Pedro Passos Coelho continua a dar dores de cabeça ao Governo. Este sábado voltou à carga, numa conferência pelo 5º aniversário do Instituto +Liberdade, e avisou que, apesar de achar “pouco provável” voltar a ocupar um cargo tão ativo como o de primeiro-ministro, se isso acontecer “não será pelas melhores razões” — e significará que o país e o PSD não estão satisfeitos com o estado do país e do Executivo.
“Porque se tudo correr bem e as coisas correrem de modo que o país esteja satisfeito e o PSD, que está no Governo, esteja satisfeito com o seu desempenho, por que razão é que agora hão de ir ao baú da história”, questionou, numa intervenção em que refletiu sobre a razão para ter deixado a liderança do PSD, em 2017, e lançou críticas dirigidas à equipa de Luís Montenegro, e particularmente à criação do ministério da Reforma do Estado.
Dirigindo-se à plateia, e num momento em que tanto se especula sobre um seu eventual regresso à política — e as razões que o levam a criticar de forma cada vez mais assumida o Governo de Luís Montenegro –, Passos mostrou-se desapontado por as suas intervenções não terem levado a debates sérios sobre os temas que o preocupam (pelo menos, não tanto quanto sobre as suas intenções e sua vontade, ou não, de voltar ao ativo).
Depois de ter sido questionado por um elemento da plateia sobre isso mesmo, Passos respondeu sobre o porquê de nunca dizer “nunca”, mesmo que considere pouco provável voltar a liderar um governo. “Não me achei um inútil para a política. E, portanto, nunca disse que nunca mais voltaria a fazer política, porque achei que era absolutamente ridículo estar a comprometer o meu futuro com uma máxima para descansar toda a gente: “Não, os senhores durmam descansados, nunca mais”. Acho absolutamente desnecessário fazer declarações dessa natureza”.
Um dia depois de ter negado estar de volta à política ativa, Passos disse não saber “se algum dia voltaria a ser preciso ou não” ou se seria a “pessoa indicada”, rejeitando especular, uma vez que não sabe quais serão as circunstâncias. Mas quis frisar que não está a preparar nenhuma candidatura: “Nem sei quando é que há eleições lá no meu partido. Há de haver um dia destes, daqui a dois anos. E, portanto, essa não é uma questão com que eu esteja a ocupar o meu pensamento“.
E fez questão de dizer que não precisa de “pedir licença a ninguém” para dizer o que pensa, mesmo que haja “quem não goste”: “Eu fui presidente do PSD e primeiro-ministro, ando na minha vida, que não passa por nenhuma intervenção partidária, neste tipo de contexto, e digo aquilo que penso. E não preciso pedir licença a ninguém para dizer aquilo que eu penso” — tendo percebido “pelo telemóvel” que gente ficou aborrecida” e outros “entusiasmados” com as suas recentes aparições.
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Sobre o seu afastamento da vida política, em 2017, Passos explicou que decidiu não se recandidatar à liderança do PSD “em grande parte” porque achou que a solução de governo encontrada, a “geringonça“, não era do seu agrado e era “politicamente mais barata” pelo facto de estar a liderar os sociais-democratas.
Em segundo lugar, o social-democrata considerou que se transformou, na altura, num “fator limitativo do crescimento do PSD”, ainda que não tivesse “nenhum problema” com o seu desempenho no Governo.
“Achei, no entanto, que era preciso dar a oportunidade de mudar a conversa da conversa da troika. E, portanto, achei que devia libertar o PSD dessa conversa. E o PSD libertou-se razoavelmente dessa conversa. Tanto que hoje se sente perfeitamente, ou quase tão perfeitamente, distante já desse tempo quanto a generalidade dos outros partidos. E talvez isso seja positivo”, defendeu. Montenegro tem tentado, de resto, cortar o mais possível com a memória desse tempo e voltar a posicionar o PSD como um partido que também distribui rendimentos (e Passos criticava esta semana quem se dedica não a fazer reformas transformadoras, mas a fazer a “gestão do eleitor-contribuinte”).
E aproveitou ainda para fazer críticas mais concretas à forma como o Governo está a conduzir a sua anunciada reforma do Estado, começando pela criação de um ministério com essa intenção — segundo Passos, que diz até ter “apreço” pelo ministro Gonçalo Matias, é uma forma de fazer política “antiga” e um mau sinal quando se quer mudar comportamentos nas estruturas que já existem.
Durante a hora em que falou, Passos falou de temas variados, deixando as suas opiniões e avisos: para evitar um crescimento económico anémico do país, considerou que Portugal precisa de uma “abundância de fatores”, “qualidade nas instituições” e produtividade; na saúde defendeu o regresso das Parcerias Público-Privadas, sob pena de surgir um Serviço Nacional de Saúde “para os pobres”, e pediu a quem tem responsabilidades públicas que “saia do que é convencional” sem receio de ouvir acusações de que quer “privatizar a saúde”.
Sobre a imigração, reconheceu que é essencial para o país contar com“gente que venha de fora”, ou seja, imigrantes; mas realçou que “o modelo não pode ser aquele que foi seguido nestes anos”, considerando que “foi um grande erro ter aberto as portas à imigração”. “Mas, evidentemente, vamos precisar de gente que venha de fora, senão isto não vai funcionar. Temos de ter aqui um modelo que funcione, que permita integração, assimilação, que não levante problemas de instabilidade social, nem de insegurança pública”, acrescentou.
Passos visou também “o excesso de regulação” que “atrapalha o Estado”, dando como exemplo o setor da habitação. Na ótica do antigo primeiro-ministro, o preço elevado das casas no país reflete “o custo administrativo de uma regulação que funciona mal”. “O Estado hoje é um travão fortíssimo ao crescimento”, criticou. E falou ainda sobre o modelo da Segurança Social, alertando que existe “um problema de sustentabilidade” e que se anda “há anos a contar uma história da carochinha às pessoas” que “mais dia menos dia vai acabar mal”.
“Mesmo que financeiramente venha a ser sustentável daqui a 25 anos, que será, não é socialmente sustentável, porque as pessoas não vão poder viver com as reformas que vão receber. E, portanto, vão bater à porta do Orçamento de Estado, como é evidente, a pedir complementos”, antecipou. Mais um recado dirigido a São Bento: para o PS isto não parece ser um problema, disse, acrescentando logo depois que não sabe o que o Governo pensa sobre o tema, e “convinha começar a tratar disso”.
Na plateia estavam algumas figuras da Iniciativa Liberal, como o antigo candidato à Presidência da República, João Cotrim de Figueiredo, Carlos Guimarães Pinto, ou a antiga líder liberal Carla Castro (que entretanto se desvinculou), assim como o socialista João Galamba, que interveio num painel anterior.
Já à saída da conferência, Passos Coelho foi questionado sobre a situação no Irão, depois de os EUA e Israel terem lançado um ataque militar contra o Irão. O antigo chefe de Executivo disse olhar para a situação com “a preocupação normal que estas situações sempre motivam” e salientou que “a intervenção que foi feita tem uma história e um antecedente” com consequências difíceis de antecipar.
Acrescentou que o Irão não é o seu país, mas “o que se passa lá não é uma coisa que entusiasme qualquer pessoa que se preocupe com os direitos humanos, com a democracia, com a sociedade livre, que não existe”.