Keir Starmer e toda a sua equipa de assistentes e conselheiros estão a usar telemóveis e portáteis ‘descartáveis’ com cartões SIM novos na visita à China que se realiza esta semana, a primeira de um primeiro-ministro britânico em oito anos. A medida foi tomada, de acordo com o The Times, para evitar uma hipotética ação de espionagem por parte do Partido Comunista Chinês, depois de o Telegraph avançar que a China hackeou telemóveis em Downing Street durante anos. Keir Starmer foi recebido esta quinta-feira por Xi Jinping, e ao longo dos três dias da visita também se deverá encontrar com o primeiro-ministro chinês, Li Qiang.
Nenhum aparelho eletrónico dos membros da equipa de Starmer ou do Governo terá sido levado à bordo do avião que chegou a Pequim na passada quarta-feira. De acordo com o The Guardian, o primeiro-ministro também estará a usar um email temporário, para evitar o risco de os servidores de Downing Street serem hackeados. Além de membros do seu gabinete, Starmer está acompanhado de uma comitiva com cerca de 60 empresários e representantes culturais, incluindo executivos do HSBC, da farmacêutica GSK e das construtoras automóveis Jaguar e Land Rover.
As medidas fazem parte das rotinas de segurança para viagens à China há pelo menos 10 anos, e também são aplicadas em outras viagens internacionais, como foi o caso das cimeiras do G20 no Brasil em 2024 e na África do Sul em 2025. As precauções não serão as mesmas das que são tomadas em viagens a países aliados ou aos membros da aliança de serviços secretos Five Eyes: Austrália, Canada, Nova Zelândia e Estados Unidos da América.
De acordo com um oficial britânico que já participou numa das viagens oficiais a Pequim, a recomendação geral é a de que “tudo está a ser alvo de escutas”, e que conversas sensíveis só podem ser realizadas num compartimento de segurança dentro da Embaixada britânica. O mesmo se aplica a encontros com líderes chineses em eventos internacionais. Foi o caso do antigo ministro do Interior James Cleverly, que numa viagem à Assembleia Geral da ONU em Nova Iorque recusou levar o seu telemóvel para dentro do consulado da China durante uma reunião. O aparelho foi guardado numa mala revestida por chumbo e deixado com oficiais que não entraram no prédio.
A última primeira-ministra britânica a ir à China foi Theresa May, em 2018. Na altura, a chefe de Governo foi aconselhada a trocar de roupa debaixo de uma manta para evitar ser filmada sem roupas. A preocupação é que poderia haver dispositivos de vigilância instalados nos quartos de hotel. “Havia uma rotina conhecida em lugares como a cidade de Shenzen em que os estrangeiros do Ocidente eram colocados nos mesmos quartos para que não tivessem que mover os equipamentos”, disse ao The Guardian um antigo membro do serviço secreto britânico. Já na visita de David Cameron a Pequim em 2013, o Governo chinês disponibilizou um agente de proteção pessoal para acompanhar a equipa do primeiro ministro. “No final da viagem, depois de fingir que não falava nem compreendia nada de inglês, já no avião, ele disse-nos adeus e tenham uma viagem segura, num inglês perfeito”, recorda um antigo assistente de Downing Street.