Esteve em silêncio durante toda a campanha presidencial, apesar de disputado por muitos candidatos e depois de eleito o novo presidente, fugiu pouco ao guião. “Parabéns, é o que a gente sempre diz”, quis despachar Passos Coelho quando interpelado pelos jornalistas para logo arrumar o assunto recordando que não quis intervir durante a campanha, dizendo apenas que António José Seguro é o Presidente “que foi eleito”.
O antigo primeiro-ministro foi convidado pelos economistas Nuno Duarte e Óscar Afonso para apresentar o ensaio: Economia, Inovação e Inteligência Artificial, ao lado da ex-ministra da Ciência socialista, Elvira Fortunato e aproveitou a iniciativa para apontar alguns caminhos de futuro mantendo-se longe da atualidade. Na plateia tinha nomes como Mira Amaral, António Costa e Silva ou o antigo governador do Banco de Portugal, Carlos Costa.
Alguns dos reparos não tiveram destinatário direto embora abranjam a atualidade e o passado recente da governação política do país. Sobre a forma como a economia pode crescer, Pedro Passos Coelho elogiou a forma como Portugal cresceu no capital humano mas criticou a forma como as instituições funcionam. Para o antigo chefe do Governo “o Estado é um óbice muito grande ao crescimento da economia e cada vez me parece mais que a sua qualidade tem vindo a cair de forma mais gravosa“.
A farpa pode ser aplicada a António Costa, de quem foi crítico no passado pela falta de capacidade reformista, mas também encaixa, como aviso, ao Governo de Luís Montenegro. É que, logo de seguida, Passos Coelho ressalvou que “já existiram vários partidos de Governo, portanto esta não é uma questão partidária”, mas logo acrescentou que “fala-se muito da reforma do Estado mas faz-se pouco por isso”.
O aviso encaixa no Governo liderado por Luís Montenegro que apostou na Reforma do Estado como um dos eixos centrais deste segundo Governo, dando particular peso político ao ministro Gonçalo Saraiva Matias. Para o antigo primeiro-ministro, “se os processos não mudarem não vale a pena estar a investir em digitalização e em máquinas porque não se ganha eficiência”.
Por entre críticas à forma como o país tem desaproveitado os fundos europeus, sobretudo para fomentar a investigação e desenvolvimento nas empresas, e uma visão “otimista” de como o Estado pode aproveitar a inteligência artificial, Passos Coelho não deixou esta apresentação sem novo aviso. “[Portugal] despende muito em coisas que acrescentam muito pouco” e por isso “as previsões de crescimento a partir de 2027 são miseráveis“.
O antigo líder social-democrata considera que “no PIB per capita e até sem ser per capita, as previsões são miseráveis”, apontando um “regresso à tendência de crescimentos de 1 ou 1,1% a longo prazo” e remata: “se continuarmos assim não é a inteligência artificial que nos vai salvar“.
Depois do silêncio, Passos Coelho não deixou de dar recados sobre um tema que tem pontuado muitas das intervenções: a exigência de reformas e um Estado mais eficiente. Ainda em outubro tinha pedido o fim da política “redistributiva”. Já sobre o novo titular do Palácio de Belém, António José Seguro — que liderou a oposição quando era primeiro-ministro –, ficou pelo cumprimento simples.
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