O maquinista do comboio da Iryo, que descarrilou perto de Adamuz, em Córdoba, no domingo, contactou, por duas vezes, a central de controlo de Atocha da Administração de Infraestrutura Ferroviária (Adif) por volta das 19h45 (18h45 em Lisboa). Num primeiro momento, relatou um problema com o comboio e, numa segunda chamada, pediu a interrupção da circulação na linha e meios de socorro para o local. A transcrição das conversas, publicadas pela imprensa espanhola e cujo conteúdo integral foi confirmado por fontes próximas da investigação, revela que o maquinista desconhecia o envolvimento de outro comboio e só se apercebeu da gravidade do acidente depois de ter saído da cabine para verificar o que se tinha passado.
Após o descarrilamento, quando fez a primeira chamada, o maquinista ainda não sabia que três das carruagens tinham descarrilado, nem que havia feridos e mortos entre os passageiros. De acordo com o protocolo de segurança, o homem solicitou autorização à central de controlo para sair da cabine do comboio, que fazia a ligação entre Málaga e Madrid, para avaliar a situação.
Transcrição da primeira chamada entre o maquinista e a central de controlo ferroviário de Atocha:
Central de Controlo (CC): 6189, aqui é o Atocha, o que se passou?
Maquinista (M): Olá, Atocha. Tive um “enganchón” perto de Adamuz.
CC: Ah, entendi, entendi. Ok, tudo bem. Dê-me um número de telefone, por favor.
M: Anote, por favor…
(Ouve-se o som dos travões de emergência)
CC: Estão a mandar-me baixar os pantógrafos.
M: Não podem baixar mais.
CC: Então já os baixou?
M: Sim, estão totalmente baixados.
CC: Ok, tudo bem.
M: Na verdade, o comboio está bloqueado… Quer dizer, neste momento.
CC: Então não se pode mexer?
M: Não… Preciso de fazer um reconhecimento.
CC: Vai precisar de fazer um reconhecimento.
M: Sim.
C: Só um segundo, engenheiro, não desligue. Senão ligo de volta.
M: Sim, sem problema.
C: Ok.
Após verificar a situação fora da cabine, o maquinista apercebeu-se que três carruagens tinham descarrilado e, consequentemente, havia registo de feridos. Na segunda chamada que fez para a central de controlo, pediu meios de socorro e a interrupção da linha.
A transcrição da segunda chamada entre o maquinista e a central de controlo ferroviário de Atocha:
Maquinista (M): Olá, Atocha, fala 6189. É para informar que é um descarrilamento. Invadi a linha de sentido contrário. Repito, descarrilamento, invadi a linha de sentido contrário.
Central de controlo (CC): Certo. Recebido. Obrigado pelo aviso.
M: Preciso que interrompam a circulação nas vias com urgência, por favor.
CC: Sim, claro. Não há nenhum comboio a chegar.
M: E há um incêndio também. Preciso de abandonar a cabine porque tenho que verificar, certo? Tenho uma carruagem em chamas.
CC: Pronto. Tenho o seu número de telemóvel, perfeito. Vou comunicar por aqui e já entro em contacto consigo.
M: Preciso que mandem também os serviços de emergência, bombeiros e ambulâncias, por favor. Também tenho feridos no comboio.
CC: Certo. Pronto, recebido.
M: Tem o meu telemóvel, certo?
CC: Tenho sim.
M: Vou abandonar a cabine. Já informo, está bem?
CC: Certo. Pronto. Até já.
De acordo com o que fontes oficiais explicaram ao El País, descarrilaram as três últimas carruagens do Irya, números 6, 7 e 8, que entraram na via férrea contrária, onde circulava outro comboio, da estatal Renfe, com 184 passageiros, que ligava Madrid a Huelva, e que seguia a 200 quilómetros por hora. As primeiras carruagens do comboio da Renfe, onde seguiam 53 pessoas, também descarrilaram e caíram de uma altura de cerca de seis metros.
“Tenho sangue na cabeça”. A chamada entre o centro de controlo e a fiscal do outro comboio que descarrilou
O El País teve, também, acesso às gravações da conversa entre o centro de controlo de Atocha e uma fiscal do segundo comboio envolvido no descarrilamento.
Assim que o centro de controlo percebeu que um comboio da Renfe tinha parado de forma anormal, os técnicos tentaram contactar o maquinista. Foram feitas duas chamadas, mas não houve resposta. De acordo com os registos a que o jornal espanhol teve acesso, o maquinista já tinha morrido quando houve a tentativa de contacto.
Perante a impossibilidade de falar com o maquinista, o técnico do centro de controlo ferroviário ligou a uma das fiscais que estava nesse comboio. A conversa mostra que a profissional estava ferida e ainda não sabia que o maquinista tinha morrido. Enquanto falava ao telemóvel, tentava deslocar-se pelo comboio para tentar chegar à cabine.
A transcrição da chamada entre a fiscal e a central de controlo ferroviário de Atocha:
Fiscal (F): Olá, boa tarde. Diga-me.
Centro de controlo (CC): Olá, boa tarde, consegue ouvir-me?
F: Sim, consigo ouvi-lo, diga-me.
CC: Estou a ligar da sala de controlo da estação de Atocha. Estou a tentar falar com o maquinista, mas não consigo. Veja se consegue transferir a chamada…
F: Também bati com a cabeça. Estou a sangrar.
CC: Como assim?
F: Bem… eu sou a fiscal dos bilhetes e também bati com a cabeça. Estou a sangrar. Não sei se vou conseguir chegar ao maquinista. Vou falar com ele.
CC: Certo, por acaso tem o número de telefone do maquinista?
F: Vou ver se consigo falar com o maquinista ou ligar-lhe.
CC: Desculpe. Pode repetir?
F: Vou tentar ir até à cabine do maquinista.
CC: Certo, como é que está… Como é que está? Como está?
F: Tenho um ferimento na cabeça com sangue.
CC: Sim, sim, sim, já me disse.
F: Como está o comboio? Em que condições se encontra?
Em paralelo, decorria a outra chamada entre um técnico do centro de controlo e o maquinista do comboio da Iryo. Nessa conversa, ficou claro que nem o maquinista nem o técnico tinham consciência de que tinha ocorrido um choque com outro comboio. O facto de as duas chamadas estarem a acontecer ao mesmo tempo, com equipas diferentes a falar com comboios distintos, fez com que a informação não fosse imediatamente cruzada.