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Em aldeias de Ansião, o desalento adensa-se, enquanto os dias sem luz se vão somando. Já são 14 dias à espera, com lanternas e velhas candeias. No terreno, eletricistas voluntários fazem o que podem para devolver alguma esperança.

“É desesperante”, lamenta Emílio Ferreira, junto à sua casa em Vale do Boi, no concelho de Ansião, enquanto conta os dias desde que a casa abanou, viu duas chaminés partirem e a luz desaparecer desde então.

Os primeiros dias aguentaram-se só à luz das velas, mas, entretanto, comprou um gerador para conseguir ter a arca, o frigorífico e a iluminação ligada, contou o homem de 59 anos, que ainda não sabe quando virá a energia.

Junto ao lagar da aldeia, está a ser instalado um gerador que poderá em breve resolver os problemas de Vale do Boi.

“Ainda falta noutro posto de transformação”, conta à agência Lusa o presidente da Junta de Freguesia de Santiago da Guarda, David Rodrigues, que diz que o abastecimento de energia elétrica é o principal problema — mesmo depois dos geradores instalados, é preciso assegurar a ligação às vezes danificada às casas.

O autarca não consegue contar os pedidos e chamadas que recebe de fregueses a perguntarem-lhe quando terão luz.

“São 14 dias sem descanso”, desabafa, admitindo uma certa impotência perante a situação e dificuldade de dar respostas aos cidadãos: “Não temos previsões“.

Na casa de José Marques, de 84 anos, ouve-se o som que sai do rádio a pilhas, sempre ligado, e sente-se o cheiro da lareira, que mantém quente a casa onde chegou a chover para cima da cama nos primeiros dias depois da passagem da depressão Kristin.

“Era tão forte o vento“, recorda Ilda Marques, enquanto olha para a rua e vê chover copiosamente.

Os dias têm sido feitos com recurso a velas e lanternas, mas a frustração aumenta.

“A gente aqui também paga imposto e está assim. Já viu o que é estar aqui sem televisão nem nada?”, diz José Marques.

“Isto de não ter luz dá cabo da gente”, lamenta a mulher, que mantém o olhar preso na rua para notar: “O tempo anda todo virado e está cada vez pior“.

A alguns quilómetros de Vila do Boi mas na mesma freguesia, João Silva, um dos sócios gerentes da empresa J&M Remodelações, dava indicações a um colega que se procurava posicionar no telhado da casa de Agripino Silva.

“O tempo não está a ajudar”, dizia. Também ali a chuva se fazia sentir, enquanto aquela empresa de Lisboa procurava resolver as chapas de zinco reviradas pela força do vento.

“Estamos desde segunda-feira e ficamos até sexta-feira”, conta à Lusa João Silva, que decidiu, em conjunto com o outro sócio-gerente, juntar os trabalhadores e mais alguns amigos e voluntários para dar uma mão às pessoas de Ansião.

Agripino vai observando os trabalhos, à espera que, passados 14 dias, possa parar de chover na sua casa.

“Fica a faltar a luz”, diz, afirmando que estas duas semanas fizeram-no lembrar-se dos seus “primeiros tempos” em que veio ao mundo.

A pensar nas dificuldades na reposição da energia elétrica, Hélder Coelho e a sua equipa de eletricistas da empresa de construção Casais, de Braga, decidiu responder ao repto e ir para o terreno.

“Como nós trabalhamos na parte elétrica, pensámos que certamente há muita linha que está estragada e a gente podia dar um grande apoio. Falei com os meus superiores, eles deram o ok e deram-nos as condições, então viemos para cá”, afirmou à Lusa o chefe de uma equipa de seis que estará por Ansião até sexta-feira.

Pelo terreno, vê “muita coisa por fazer“. Depois de uns contactos, material reunido, fizeram-se ao trabalho e andavam hoje à tarde na pequena aldeia de Albarrol.

Já com gerador, a equipa foi-se distribuindo para resolver as ligações elétricas às casas, depois de um diagnóstico dos problemas.

“Aqui, vai ficar bem resolvido para toda a vida“, assegura Hélder Coelho, enquanto orienta o resto da equipa, à espera de ainda hoje devolver a luz a Albarrol.

“Vamos embora meus amores, à luta!”, diz um dos funcionários antes de se dirigir para um poste de eletricidade.

Emídio Duro, de 74 anos, olha para a movimentação com esperança e profunda gratidão.

“Estou muito agradecido, que isto é angustiante e muito, muito triste”, conta o homem de 74 anos que também está há 14 dias sem luz.

Por estes dias, além das velas e de lanternas, socorreu-se de “duas candeias de azeite antigas” — “do tempo da outra senhora” — que lhe têm valido de muito.

“É como diz o ditado: guarda o que não presta que não saberás quando será preciso”, disse Emídio.

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