A seguir ao apagão de 28 de abril do ano passado, os telefones começaram a tocar “freneticamente” e após a passagem da tempestade Kristin, que provocou um apagão no distrito de Leiria que se estende a concelhos dos distritos vizinhos, também há mais interessados.
Para que empresas com produção própria de energia possam resistir aos efeitos da queda da rede e auto alimentar-se, a resposta passa pela hibridização (um conceito de junta mais do que uma tecnologia de energia renovável ou um sistema de armazenamento). Trata-se de combinar a produção fotovoltaica, instalada em unidades empresariais para autoconsumo, com sistemas de armazenamento de energia em bateria (BESS na sigla inglês)
A solução tecnológica já existia, mas o apagão do ano passado, acelerou o desenvolvimento do enquadramento legal e técnico, afirmou ao Observador Luís Pinho diretor para Portugal da Helexia, empresa especializada em soluções de energia para clientes empresariais que pertence ao grupo Voltalia. Muitas empresas e particulares com produção própria de energia — nomeadamente através de painéis fotovoltaicos — viram estes equipamentos parar quando o fornecimento de energia foi interrompido porque os mesmos estavam sincronizados com a rede elétrica.
Tem painéis solares em casa e não escapou ao apagão. Porquê?
Na generalidade das instalações de painéis fotovoltaicos, a transformação da energia é feita através de um equipamento que converte a corrente direta em corrente alternada que é usada nos consumos de casas e instalações. Por definição de uma norma do regulador, os equipamentos que fazem essa conversão estão sincronizados com a rede elétrica, refere o diretor da Voltalia. E, quando há oscilações anormais dos níveis de tensão, desligam-se. É um mecanismo de proteção dos equipamentos e da própria rede e que faz com que estas instalações parem de fornecer energia a quem as instalou, explica Luís Pinho.
Em muito maior escala foram os mecanismos de auto-proteção de centrais solares em Espanha que começaram a desligar-se quando a rede elétrica sofreu oscilações de frequência, iniciando a cascata de eventos que provocou o apagão.
Para contornar essa situação estão a ser disponibilizadas no mercado soluções de hibridização que combinam sistemas de baterias com geração fotovoltaica (a mais comum na produção para auto-consumo). O armazenamento de energia através de baterias permite continuar a abastecer o consumo quando não há produção (neste caso quando não há sol). Mas isso não chega para assegurar a autonomia da rede elétrica. É preciso um sistema que tenha inversores capazes de converter a corrente direta em alternada, mesmo sem o sinal da rede elétrica. O que implica passar dos inversores do tipo grid following (que seguem o sinal da rede) para gridforming (com capacidade para gerar sinais de frequências) acoplados às baterias.
Apesar destas soluções já existirem no mercado — a Helexia é uma de várias empresas que o fornece — ainda haverá muito poucos sistemas deste tipo a operar, diz Luís Pinho. Numa fase inicial, ainda antes do apagão, havia manifestações de interesse, mas logo a seguir os “telefones tocaram freneticamente” com feedback por parte dos clientes: “Agora percebemos. Faz sentido”.
Com os efeitos da tempestade Kristin a deixaram muitas empresas sem energia e sem produção, há um interesse redobrado por parte de potenciais clientes, sinaliza Luís Pinho.
Em agosto foi publicado o manual de procedimentos da ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos) que contempla esta solução para instalações de auto-consumo e indica o que é preciso do ponto de vista técnico. Nesta fase aguarda-se que, do ponto de vista das redes, a REN e a E-Redes deem a devida sequência aos regulamentos técnicos. Neste momento estão a decorrer as discussões entre os gestores de rede para definir os requisitos técnicos que vão balizar estes sistemas.
O diretor da Helexia admite que este ano possam ser operacionalizados, indicando que os fabricantes de inversores estão já a preparar as alterações. E se em muitas coisas Portugal está atrasado, neste tipo de produto até pode avançar mais depressa do que a maioria dos países europeus (com exceção dos nórdicos), muito à custa de fenómenos como o apagão e da tempestade que atingiu a região centro. Ainda que a falta de acesso à energia nem seja o problema mais grave que muitas empresas enfrentam, ao verem destruídas as estruturas físicas das suas instalações.
Entre os mais interessados nesta solução estão centros de dados, instalações que consomem enormes quantidades de energia e que têm de assegurar redundância e autonomia de abastecimento durante algum tempo. E indústrias em que a paragem de produção por falta de energia provoca danos no equipamento ou perda de produção, como é o caso da cerâmica, ou serviços públicos essenciais como hospitais ou sistemas de água.
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