Marcelo Rebelo de Sousa viajou para Estrasburgo e deu boleia a António Costa no Falcon. Os dois aproveitaram para colocar a conversa em dia com o Presidente a jurar que não falaram de política. O Presidente não queria falar aos jornalistas, mas não resistiu à sua própria natureza. À chegada ao hotel confessou que tem uma “cumplicidade” maior com Costa do que com Montenegro, falou sobre a segunda volta das Presidenciais e ainda conseguiu embutir uma referência, à Marcelo, a Luís Marques Mendes.

Marcelo começou por dizer que não comentava a campanha eleitoral, alegando que esta era uma “altura de silêncio” por parte do incumbente. O chefe de Estado diz que, pelo cargo que exerce “não se dirige a ninguém sobre essa matéria” e que está “até mais limitado” do que “o cidadão português normal” que pode “perfeitamente optar por fazer campanha” e  “por ser mais ou menos militante”.

O Presidente diz, no entanto, que esta é uma “escolha importante que os cidadãos portugueses têm para fazer”. Marcelo diz que “a pré-campanha foi importante, os debates foram importantes, a campanha foi importante” e que elogia o facto de a abstenção ter diminuído: “A participação eleitoral subiu, e subiu muito, e isso é muito positivo para a democracia portuguesa”.

Marcelo acredita que a segunda volta vai ter uma maior participação, numa sugestão de que pode haver mobilização para impedir um dos candidatos de ser Presidente. “Eu retenho da minha memória a campanha de 86. Aí também houve uma abstenção muito baixa na segunda volta, precisamente porque a segunda volta permite realmente um novo momento de participação cívica dos portugueses”, atira o chefe de Estado. Para Marcelo essa participação será elevada porque “os portugueses têm a noção da importância das eleições.” Diz ainda, que “não é por acaso que nós, em 50 anos de democracia, tivemos Presidentes que, sendo diferentes entre si, corresponderam a épocas diferentes e motivaram sempre uma participação cívica significativa.”

Questionado sobre se é uma escolha entre a democracia e o extremismo, Marcelo resistiu a ir mais longe, registando que a pergunta “era uma maneira hábil de perguntar o que é que eu penso dos dois candidatos e das diferenças entre eles, o que é que os aproxima. E sobre isso eu não posso pronunciar.”

Mais cúmplice de Costa, mas boa relação com o “mais novinho” Montenegro e a lembrança dos Luíses

Marcelo Rebelo de Sousa foi de Lisboa a Estrasburgo numa viagem de Falcon com António Costa, mas jura que não falaram de política. “Falou-se de todos os temas menos de política. Falou-se coisas da vida de cada qual. Falei imenso de coisas do passado. Todos falámos de memórias do passado”, revelou.

O chefe de Estado diz que nem tem “muitas saudades de António Costa” porque têm “falado entretanto”. E faz outra revelação: “Ainda no outro dia, quando estivemos nas Nações Unidas, jantámos, e temos falado ao longo do tempo.”

Sobre ter uma relação pior com Luís Montenegro, Marcelo tenta desvalorizar e diz que tem “uma relação muito boa com o atual primeiro-ministro.” Diz aliás que tem com ambos: “Conheci-os  muito novos. Um foi meu aluno aluno aos 19 anos. E estive nas duas primeiras campanhas do atual primeiro-ministro. Fui o único dirigente nacional do partido que esteve com ele nas duas primeiras campanhas autárquicas. Era muito novinho. Tinha acabado de nascer o primeiro filho, veja bem”.

Marcelo acaba por reconhecer uma maior cumplicidade com Costa, mas utiliza a desculpa de ter uma idade mais aproximada do antigo aluno: “Temos uma cumplicidade diferente porque ele é mais novo que o presidente António Costa. Mas tirando isso, tenho boa relação com os dois.”

Ainda sobre Luís Montenegro, Marcelo aproveita para lembrar um outro amigo que perdeu as eleições presidenciais na primeira volta e de quem é amigo. “Havia uma tertúlia, de que ele [Luís Montenegro], fazia parte que era uma tertúlia dos Luíses, que tinha vários Luíses. Eu não era um, mas fazia parte”, revela Marcelo, numa alusão ao grupo dos três Luíses, que juntava Luís Campos Ferreira, Luís Marques Mendes e Luís Montenegro.

O Observador viajou a Estrasburgo a convite do Parlamento Europeu