completamente perplexos com o que aconteceu, porque é muito difícil de explicar. Esperamos que a investigação nos ajude a esclarecer os factos”, explicou.

“Posso afirmar que o comboio de Iryo era praticamente novo, com menos de quatro anos de utilização, e que os carris foram completamente renovados, após um investimento de 700 milhões de euros. As obras neste troço foram concluídas em maio último”, disse ainda Puente.

O comboio de alta velocidade que fazia a ligação entre Málaga e Puerta de Atocha (Madrid), da empresa Iryo, transportava 317 pessoas e descarrilou cerca de uma hora após o início da viagem, pelas 19h50, em Adamuz. De acordo com o que fontes oficiais explicaram ao El País, descarrilaram as três últimas carruagens do Irya, números 6, 7 e 8, que entraram na via férrea contrária, onde circulava outro comboio, da estatal Renfe, com 184 passageiros, que ligava Puerta de Atocha — Huelva, e que seguia a 200 quilómetros por hora. As primeiras carruagens do comboio da Renfe também descarrilaram e caíram de uma altura de cerca de seis metros. Nestas carruagens seguiam 53 pessoas. Um dos mortos é o maquinista do comboio da Renfe, de 36 anos, avança o Diário de Córdoba.

Vários meios de emergência foram deslocados ao local, entre bombeiros, polícia e guarda civil. O aparato incluiu cinco Unidades de Cuidados Intensivos Móveis, um veículo de apoio logístico e quatro unidades do Dispositivo de Cuidados Críticos de Emergência (DCCU), para atender os feridos e coordenar a assistência no local, avança o El Mundo. 

A Renfe fez um comunicado oficial nas redes sociais e abriu uma linha de apoio aos familiares, assim como a Iryo, que disponibiliza um número para onde os familiares podem ligar para saberem informações sobre o acidente, feridos e mortos.

Anteriormente o ministro dos Transportes mostrou-se a acompanhar de perto o trabalho das equipas de emergência. “A última informação que chegou é muito grave. As últimas carruagens do comboio Iryo, que ia em direção a Madrid, descarrilaram, invadindo a via contrária pela qual circulava um comboio da Renfe em direção a Huelva. O impacto foi terrível e fez com que as primeiras carruagens do comboio da Renfe fossem lançadas para fora dos carris em consequência do embate. O número de vítimas não se pode confirmar neste momento. Agora é fundamental auxiliar as vítimas.”

O primeiro-ministro Pedro Sánchez partilhou as mensagens de Óscar Puente, sinalizando que “o Governo está a trabalhar com as autoridades competentes e os serviços de emergência para auxiliar os passageiros”.

Nas redes sociais a Casa Real reagiu, a dizer que “segue com grande preocupação o grave acidente entre dois comboios de alta velocidade em Adamuz. Transmitimos os nossos mais sentidos pêsames aos familiares e entes queridos dos mortos, assim como o nosso carinho e desejo de rápida recuperação aos feridos”.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, numa nota publicada no site oficial da Presidência da República, manifesta ao Rei de Espanha “o seu pesar pelas consequências trágicas do descarrilamento de dois comboios de alta velocidade no município espanhol de Adamuz, em Córdoba, que causou a morte de múltiplos passageiros e dezenas de feridos”. “Neste momento de profunda tristeza, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa transmite sentidas condolências e solidariedade aos familiares de todos os que perderam a vida e a rápida recuperação dos feridos”, lê-se na mesma nota.

Também o presidente do Conselho Europeu, António Costa, reagiu ao acidente, manifestando solidariedade “às famílias enlutadas e o total apoio aos feridos e às equipas de resgate”. Na rede social X, o antigo primeiro-ministro português lamentou “profundamente o terrível acidente ferroviário”.

Nas redes sociais, circulam vídeos de passageiros que estavam em diferentes carruagens dos comboios. “Na nossa carruagem estão todos bem, nas outras não sabemos. Há fumo e estão a pedir por médicos”, escreveu uma pessoa que partilhou um vídeo no qual é possível ver um dos funcionários da empresa de comboios a dar orientações aos passageiros. “Pedimos que permaneçam nos seus assentos. Os que não têm poltronas, podem seguir para as carruagens da frente onde há poltronas disponíveis”, diz o funcionário, identificado por um colete verde. “Se houver alguém com conhecimentos de primeiros-socorros, por favor fique à frente das outras pessoas. Quando considerarmos seguro sair, vamos abrir as portas. Agora é mais seguro ficar aqui dentro, porque não sabemos as condições do lado de fora”.

Outra pessoa partilhou que seguia na carruagem número 5 e todas as carruagens depois da número 6 descarrilaram. “Vamos no Iryo de Córdoba para Madrid, e uns 10 minutos depois de sair o comboio começou a tremer muito, e descarrilou do carro 6 para trás. Foi-se a luz. Estamos na carruagem 5. Felizmente, parece que todos estão bem”, escreveu, no momento do acidente. Mais tarde, revelou que os passageiros foram retirados e partilhou um vídeo que mostra a última carruagem do comboio bastante danificada e as equipas de resgate a trabalharem para retirar as pessoas através das janelas.

O acidente é, de acordo com a ABC Espanha, o primeiro da história dos comboios de alta velocidade no país, desde o início do serviço há 34 anos. O jornal recorda, entretanto, um dos maiores desastres com comboios recentes, quando no verão de 2013 um descarrilamento de um comboio de longa distância fez 80 mortos.