Passaram 365 dias desde a segunda inauguração de Donald Trump e, para celebrar a ocasião, a porta-voz da Casa Branca anunciou que a tradicional conferência de imprensa desta terça-feira ia contar com a presença de um “convidado muito especial”. Aos jornalistas, foi entregue um grande documento intitulado “365 vitórias em 365 dias” e, quase uma hora depois da hora marcada, o próprio Presidente subiu ao púlpito com um documento idêntico.
“Podia ler isto tudo durante uma semana e não íamos acabar”, declarou. Em vez disso, escolheu um dos temas preferidos para começar e mostrou fotografias de pessoas detidas — “os piores dos piores”, lia-se na legenda — que disse terem sido detidas pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) no estado do Minnesota. Ainda durante a longa “introdução”, em que discursou sobre as suas políticas migratórias mostrou dezenas de fotografias, o Presidente olhou para um dos temas que marcou as primeiras semanas do novo ano: a Venezuela.
Mais precisamente, Trump pronunciou-se sobre o seu encontro com a líder da oposição, María Corina Machado, que disse ser “uma mulher incrivelmente simpática”. “Talvez consigamos envolvê-la de alguma maneira”, acrescentou. A aproximação a Corina Machado foi justificada mais tarde com o facto de a laureada com o prémio Nobel o ter entregado ao Presidente, alegando que Trump era mais merecedor. Apesar da aproximação, Trump deu a entender que continua satisfeito com atual liderança da Venezuela, composta por herdeiros de Nicolás Maduro, e garantiu que os Estados Unidos têm agora uma “ótima relação” com o país.
Gronelândia: tema será discutido em Davos, mas “as coisas vão correr muito bem”
Depois da introdução, focou-se finalmente no enorme documento à sua frente: magoou-se a tirar a mola que o prendia, folheou-o e atirou-o ao chão. O documento continha uma longa lista de “feitos” que o Presidente diz ter alcançado no primeiro ano do seu segundo mandato e que se propôs a enumerar durante as duas horas seguintes: de temas como a redução da inflação e a aplicação de tarifas, a questões como o inglês ter sido classificado como língua oficial e terem sido reconhecidos apenas dois géneros. No tema da política externa, contavam-se “feitos” como a captura de Nicolás Maduro ou o aumento dos investimentos na NATO.
Sobre o último tópico, Donald Trump repetiu que conseguiu fazer pela Aliança mais do que qualquer “pessoa viva ou morta” e que os aliados devem responder na mesma medida. “O grande medo que eu tenho com a NATO é que nós gastámos muito dinheiro e sei que nós iríamos em auxílio deles, mas questiono-me se eles viriam em nosso auxílio”, afirmou.
.@POTUS on Greenland: "I think something's going to happen that's going to be very good for everybody. Nobody's done more for NATO than I have… I think that we will work something out where NATO's going to be very happy… but we need it for security purposes." pic.twitter.com/5606g15n6q
— Rapid Response 47 (@RapidResponse47) January 20, 2026
O tema voltou a impor-se quando o Presidente abriu a conferência às questões dos jornalistas e foi questionado sobre se o desmembramento da NATO é o preço que está disposto a pagar para adquirir a Gronelândia e se os EUA vão abandonar a Aliança. Sem responder diretamente, Trump insistiu que “ninguém fez tanto pela NATO” e garantiu: “Algo vai acontecer que é muito bom para todos. (…) A NATO vai ficar muito feliz, nós vamos ficar muito felizes, mas nós precisamos [da ilha] para propósitos de segurança, para segurança económica e até segurança mundial”.
O tema da Gronelândia ocupou a maior parte do segundo dia do Fórum Económico Mundial, em Davos. Em Washington, na véspera de discursar na cimeira, Trump antecipou a sua chegada à Suíça. “Tenho a certeza que estou a ser aguardado com muita alegria”, declarou, em total contraponto com as declarações de vários líderes europeus e internacionais que, ao longo do dia, criticaram as intenções de Trump de anexar a Gronelândia, se necessário pela força.
Questionado ainda sobre o quão longe está disposto a ir para atingir esse objetivo, a resposta foi simples: “Vão descobrir”. Ainda assim, assegurou que a aplicação de tarifas — com que ameaça agora os países que se opuserem aos planos norte-americanos — é a “melhor” alternativa. “O que estamos a fazer agora, é a melhor [solução], a mais forte, a mais rápida, a mais fácil, a menos complicada”, afirmou. Antecipou ainda as várias reuniões sobre o tema que vão ocupar os seus dias na Europa e rematou: “Acho que as coisas vão correr muito bem, na verdade”.
“A malha” que foi da “cantora de ópera profissional” à “tragédia” da morte de Renee Good
Gronelândia e Venezuela à parte, o balanço que Donald Trump fez do seu primeiro ano na Casa Branca foi marcado por algo conhecido como “The Weave” (a malha, em tradução livre). Trata-se do nome dado informalmente ao discurso do Presidente norte-americano marcado por interrupções e divagações sobre vários temas que entrelaça (como uma malha) apesar de não parecerem ter nada em comum.
Esta terça-feira, a enumeração de centenas de “feitos”, surgiram misturadas com críticas aos seus adversários políticos, com um foco repetido na congressista do Minnesota, Ilhan Omar, e nas críticas à Somália de onde é nativa, e no governador da Califórnia, Gavin Newsom — “Se ele alguma vez liderasse este país, este país seria a Venezuela”, disse a certo ponto. Deixou ainda piadas sobre renomear o Golfo do México como “Golfo de Trump”, disse conhecer “o Congo” porque acabou “com a guerra entre o Congo e o Ruanda”, referindo-se à República Democrática do Congo (RDC), e falou com agrado do rio Nilo e da sua relação com Elon Musk, apesar de desacordos políticos.
.@POTUS: "$19 billion, at a minimum, is missing in Minnesota — given to a large degree by Somalians. They've taken it… I was told that @IlhanMN is worth $30 million and she's never had a job. She's a crooked Congressman." pic.twitter.com/jwhV9jDDRr
— Rapid Response 47 (@RapidResponse47) January 20, 2026
Afastando-se de outras declarações públicas da sua administração, lamentou a morte de Renee Good, a mulher morta pelo ICE em Minneapolis, como uma “tragédia” e disse reconhecer “os dois lados” da história. Afirmou ainda que o pai de Good era seu “fã”. Apesar do incidente, defendeu o papel do ICE e criticou as pessoas que se opõem aos seus agentes — falando em particular de uma mulher que classificou como uma “agitadora profissional”, por ter gritado “tão alto” e como “uma cantora de ópera profissional” que o comportamento dos agentes era “uma vergonha”.
Entre os fios da malha e as muitas declarações sobre a Venezuela, repetiu ainda ameaças veladas a outros Estados da América Latina, em particular ao México. “Acabámos com quase 100% das drogas que entram pela água, muito em breve vamos começar [a acabar] com as drogas que vêm por terra. Nós sabemos exatamente de onde vêm”, afirmou.