O número de partos em ambulâncias mais do que duplicou no ano passado em relação a 2024, tendo passado de 28 para 60 situações. Ao longo do ano de 2025, tanto o INEM como as entidades parceiras (como os bombeiros e a Cruz Vermelha) foram chamados a ajudar em 277 situações de partos em contexto pré-hospitalar, sendo que, destes, 60 ocorreram em ambulâncias e 23 na via pública, mostram os dados avançados pelo Público e confirmados pelo Observador.
No ano passado, foram relatadas na comunicação social dezenas de situações de nascimentos dentro de ambulâncias, o que reforçou a perceção de que o ano iria terminar com um novo recorde no número de nascimentos fora do contexto hospitalar. E foi isso mesmo que aconteceu: no ano passado, foram registados 60 partos em ambulâncias, mais do dobro em relação aos 28 partos que tiveram lugar nestas viaturas em 2024 e dos 18 registados em 2023. No período de dois anos, o número de partos em ambulâncias triplicou.
No caso dos partos realizados na via pública, também se tem vindo a registar um aumento sustentado. No ano passado, foram 23 os partos ocorridos na via pública (nos quais se inclui o caso da jovem que deu à luz numa rua do Carregado), um aumento em relação aos 17 registados em 2024 e dos 15 em 2023.
Regiões de Lisboa e Centro concentram quase 80% dos partos em ambulâncias e na rua
Numa análise por região, é possível perceber que quase metade dos partos realizados em ambulâncias e na via pública em 2025 aconteceram na região de Lisboa e Vale do Tejo: foram 36, o equivalente a 43% do total. Na região Centro — que abarca a zona de Leiria (onde se mantêm as dificuldades no atendimento às grávidas) — o INEM contabilizou 30 partos nestas circunstâncias (35% do total a nível nacional). Em sentido inverno, na região Norte e no Alentejo só houve registo de cinco partos em ambulâncias e na via pública ao longo do ano passado.
Em 2025, registaram-se também 153 partos realizados no domicílio (mais nove do que em 2024), dois nos Cuidados de Saúde Primários e 39 em relação aos quais não há informação sobre o local de nascimento dos bebés. Sem se referir ao aumento dos partos em contexto pré-hospitalar, o INEM sublinha que este tipo de partos “sempre se verificaram, por diversas razões, nomeadamente chamada tardia para o 112 ou situações em que o parto já é iminente no momento do pedido de ajuda”.
O ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal, Nuno Clode, concorda com a análise feita pelo INEM em relação à crescente demora em contactar os serviços de emergência por parte das grávidas, mas associa esse fenómeno à incerteza gerada pelos constrangimentos nas urgências e ao contacto com a linha SNS 24. “As grávidas ficam mais tempo em casa porque não confiam nos hospitais ou porque não sabem para onde ir“, salienta Nuno Clode, acrescentando que, “antigamente, as pessoas sabiam para onde ir e iam rápido”.
Constrangimentos nas urgências e perda de confiança das grávidas podem explicar aumento, diz obstetra
Neste momento, devido “aos constrangimentos” nas urgências de ginecologia e obstetrícia do SNS, as “pessoas têm de ligar para a linha SNS 24” para saber qual o serviço de urgência disponível para as receber, o que gera incerteza e atrasa a chegada ao hospital, onde o parto deveria ser realizado, realça Nuno Clode. Quase 80% dos partos em ambulâncias e na via pública ocorreram, em 2025, nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo e Centro (as mais afetadas pelos constrangimentos nas urgências dos hospitais), onde se verifica maior incapacidade de resposta.
No entanto, no início de janeiro, a Direção Executiva do SNS tentou ‘desmontar’ essa leitura, quando cedeu ao jornal Público as conclusões de um estudo, que referia que apenas 6 dos 70 nascimentos registados em ambulâncias e na rua entre janeiro e novembro de 2025 poderiam ter sido evitados se as urgências de obstetrícia estivessem abertas, ou seja apenas 9% do total. Ao invés disso, o estudo, chamado “Partos em Portugal – entre a percepção e a realidade?”, concluía que o aumento destes partos em Portugal poderá dever-se à maior utilização da linha SNS 24.
Ao todo, ao longo do ano passado, foram registados 277 partos em contexto não hospitalar em que houve uma intervenção do INEM ou de entidades parceiras — um aumento de 23% em relação a 2024 (ano em que tinha havido 225 partos deste tipo). Se a comparação for feita com 2023, o aumento é ainda mais expressivo: de 38%.
O INEM alerta, no entanto, que os números apresentados “não representam o total de partos fora do ambiente hospitalar em Portugal, uma vez que existem situações em que o sistema de emergência não é acionado e que, por isso, não são registadas pelo INEM”. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), o número global de partos extra-hospitalares é significativamente superior, salienta o INEM, nomeadamente no que diz respeito aos partos em casa (que se têm situado, nos dois últimos anos, entre os 800 e os 900 por ano, sendo que a maioria das situações não requer a intervenção de meios de socorro).
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