O nome de Mário Centeno foi retirado da corrida à vice-presidência do BCE, uma decisão tomada enquanto decorria em Bruxelas uma reunião dos ministros das Finanças do Eurogrupo em que, à entrada, Miranda Sarmento disse que seria “difícil” essa eleição. O croata Boris Vujcic é o nome escolhido, confirmou o presidente do Eurogrupo, num reconhecimento que era previsível aos países do leste europeu para onde a zona euro se tem alargado.
O antigo governador do Banco de Portugal, numa declaração escrita partilhada com o jornal Eco, felicitou o croata e salientou que “permanecem intactas” as razões da sua candidatura – que estavam, como disse ao Observador na sexta-feira, ligadas à escassa representação de portugueses nos órgãos de regulação e supervisão na união monetária. “Portugal continua sem representação em instituições reguladoras europeias, algo que devemos trabalhar em conjunto para corrigir num futuro próximo”, afirma Mário Centeno, na declaração ao jornal.
À entrada na reunião do Eurogrupo, o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, já tinha dito que seria “difícil” eleger Mário Centeno para a vice-presidência do BCE, embora mantivesse “alguma esperança” de que isso fosse possível. No final do encontro, Miranda Sarmento não fez declarações sobre o resultado da votação num dia em que, mais do que a escolha de um novo vice para o BCE, as atenções estiveram viradas para as ameaças de Donald Trump de mais tarifas aplicadas à Europa.
Transparecendo algum ceticismo de que seria possível gerar uma maioria qualificada reforçada capaz de eleger um português para este cargo (do qual está prestes a sair um espanhol e antes foi outro português, Vítor Constâncio), Miranda Sarmento salientou que havia “equilíbrios” que têm de se garantir, designadamente com as geografias do leste da zona euro, para onde esta tem crescido nos últimos anos.
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Bálticos uniram-se mas estratégia não deu frutos
Logo à primeira votação, a Lituânia e Estónia decidiram retirar as suas candidaturas, em favor da candidatura do letão Mārtiņš Kazāks. Este letão tinha sido, a par de Centeno, o nome recomendado pelo Parlamento Europeu.
No início dos trabalhos, os três países bálticos – Letónia, Lituânia e Estónia – tinham cada um o seu candidato mas, nos últimos dias, tinham estado a negociar uma união de forças. “Chegou a hora de os estados bálticos estarem representados no mais alto nível do Conselho Executivo”, afirmaram os três países na última sexta-feira, em comunicado conjunto. A desistência do lituano e do estónio terão sido uma estratégia nesse sentido, mas que acabou por não dar frutos.
Numa segunda ronda, apesar de terem sido a preferência do Parlamento Europeu, tanto os nomes de Centeno como de Kazāks acabaram por ser retirados. Aí, foi a votação final o nome do croata Boris Vujcic e, também, do finlandês Olli Rehn.
Rehn tinha-se mostrado, no final da semana passada, muito incomodado por não ter sido escolhido pelo Parlamento Europeu, apesar da sua longa experiência não só como governador do banco central do seu país mas, também, como antigo comissário europeu dos assuntos económicos.
Boris Vujcic é governador do banco central croata desde 2012.
O escolhido, Boris Vujcic, é governador do banco central nacional da Croácia desde 2012 e “apadrinhou” a adesão do país à união monetária, que foi consumada a 1 de janeiro de 2023. Com 61 anos, é visto como um economista mais conotado com os “falcões” da política monetária, ou seja, a corrente de pensamento mais avessa aos riscos de inflação e que, tendencialmente, são menos favoráveis às taxas de juro baixas.
Miranda Sarmento tinha transmitido pouco otimismo
Na conferência de imprensa após a reunião do Eurogrupo, Kyriakos Pierrakakis, o grego que é presidente deste grupo informal, agradeceu “o interesse e o empenho” de todos os candidatos mas considerou “um sucesso” que tenha sido possível escolher um novo vice-presidente para o BCE logo à primeira reunião.
“Em momentos anteriores, foi preciso muito mais tempo para chegar a um consenso, mesmo quando havia menos candidatos”, referiu Kyriakos Pierrakakis, salientando que em 2012, por exemplo, levou seis meses até haver um consenso entre os ministros das Finanças para este cargo – na altura, acabou por ser escolhido Vítor Constâncio.
Algumas horas antes, à entrada para a reunião do Eurogrupo, em Bruxelas, Miranda Sarmento não se tinha mostrado muito otimista de que Mário Centeno se poderia tornar vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), destacando que “quem está de saída é um espanhol, antes foi um português, antes dele um grego…“. “Há equilíbrios que têm de ser considerados” nestas situações, afirmou o ministro das Finanças, deixando implícito que considerava mais provável que um dos candidatos do leste europeu pudesse ser o escolhido.
Miranda Sarmento garantiu, no entanto, que apesar de a eleição ser “difícil”, mantinha “alguma esperança” de que o antigo governador do Banco de Portugal – que o Governo de que é ministro com a tutela não quis reconduzir – pudesse ser o escolhido ao cabo de “várias rondas” de votação que podem ser necessárias até que se chegue a um consenso. Poderá, até, nem ser possível chegar a esse nome na reunião de hoje, estando já marcada uma possível “segunda volta” neste tema para o dia 16 de fevereiro.
O ministro das Finanças garantiu, porém, que caso Centeno não fosse o escolhido – como acabou por não ser – não foi por falta de “esforço” do Governo português. “Apoiamos sempre portugueses quando têm oportunidade de concorrer” a cargos internacionais como este e Miranda Sarmento diz ter trabalhado nos “bastidores da diplomacia” para “sensibilizar” os outros ministros das Finanças (exceto os dos países que têm candidatos concorrentes) para a candidatura de Mário Centeno.
O nome de Boris Vujcic deverá ser confirmado pelo Conselho Europeu, após consultas com o BCE e com o Parlamento Europeu. “Está tudo encaminhado para que Boris Vujcic assuma o cargo no dia 1 de junho”, após o final do mandato do espanhol Luis de Guindos, afirmou Kyriakos Pierrakakis, o presidente do Eurogrupo.
O antigo ministro das Finanças e antigo governador do Banco de Portugal deverá, assim, continuar a carreira no Banco de Portugal, do qual é quadro desde o ano de 2000, provavelmente continuando, para já, como consultor da administração liderada pelo seu sucessor, Álvaro Santos Pereira, mantendo o vencimento de acordo com o seu nível na tabela salarial – cerca de 17 mil euros mensais.