Se os moradores de bairros alvos de operações do ICE têm apitos, a agência de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) tem expandido o seu arsenal com tecnologias de vigilância em massa de última geração. Rastreadores biométricos, simuladores de torres de telecomunicações, spyware e drones passaram a estar à disposição da agência norte-americana para monitorizar e investigar redes de manifestantes anti-ICE — ao mesmo tempo que se flexibilizam as restrições ao uso dessas ferramentas, noticia o Washington Post.
Durante o segundo mandato de Donald Trump, o ICE tornou-se a agência mais bem financiada entre os organismos do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês). A chamada “Big Beautiful Bill”, aprovada no verão passado, elevou o orçamento anual da agência para mais de 85 mil milhões de dólares (71 mil milhões de euros). Para comparação, todo o Departamento de Justiça — incluindo o FBI — dispõe de pouco mais de 35 mil milhões (29 mil milhões de euros), segundo a NPR.
Ao Washington Post, o Departamento de Segurança Interna afirmou que o uso de tecnologias inovadoras em investigações pelo ICE “não é diferente” do de outras agências de aplicação da lei e que não divulgaria “métodos sensíveis de aplicação da lei”. Mas democratas e organizações de defesa dos direitos civis, por sua vez, alertam para a expansão dos poderes dos “czares das fronteiras”.
O reconhecimento facial tem sido usado nas ruas ao longo do último ano. Através da aplicação Mobile Fortify, agentes — quase sempre de cara tapada — podem comparar em segundos rostos e impressões digitais recolhidos no terreno com dados de bases que incluem estatuto migratório e outras informações biográficas. Uma simples fotografia basta para o sistema detetar o rosto, extrair características biométricas, gerar um perfil digital e procurar correspondências.
No outono, o ICE adquiriu também uma aplicação móvel de leitura da íris que, segundo a fabricante citada pelo jornal, consegue identificar uma pessoa em segundos a cerca de 38 centímetros de distância.
Este tipo de tecnologias já está a ser aplicada. Há relatos de cidadãos norte-americanos cujos rostos foram verificados em tempo real. “Ele [agente] usou reconhecimento facial com outro sistema e confirmou que eu era cidadão. Depois, libertaram-me”, afirmou Julio Garcia, residente em Bloomington, Minnesota, referindo-se à sua detenção, a 9 de janeiro, de acordo com o Washington Post.
O DHS defende a ferramenta. “O Mobile Fortify é um instrumento legal de aplicação da lei, desenvolvido durante a administração Trump para auxiliar na verificação precisa de identidade e estatuto migratório. Opera com um limite de correspondência deliberadamente elevado e consulta apenas conjuntos de dados de imigração limitados da CBP [Customs and Border Protection, a entidade alfandegária dos EUA]”, refere num comunicado citado pelo jornal.
Há também mais de 20 mil milhões de leitores de matrículas instalados em postes, com recurso a câmaras de alta velocidade, capazes de rastrear movimentos de veículos. Soma-se a isso o uso de simuladores de torres de telecomunicações — dispositivos que imitam antenas de rede móvel para captar sinais de telemóveis nas proximidades.
Apesar das restrições legais, a agência obtém também dados de localização de telemóveis através de empresas comerciais, incluindo aplicações de meteorologia e jogos. Este acesso a informação privada é complementado por um conjunto de ferramentas forenses digitais que permitem ao ICE desbloquear telemóveis e computadores, recuperar ficheiros apagados e extrair dados de comunicações encriptadas, garante o Washington Post. Para isso, foram assinados contratos com a empresa israelita Paragon Solutions, depois de a administração Biden ter congelado temporariamente a aquisição.
No terreno, o recurso a tecnologia estende-se também à vigilância aérea. Tal como ocorre na guerra da Ucrânia, os drones assumem um papel cada vez mais central. Os modelos atualmente ao serviço do ICE conseguem detetar pessoas a até 12 quilómetros de distância e identificá-las a cerca de 1,3 quilómetros. Alguns já foram mobilizados para vigiar protestos ao longo do último ano, ampliando a presença da vigilância aérea em operações no interior do país.
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