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O ex-governador do Banco de Portugal está prestes a reformar-se, mas não planeia parar. Aliás, “a aposentação é uma questão administrativa”, disse em entrevista ao Diário de Notícias. Faltavam poucos meses para que Mário Centeno pudesse pedir a reforma, mas este processo foi acelerado pelo próprio BdP, que lhe apresentou uma proposta nesse sentido. Centeno aceitou e explica agora que se tratou de uma “decisão consciente de liberdade”.
“Para mim, a liberdade é o mais importante. E vou assumi-la em pleno [e] tentar contribuir para mim, para os meus e para aquilo que for relevante”, afirma Mário Centeno. E garante que vai “continuar a pensar e a trabalhar, exatamente como fazia antes”. “Não há nenhuma alteração. Aliás, a melhor demonstração disso é exatamente estar aqui, nos Estados Unidos, na universidade”, exemplifica. O antigo governador do BdP falou àquele jornal a partir de Miami.
Questionado sobre o futuro — e se passará pela política — Mário Centeno quis manter todas as opções em aberto. “A resposta mais genuína e mais certa, neste momento, é a de que o futuro está em aberto. Verdadeiramente, o futuro está em aberto.”
Para Mário Centeno, em termos políticos, o país precisa “de pensar”. “Neste momento, ninguém pensa genuinamente. Reagimos a estímulos”, critica, sublinhando que é preciso ser mais exigente com o país e também com os líderes políticos sejam melhores. “O país precisa de que, quem quiser ser líder, mostre serviço e preparação. E isso quase nunca acontece.”
Criticando a inexistência de “ideias sustentadas”, o antigo governador do BdP diz que “as pessoas estão verdadeiramente cansadas de não haver preparação, de não verem a demonstração de que aquilo que se diz tem substância”. Apesar das críticas diretas aos atores políticos, o antigo ministro socialista recusa dizer se vai ou não contribuir para a apresentação de ideias devidamente sustentadas: “O que precisamos agora é de voltar; aos livros, ao papel, ao pensamento. E isso não está a acontecer.”
Em termos económicos, Centeno considera que, na última década, o país ganhou uma capacidade de atuação muito significativa, algo que “não tinha”. Mas esta evolução “não chega, porque isso esgota-se”, alerta. Ainda assim, elogia a capacidade de responder em articulação com a restante Europa, aquilo que “faz sentido” acontecer. “O país é as pessoas, e as pessoas sabem exatamente o que querem”, disse, destacando a influência dos cidadãos.
E em termos de riscos económicos — principalmente tendo em conta o contexto de guerra no Médio Oriente? “São os mesmos [riscos] que se colocavam há muitos anos: a possibilidade de uma crise financeira”, afirma Centeno. E acrescenta que Portugal corre sempre o risco de ser “levado, arrastado, por uma crise financeira”, principalmente tendo em conta a atual instabilidade no Médio Oriente.