Há “muito poucos” turistas portugueses em Cuba neste momento, e a indicação que corre entre as agências de viagens é para evitar enviar mais. Pelo menos até ao início de abril, ou até que a escassez de combustível, provocada pelo embargo imposto pelos Estados Unidos, esteja resolvida. O único grupo hoteleiro português com presença em Cuba, o Vila Galé, já encerrou alguns dos seus hotéis na ilha.
Esta semana, por ordem do governo cubano, foram vários os hotéis que encerraram em Cuba para reduzir o consumo de energia, obrigando os turistas a trocar de instalações. Segundo a Agência Nacional de Agências de Viagens (ANAV), haverá alguns portugueses nesta situação, mas não há casos de saídas antecipadas ou pedidos de repatriamento. “As viagens estão a decorrer nos timings programados, as agências estão a garantir que os clientes regressam a Portugal”, garante ao Observador Miguel Quintas, presidente da ANAV.
O regresso dos turistas portugueses está a ser feito através da companhia espanhola Iberia, que faz uma escala para reabastecer em Santo Domingo, na República Dominicana, uma vez que em Cuba não há combustível para garantir um voo direto.
Todos os anos, cerca de 30 mil portugueses visitam Cuba, e destes cerca de 90% vão através de uma agência de viagens, segundo a ANAV. A maior parte das viagens programadas para Cuba acontece a partir de abril, daí que o número de turistas na ilha das Caraíbas seja neste momento reduzido. O Observador tentou saber junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) quantos turistas fizeram o “Registo Viajante” em Cuba, uma recomendação do Governo português para quem visita o país, mas não obteve resposta até ao momento.
Da parte das agências de viagens, Miguel Quintas garante que as empresas estão em contacto com todos os viajantes para comunicar a solução encontrada para o regresso, uma vez que o regresso pela República Dominicana não estava previsto quando os turistas compraram a viagem. E não tem havido resistência. Até porque “não há outra solução, quem quiser sair da ilha tem de ser assim. Há outras escalas mas são mais longe, há turistas de outras nacionalidades que estão a sair via México ou via Panamá”.
As precauções passam agora pelas novas reservas, para a primavera e verão, alturas preferidas dos portugueses para visitar Cuba. “Temos sentido que enquanto não houver uma clarificação sobre a crise energética, torna-se difícil enviarmos clientes para Cuba”, admite o presidente da ANAV.
“Houve uma opção tomada pelo mercado em que até à primeira semana de abril há quase como um embargo no envio de passageiros, com o objetivo de tentar ganhar alguma clarificação”, revela. “Há turistas que não vão deixar de ir. Mas a recomendação que temos é de extrema cautela, sabendo que voos diretos não vão acontecer”. A situação só será desbloqueada quando se resolver o fornecimento de petróleo.
Por isso, a recomendação interna “é não enviar” ninguém para Cuba. “Apelamos a que escolham outro destino“. A situação já levou a alguns cancelamentos de pessoas que tinham viagens programadas, “mas aceitaram mudar para outros destinos”. Em causa não está só o problema de aviação, alerta Miguel Quintas. “Estamos a falar de gestão hospitalar, em que há um racionamento de energia, da restauração, de acesso à internet, de mudanças de hotéis que não conseguimos prever. Há hotéis que estão a ser fechados e os clientes estão a ser transportados para outros hotéis, se para fazer racionamento de energia. Nós não conseguimos garantir a um cliente que vai ficar num hotel quando amanhã pode ter de mudar por decisão do governo. É capaz de ser extemporâneo viajar neste momento”. Para quem decida ir mesmo assim, as agências pedem para que o seguro de viagem seja reforçado.
Mesmo que o embargo de petróleo seja levantado em breve, Miguel Quintas não tem dúvidas de que o turismo português para Cuba vai “baixar muito” este ano. “Vai ser uma crise muito grande para Cuba. Portugal até estava a aumentar o número de turistas que envia para lá, mas com esta instabilidade o país vai sofrer muitíssimo”.
Vila Galé decide na próxima semana “como ficará a operação”
Portugal tem apenas uma cadeia de hotéis com presença em Cuba, o Vila Galé, que detém na ilha quatro unidades. Quem tenta fazer uma reserva para qualquer um dos quatro hotéis no site do grupo depara-se em todos com a mesma mensagem: “Este hotel encontra-se temporariamente encerrado”. Contactado pelo Observador, o administrador do grupo garante que “hoje [quinta-feira] ainda estão dois abertos”, o de Cayo Paredón e Cayo Santa Maria.
O Vila Galé está “a avaliar a situação e na próxima semana” decidirá “como ficará a operação em Cuba. Tem havido necessidade de ajustes quase ao dia”, diz Gonçalo Rebelo de Almeida. As pessoas que estavam nos dois hotéis encerrados, o Tropical Varadero e o Express Park, em Havana, foram realocadas noutras unidades.
Na semana passada, num encontro com jornalistas, o CEO do Vila Galé, Jorge Rebelo de Almeida, admitiu que a situação em Cuba “não está fácil”, ainda que o grupo tenha a intenção de ficar com mais um hotel no país. O “maior constrangimento é a falta de eletricidade e a falta de combustível”, dizia Jorge Rebelo de Almeida há uma semana.
No portal das comunidades portuguesas foi publicado esta semana um aviso aos viajantes relativo à escassez de combustível, chamando a atenção para o setor do turismo e “para o encerramento temporário de algumas unidades hoteleiras e possíveis disrupções nos voos, deslocações, excursões e atividades recreativas”. O portal do MNE recomenda que “face à volatilidade das circunstâncias atuais, os viajantes devem manter-se informados através de fontes oficiais”, além do registo “na aplicação ‘Registo Viajante’ e a contratação de um seguro de viagem abrangente, que cubra situações de evacuação médica e de cancelamento ou interrupção de viagem”.
O MNE alerta que “devido às fragilidades do sistema de produção e distribuição de energia, os cortes de eletricidade são muito frequentes em Cuba, sendo geralmente mais prolongados fora da capital”. E que, “embora vários hotéis e restaurantes disponham de geradores, os seus serviços podem ver-se mais limitados no caso de cortes muito prolongados. O funcionamento dos hospitais pode, igualmente, ser afetado quando se verifica uma quebra do sistema elétrico a nível nacional”.
Alguns países já tomaram medidas mais drásticas. O Canadá, principal emissor de turistas para Cuba, emitiu esta semana um alerta no qual recomenda que se evitem viagens não essenciais para o país. As companhias aéreas canadianas já suspenderam as viagens para Cuba, estando apenas a facilitar o regresso dos viajantes que ainda estão na ilha.
Também a Rússia, segundo maior emissor de turistas, ordenou esta quarta-feira a retirada de todos os viajantes de Cuba devido à falta de combustível. As companhias aéreas russas informaram que vão proceder nos próximos dias, e até 24 de fevereiro, à evacuação de cerca de quatro mil turistas, a partir de Havana e Varadero, e que serão cancelados novos voos de ida.
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